Produtos de poupança dos seguros terão de ser redesenhados

Enquanto se espera pelo Produto de Poupança Europeu, o PEPP, os seguradores nacionais estão adaptar-se com novas ofertas num contexto difícil. Novos incentivos fiscais vinham a calhar para fazer crescer a motivação para a poupança.

Há menos portugueses a preparar a reforma. Dificuldades orçamentais que a pandemia veio agravar. Os números são de junho e da responsabilidade de “O Observador Cetelem”. Diz o estudo que apenas 37% dos portugueses preparam a reforma, o que é menos dois pontos percentuais relativamente ao apurado no semestre homólogo do ano passado. E numa análise mais fina, o mesmo estudo conclui que 11% dos portugueses recorrem a PPR, enquanto 5% estão no “mealheiro tradicional”, ou seja, depósitos a prazo, quando em 2019 eram 7% a ter esse modelo de poupança; e apenas 3% entraram nos investimentos em produtos bancários, como ações. Grave é o facto de 63% dos portugueses nada fazerem para preparar a reforma, quando no ano passado essa percentagem ascendia a 61%. A situação tende a agravar-se.

Mas o que podem fazer os seguros? Um grande survey junto de seguradores aponta caminhos numa altura em que o regulador da indústria, a ASF – Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões divulga dados relativos ao terceiro trimestre de 2020 quanto à produção do setor, e onde o ramo Vida e os PPR caíram 68,6% em termos homólogos. A produção global de seguro direto em Portugal caiu 22,9% face a setembro do ano passado. As taxas com sinistros globais cresceram 15,4% no mesmo período.

 

Os novos produtos
Com a chegada dos produtos de poupança europeus, os PEPP e outros com rótulos PEPP, os seguradores terão de tomar iniciativas. Diz Carla Sá Pereira, da consultora EY, que os produtos de poupança “precisarão ser redesenhados (e tarifados) para refletir a realidade do mercado. Como tal, esperamos que mais operadores se especializem, com muitos optando por se concentrar mais estritamente em produtos de proteção e outros em produtos de poupança específicos, promovendo a bifurcação de mercado que está em andamento”. Adianta que em mercados maduros “observa-se um crescimento lento (ou mesmo decréscimo) e o declínio do número de clientes continua a ser preocupação. Estas pressões têm levado a uma alteração no mix de produtos para atender aos clientes mais velhos, que continuam a ser os compradores dominantes. Ao mesmo tempo, as empresas de seguros procuram formas de chegar mais cedo às gerações mais novas com serviços que sustentem relacionamentos de longo prazo. As gerações mais novas têm poupanças mais limitadas, pelo que as seguradoras têm de se apresentar em momentos críticos da vida e demonstrar o seu valor (por exemplo poupar para comprar uma casa)”.

Diz ainda esta gestora que é crítico o sucesso no mercado em massa. E já se observam mudanças nas tendências de produtos. As maiores mudanças são para ter mais produtos de risco e produtos ligados a investimentos, em vez dos produtos tradicionais. Acrescenta que “é esperada também uma mudança na direção de produtos mais transparentes e uma proteção e informação ao consumidor mais rigorosa”. Na mesma linha vai Nelson Machado, da Ageas, que diz que haverá que pensar em “novos grupos de clientes com cada vez maior conhecimento das soluções, mais exigentes e mais digitais. É uma oportunidade para o setor e que terá como resposta uma comunicação mais clara, uma melhor exposição do quadro de benefícios e riscos associados e a disponibilização de diferentes canais de comunicação, consoante a preferência do cliente. Mas não é só ao nível da apresentação que temos de ser mais criativos, também ao nível das próprias soluções há espaço para inovar. O futuro Plano Europeu de Pensões (PEPP) será seguramente uma oportunidade única de reposicionarmos a poupança na agenda, com soluções mais flexíveis, com maior “pegada digital” e que acompanhem clientes cada vez mais dinâmicos e com maior deslocalização das suas atividades profissionais.

Ana Mota, do broker MDS, alerta que, embora o setor segurador esteja a ser criativo nas campanhas, “nem sempre a mensagem chega aos aforradores. Antes de mais, tem de existir uma recetividade por parte dos consumidores, o que só é possível com uma verdadeira cultura de poupança e de seguros. O Estado devia desempenhar aqui um papel fundamental, mas face à falta de políticas públicas ativas de promoção da poupança, o setor segurador tem de ser mais ativo e ganhar visibilidade na sociedade, começando por uma maior aposta na educação financeira dos mais jovens, com a criação de programas específicos sobre poupança e investimento. Na MDS, enquanto líderes de mercado, temos vindo a cumprir esta missão, nomeadamente através do apoio a várias iniciativas de sensibilização, como é o caso do Projeto de Educação Financeira “No Poupar está o Ganho” desenvolvido pela Fundação António Cupertino de Miranda, o qual tem por objetivo consciencializar as crianças e jovens para a importância de, desde cedo, terem hábitos de poupança e de consumo responsável, ajudando-os a adquirir competências financeiras que lhes permitam a tomada de decisões corretas e informadas no futuro”.

Oscar Herencia, diretor geral da MetLife para a Península Ibérica, esquematiza que existem dois grandes fatores que impedem um maior nível de poupança: “Uma redução no bem-estar financeiro de muitas famílias provocada pela crise financeira anterior e que não progrediu o suficiente nos últimos anos; e, em segundo lugar, o ambiente de baixas taxas de juro que tem levado muitos portugueses a optarem por amortizar os seus créditos, o que funciona como uma forma alternativa de poupança. Ainda assim, a crise atual mostra que a baixa taxa de poupança coloca os portugueses numa situação muito vulnerável face a uma quebra inesperada dos rendimentos. Temos todos que fazer mais nessa matéria”.

Miguel Alexandre Fernandes, da PwC, relembra dados do Eurostat relativos a 2019 que dizem que a taxa de poupança em Portugal foi de 7%, o que compara com 12% de média de taxa de poupança na União Europeia. E destaca que dos países intervencionados após a crise de 2008, Portugal continua a ser aquele que apresenta o salário mínimo inferior. Em 2020, este valor fixa-se nos 740,08 euros mensais, que compara com 758,03 euros da Grécia, 1.108,3 euros de Espanha, e 1.681,6 euros da Irlanda.

Incentivos
Sobre os incentivos fiscais, as opiniões dividem-se e se em anos anteriores existia uma sintonia sobre essa necessidade, em 2020 a tendência não é tão precisa. E isto porque a obrigação de poupar é imperiosa perante as adversidades do mercado e da capacidade do Estado em suprir todas essas necessidades, logo os agregados terão de assumir esse objetivo desde o início da atividade produtiva.

Nelson Machado, da Ageas Portugal, diz que “consumir vs. poupar é uma escolha económica, onde o quadro de incentivos nunca pode ser ignorado, sobretudo quando chegamos à situação onde nos encontramos hoje, que é muito preocupante. Os incentivos podem ter um papel determinante em facilitar e impulsionar os ‘primeiros passos’. Um exemplo concreto: nos produtos para a reforma e de longo prazo, temos de aceitar que o benefício seja indexado a uma menor liquidez dos montantes destinados a essas poupanças. Os incentivos têm de ser integrados numa perspetiva mais ampla e sinérgica, abrangendo também as empresas e o seu papel enquanto bons empregadores, com práticas que reforcem a poupança dos seus colaboradores e os incentivem a perceber ainda melhor a importância da mesma num futuro em que, felizmente, vamos ter mais anos de vida e em que devemos garantir a melhor qualidade de vida nesse período das nossas vidas”.

Ana Paulo, da Zurich Portugal, diz que o incentivo à poupança é fundamental. “No atual contexto de baixas taxas de juro, o incentivo fiscal é da maior relevância. Este tipo de incentivo é prática em vários países da Europa e tem sido uma alavanca muito importante para melhorar os níveis de proteção das famílias. Há que ter em conta que os incentivos fiscais concedidos aos cidadãos quer seja no momento da constituição da poupança, quer seja no final do contrato, é sempre compensado através do investimento efetuado pelos investidores privados, onde os seguradores se incluem, em ativos do Estado (obrigações e dívida pública), retornando à sociedade através dos investimentos públicos”. Na mesma linha está Miguel Alexandre Fernandes, da PwC, o qual afirma que o Estado deve incentivar a poupança dos particulares através dos meios que tenha à sua disposição, “pois a mesma permite reduzir os dispêndios do Estado em tempos de crise económica, como a atual. O incentivo por via de benefícios fiscais deve ser avaliado de forma a garantir que a perda de receita que é causada por este mecanismo se traduz numa redução futura de despesa através da redução/eliminação de apoios e/ou complementos sociais prestados pelo Estado”.

Conclui que a política monetária seguida pela União Europeia tem permitido o fácil acesso da economia nacional a financiamento externo. “A implementação de benefícios fiscais associados à poupança permitiria não somente o incremento desta como também representaria uma fonte alternativa, interna, de financiamento da nossa economia.”

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