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‘Quero, posso e mando’ é o lema de Drahi na Sotheby’s

Patrick Drahi decidiu e fez aplicar, em 2024, uma nova política de comissões na leiloeira Sotheby’s. Não correu bem, foi contestado e ignorou alertas. “Todos os que trabalham aqui são substituíveis”.
7 Setembro 2025, 11h51

Na revista “New Yorker” nem todos os temas merecem espaço nas suas páginas. É normal. Critérios editoriais, atualidade e outros pergaminhos são ponderados. As long-reads não escapam a esses mesmos critérios, sendo que dois fatores pesam ainda mais na equação: tempo e investigação. E o resultado de ambos, claro.

Na última edição, o jornalista Sam Knight assina um tratado de 12.000 palavras sobre as mil e uma vidas de Patrick Drahi. Porém, a parte que nos interessa remete para uma decisão que poderia ter sido um desastre absoluto: a reformulação da estrutura de comissões da Sotheby’s.
Mas quem é Patrick Drahi? Nascido em Casablanca, e filho de dois matemáticos emigrantes marroquinos, não herdou fortuna, subiu a pulso. Soube multiplicar investimentos, fez escolhas audaciosas e bastou-lhe uma década para construir um império, a Altice. O fundo de capital de risco criado em 2011 transformou-se num gigante das telecomunicações, com um pé nos media e outro em Wall Street, onde se estreou em 2017.
O passaporte português, que obteve em final de 2016, juntou-se aos dois que já levava no bolso: um francês e outro israelita. Conseguiu a nacionalidade portuguesa ao abrigo de uma lei de março de 2015, que atribui esse direito aos descendentes de judeus sefarditas nascidos em Portugal antes da ordem de expulsão, em 1496. Foi dono da Portugal Telecom em 2015 e da Media Capital. Usa mão de ferro na gestão, corta a direito, despede sem contemplações. É, dizem, implacável.

Regressemos à Sotheby’s e à nova política de comissões, anunciada em fevereiro de 2024 e posta em prática em maio desse ano. A ideia inicial era padronizar a comissão do vendedor – limitada a 10% sobre os primeiros 500.000 dólares do Preço de Martelo do lote vendido e não aplicável a bens com estimativa baixa acima de 5 milhões de dólares. A comissão de compra nos termos dessa nova política era de 20% sobre o preço de martelo para bens até 6 milhões de dólares, valor acima do qual a comissão caía para 10%. Em dezembro último, contudo, a leiloeira decidiu mudar de rumo e reconheceu que a busca de “transparência, simplicidade e justiça ao nível das comissões” levou à perda de negócios.

Na referida reportagem na “New Yorker”, Knight inclui dezenas de conversas que manteve com antigos e atuais colaborados da Sotheby’s – Drahi comprou a famosa leiloeira em 2019, por 3,7 mil milhões de dólares – que consideram o “episódio das comissões” o ponto mais baixo da gestão de Drahi nesta casa com três séculos de história. Houve até quem comparasse essa nova política à obsessão de Trump com as tarifas comerciais. “Para quê instalar o caos?”, questionou um antigo funcionário. Ao passo que um colaborador atual apelidou a iniciativa de “drama shakespeariano”, na sequência da queda a pique das receitas da leiloeira, seis meses após a entrada em vigor da nova política de comissões.
Em junho de 2024, revela Knight, os diversos presidentes do Concelho de Administração pressionaram Drahi diretamente para reverter a decisão. “Tem de fazer alguma coisa. Nunca perdi negócios e agora é isso que está a acontecer. Não aguento mais esta situação”, terá dito Grégoire Billaut, presidente de Arte Contemporânea, a Patrick Drahi. A reação foi imediata e pouco polida. Segundo Knight, a resposta terá sido: “Se é assim, tem mais é de sair… Isto não é uma democracia. É a minha empresa e quem a dirige sou eu. Todos os que aqui trabalham são substituíveis”.

O homem que prometeu modernização e valor acrescentado adotou práticas empresariais agressivas, reestruturações violentas com cortes de pessoal e redução de salários, que resultou na perda de vários especialistas e de quota de mercado para a leiloeira rival Christie’s. O setor leiloeiro, assente em relações de confiança e sensibilidade estética, tremeu perante as manobras disruptivas do empresário franco-israelita. A reputação da Sotheby’s ficou seriamente comprometida. E a de Drahi?


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