Rachida Dati: Ex-ministra quer tornar Paris de direita outra vez

Eurodeputada prepara autárquicas de 2020 com o objetivo de pôr fim a um jejum de quase 20 anos no centro-direita. Para isso terá que derrotar a socialista Anne Hidalgo, outra filha de imigrantes.

DATI in the EP in Brussels

A ser verdade que Paris vale bem uma missa, como terá dito Henrique de Navarra ao desistir do protestantismo para ser rei de França, Rachida Dati leva a vantagem da presença assídua na eucaristia dominical. Algo que poderia ser estranho na segunda dos 11 filhos de um marroquino e de uma argelina não fosse o facto de a política de 53 anos ter estudado num colégio de freiras católicas.

Nascida para contrariar preconceitos e estatísticas, a atual eurodeputada dos republicanos, mais conhecida por ter sido a ministra da Justiça de Nicolas Sarkozy, não consta das listas do centro-direita para Estrasburgo nas eleições europeias e já não esconde que tem a ambição de conquistar Paris nas municipais de 2020. A consegui-lo, quebraria um ciclo de domínio socialista (Bertrand Delanoë foi “maire” entre 2001 e 2014, sucedendo-lhe a atual presidente Anne Hidalgo) só comparável ao ciclo anterior da direita gaulista, pois Jacques Chirac governou de 1977 a 1995, deixando no lugar o ex-adjunto Jean_Tiberi ao ser eleito presidente de França.

Para já, Rachida Dati surge em terceiro lugar nas sondagens, com 19,5%, atrás de Hidalgo (22%) e de Benjamin Griveaux, do movimento República em Marcha, do presidente Emmanuel Macron. Mas os estudos de opinião indicam que é a figura da sua família política mais capaz de convencer o eleitorado centrista, essencial para tornar Paris de direita outra vez.

Para já, a ex-ministra da Justiça preside ao 7.º Bairro de Paris, um bastião da direita, no qual se encontram edifícios tão emblemáticos quanto a Assembleia Nacional, a residência oficial do primeiro-ministro, diversas embaixadas e a Torre Eiffel. Mas não quer ficar pelos quarteirões mais exclusivos. “Paris não vencerá se estivermos uns contra os outros, e ainda menos se os bairros do Oeste estiverem contra os do Leste. Irei lutar por essa união. Irei lutar pelos parisienses._Paris merece-o”, disse no ano passado.

Mais recentemente, numa entrevista ao “Le Parisien”, deixou claro que está interessada na candidatura à presidência da Câmara de Paris. Quer, para tal, apresentar “um projeto terra a terra” para melhorar a vida dos parisienses, afastando de vez fantasmas das últimas duas décadas. “Constato que a direita nunca se recompôs da derrota em 2001. É como se tivesse interiorizado que deixara de ter legitimidade para se apresentar aos parisienses._Eu penso o contrário”, referiu.

Mesmo que para isso tenha de enfrentar diretamente a gestão de Anne Hidalgo, a socialista com quem várias vezes mostrou ter mais afinidades do que apenas o facto de ambas serem mulheres e filhas de imigrantes. A provável candidata da direita tem salientado que Paris vem perdendo uma média anual de 12 mil habitantes ao longo do mandato da autarca socialista. “Paris tornou-se uma cidade que se deixa para trás._Vão-se embora porque é stressante e suja, porque tudo nela é complicado”, sentenciou, recusando que a bolha imobiliária explique tudo e colocando ênfase na insegurança que se vive nas ruas da cidade.

Estudante de Medicina falhada, convertida à Economia e ao_Direito, deve a entrada no mundo da política ao combate à delinquência, causa que a fez tornar-se notada por Nicolas Sarkozy quando o futuro presidente francês era ministro do_Interior. Mais tarde seria sua porta-voz e ministra da Justiça, vincando uma proximidade que deu origem a rumores venenosos em 2009, aquando do nascimento de Zohra, filha de Rachida. Não tornou público o nome do pai da criança nessa altura, mas em outubro de 2012 interpôs um processo de reconhecimento de paternidade contra o gestor Dominique Desseigne, reclamando uma pensão mensal de 6000 euros. A justiça acabou por considerá-lo pai da criança, não sendo antes ter argumentado que a então ministra teve oito amantes na altura em que a criança foi concebida, incluindo um ministro francês, um primeiro-ministro estrangeiro e um irmão do próprio Sarkozy.

Artigo publicado na edição nº 1983 de 5 de abril do Jornal Económico

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