Raros glaciares africanos deverão desaparecer nas próximas duas décadas, alerta ONU

O relatório sobre o estado do clima em África, publicado menos de duas semanas antes da abertura da Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (COP 26), agendada para o final do mês em Glasgow, destaca a vulnerabilidade desproporcionada de África e assinala que as alterações climáticas contribuíram para o aumento da insegurança alimentar, pobreza e deslocação no continente durante o ano passado.

Mais de 100 milhões de pessoas extremamente pobres estão ameaçadas pela aceleração do aquecimento global em África, onde se espera que os escassos glaciares desapareçam nas próximas duas décadas, segundo um relatório divulgado hoje pelas Nações Unidas.

O relatório sobre o estado do clima em África, publicado menos de duas semanas antes da abertura da Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (COP 26), agendada para o final do mês em Glasgow, destaca a vulnerabilidade desproporcionada de África e assinala que as alterações climáticas contribuíram para o aumento da insegurança alimentar, pobreza e deslocação no continente durante o ano passado.

“Até 2030, estima-se que até 118 milhões de pessoas extremamente pobres (isto é, vivendo com menos de 1,90 dólares – 1,64 euros – por dia) estarão expostas à seca, inundações e calor extremo em África, se não forem tomadas medidas adequadas”, declarou a comissária para a Economia Rural e Agricultura da Comissão da União Africana (UA), Josefa Leonel Correia Sacko, citada no prefácio do relatório.

“Na África subsariana, as alterações climáticas podem levar a um declínio adicional de até 3% do produto interno bruto até 2050”, acrescentou a responsável.

No entanto, os 54 países de África são responsáveis por menos de 4% das emissões globais de gases com efeito de estufa. Por outro lado, apesar das ameaças que se avizinham, as vozes dos africanos têm sido menos representadas do que as das regiões mais ricas nas reuniões globais sobre o clima e entre os autores das avaliações científicas do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), das Nações Unidas.

A participação africana nos relatórios do IPCC tem sido “extremamente baixa”, de acordo com o Future Climate for Africa, um programa de investigação que reúne vários países.

O relatório, coordenado pela Organização Meteorológica Mundial das Nações Unidas (OMM), é resultado de uma colaboração entre a Comissão da UA, a Comissão Económica para África e várias organizações científicas internacionais, regionais e da ONU.

“Durante o ano 2020, os indicadores climáticos em África caracterizaram-se por um aumento contínuo da temperatura, subida acelerada do nível do mar, fenómenos climáticos e meteorológicos extremos, tais como inundações, deslizamentos de terras e secas, e impactos devastadores associados”, explica igualmente no prefácio o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas.

“O rápido derretimento dos últimos glaciares na África Oriental, que se espera estar completo num futuro próximo, alerta-nos para uma mudança iminente e irreversível no sistema terrestre”, observou.

No ano passado, o continente africano aqueceu mais rapidamente do que a média global de terra e mar juntos. O ano 2020 posiciona-se entre o terceiro e oitavo ano mais quente de sempre no continente, segundo o relatório.

A tendência de aquecimento em 30 anos para o período 1991-2020 foi maior do que a do período 1961-1990 em todas as sub-regiões africanas e significativamente maior do que a do período 1931-1960.

As taxas de subida do nível do mar ao longo das costas tropicais e do Atlântico Sul, assim como no Oceano Índico são mais elevadas do que a média global.

E os glaciares africanos – ainda que demasiado pequenos para servirem de grandes reservatórios de água, mas de grande importância turística e científica – estão atualmente a recuar a um ritmo superior à média global. De acordo com a OMM, se esta tendência continuar, “o derretimento total ocorrerá até à década de 2040”.

Apenas três montanhas em África estão cobertas por glaciares: o maciço do Monte Quénia (Quénia), as Montanhas Rwenzori (Uganda) e o Monte Quilimanjaro (Tanzânia).

Em preparação para a intensificação dos riscos climáticos de alto impacto, a OMM apela a África para que investa em infraestruturas hidrometeorológicas e em sistemas de alerta precoce.

A organização acredita que a rápida implementação de estratégias de adaptação em África irá estimular o desenvolvimento económico e gerar mais empregos para apoiar a recuperação económica da pandemia de covid-19, e apela a uma “recuperação sustentável e verde” do continente.

Porém, os custos são enormes. “Globalmente, África necessitará de investimentos de mais de 3 biliões de dólares para mitigar e se adaptar a este processo até 2030”, através da implementação de planos climáticos nacionais, que exigem “fluxos significativos, acessíveis e previsíveis de financiamento condicional”, segundo Taalas.

“O custo da adaptação às alterações climáticas em África aumentará para 50 mil milhões de dólares por ano até 2050, mesmo assumindo os esforços internacionais para manter o aquecimento global abaixo dos 2 graus Celsius”, acrescentou o responsável.

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