Reino Unido vai pedir extensão da data de partida, sem que ninguém saiba para quê

Theresa May deu mais uma semana ao Parlamento para discutir um acordo de saída. E prepara-se para pedir mais tempo. Mas ninguém consegue descortinar para que servirá esse tempo extra.

Parliament TV handout via REUTERS

Depois de ao final da tarde de ontem os deputados britânicos terem fixado que o Reino Unido não poderá sair da União Europeia sem um acordo de princípio com os restantes 27, a primeira-ministra Theresa May vai novamente a Bruxelas para pedir a extensão do dia de partida, que deveria ser a 29 deste mês.

May deu entretanto o prazo de uma semana aos deputados para debaterem o que querem do Brexit – tendo aparentemente retirado a moção que deveria estar hoje em votação (sobre o pedido de extensão).

A votação da moção do governo será marcada para a próxima quarta-feira. Se o acordo for aprovado até então, o governo buscará uma extensão do artigo 50 até 30 de junho. Mas se o acordo não for aprovado, o governo precisará de uma extensão maior, exigindo que o Reino Unido participe das eleições europeias.

May sabe que a União Europeia aceitará essa extensão – para isso convergem todas as indicações sobre a matéria, nomeadamente palavras nesse sentido ditas esta quarta-feira pelo ministro português dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. Mas o que May não sabe, nem a União Europeia – como disse Jean-Claude Juncker – é para o que servirá essa extensão.

Nessa matéria, Theresa May foi conclusiva: disse já por várias vezes aos deputados britânicos que o prolongamento do prazo de saída da União não serviria para nada, se – como foi o caso – a Câmara dos Comuns não aceitasse as cirúrgicas alterações ao backstop propostas por Bruxelas no início da semana.

Ora, como os Comuns rejeitaram essas alterações e não é suposto que venham a aceitá-las no futuro – aliás, nem sequer está prevista qualquer outra votação sobre esta matéria no Parlamento – ninguém consegue descobrir para que servirá o adiamento.

May foi ontem muito cáustica sobre a matéria. Chegou mesmo a perguntar aos deputados se, perante a insistência no adiamento da saída, estariam interessados em revogar o artigo 50º do Tratado da União ou se estariam a pensar em promover um segundo referendo ao Brexit. Ou, dito de outra forma, a extensão é pura perda de tempo.

Em princípio, a nova data de saída deverá ser fixada no dia 23 de maio. É o limite máximo: a partir daí (se a extensão fosse mais além), o Reino Unido ver-se-ia forçado a organizar e votar nas eleições parlamentares que se realizam poucos dias depois. E isso seria, para todos os efeitos, elevar o Brexit ao patamar do mais absoluto anacronismo.

Entretanto, entre diversas votações de emendas, acrescentos e apartes, a cobertura do Brexit – a ver pelos principais jornais, os britânicos incluídos – praticamente deixou de ser ‘acompanhável’. Algumas emendas têm ainda força de lei, outras não – a não ser que o governo queira que tenham – o que transforma a sequência de acontecimentos numa nublosa muito pouco descortinável.

Ainda ontem sucedeu mais um desses episódios: os dos jornais mais conceituados do Reino Unido afirmava que a votação na emenda Spelman (uma das várias que esteve ontem em votação), se vencedora, impediria a votação na proposta do governo. Vários jornais europeus apressaram-se a afirmar que o parlamento tinha decidido que o Brexit não seria possível sem acordo. Minutos mais tarde – depois de votada o chamado compromisso Malthouse, que queria estender a saída até às 22h59 do dia 22 de maio! – a proposta do governo acabaria por ser também votada.

Toda esta confusão ameaça repetir-se pelo menos até 23 de maio. Ou talvez 30 de junho. Ou mais lá para a frente.

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