Foi com um copo de vinho da Madeira que um dos pais fundadores dos EUA brindou à independência do país há 250 anos. Thomas Jefferson – que viria a ser o terceiro presidente dos EUA – guardava o vinho da Madeira religiosamente na adega da sua casa em Monticello, Virginia.
É longa relação entre os dois países. Portugal foi também um dos primeiros países em todo o mundo a reconhecer a independência dos EUA da Inglaterra.
Depois de um ano de tensões geopolíticas, desde que Donald Trump regressou ao poder, Portugal e os Estados Unidos devem focar-se no futuro e ignorar a espuma dos dias, defendeu hoje um diplomata norte-americano sediado em Lisboa.
“Esqueçam o ruído, vamos focar-nos no que interessa, no futuro que estamos a moldar lado a lado. A amizade entre Portugal e os EUA não pode ser medida em dias, foi construída em anos e séculos. Vamos investir, celebrar a amizade”, disse esta sexta-feira Douglas A. Koneff, chargé d’Affaires da Embaixada dos EUA em Portugal.
“Nas notícias, parece que a relação transatlântica vive dias complicados, mas a verdade é que a relação é dinâmica, resiliente, por vezes muito complicada, como qualquer boa parceria. Mas também está cheia de oportunidades, inovação e respeito mútuo”, afirmou em discurso no evento que celebrou os 75 anos da câmara de comércio luso-americana (AmCham).
“Há uma piada que diz que a América pensa que a Europa regula todos os ‘swipes’, enquanto os europeus julgam que os americanos só veem notícias no TikTok… mas a realidade é que somos mais sofisticados e estamos mais ligados do que os estereótipos sugerem”, contou.
No seu discurso, destacou o centro de dados de Sines, “um dos maiores da Europa”, que, quando concluído, terá mais potência do que todos os centros de dados de Espanha combinado, num investimento dos norte-americanos da Davidson Kemper.
Já a startup portuguesa Sword Health, avaliada em 4 mil milhões de dólares, está presente no mercado norte-americano que usa a “inteligência artificial para revolucionar a saúde”.
Destacou os investimentos da Hovione, Sodecia, ou TMG nos EUA, “criando centenas de empregos”.
Por outro lado também sublinhou os investimentos de empresas dos EUA em Portugal: 2,4 mil milhões em 2024, sendo o maior país investidor fora da UE.
A chegada de mais turistas norte-americanos também foi apontada pelo diplomata. “Todos levam uma bela lata de sardinha. Nas minhas contas foram 10 milhões de euros em prendas de peixe, azeite e nostalgia”.
Mais de 2,5 milhões de turistas estiveram em Portugal em 2025, tendo gastado três mil milhões de euros.
Na Venezuela, sublinhou que os EUA “estão cientes dos 500 mil portugueses”.
“Vamos encontrar formas de apoiar o Governo português” em várias frentes, defendeu.
Iniciou o discurso recordando o início da sua carreira diplomática, na cidade mexicana de Matamoros que fica junto a uma das fronteiras com o estado do Texas nos EUA. “Não é o lugar mais bonito do mundo. Era muito duro, por vezes violento, mas com boas pessoas trabalhadoras”.
Recordou que um dia um bombeiro reformado da Califórnia de férias na cidade, foi preso na fronteira por ter cartuchos de caçadeira na sua autocaravana. Foi preso por suspeita de contrabando de munições para o México.
Douglas A. Koneff tinha uma boa relação com o procurador mexicano que estava com o caso. Trabalhou para o convencer que o reformado norte-americano tinha cometido apenas um erro, atravessando a fronteira sem pensar que as munições seria um problema e que poderia ficar uns anos na prisão. O procurador ficou convencido e o reformado acabou por ser libertado.
“O investimento naquela relação compensou. A lição ficou comigo para sempre e pode-se aplicar à relação EUA-Portugal, que não se trata apenas de tratados ou de estatísticas comerciais, mas sobre confiança, valores partilhados e uma relação que resiste ao tempo”, concluiu.
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