Respostas rápidas: Porque é que os EUA estão a apertar o cerco aos chineses da Huawei?

Numa campanha que já chegou a Portugal, os EUA continuam a pressionar aliados. Desta feita, a Alemanha. Washington teme a espionagem do Governo de Pequim. Em sua defesa, a Huawei lançou uma campanha que contraria as alegações da Casa Branca e processou o Governo dos EUA.

A administração Trump está desde meados do verão de 2018 a pressionar parceiros e países aliados a bloquear a tecnologia e as infraestruturas da chinesa Huawei, sendo a Alemanha o mais recente visado. Na segunda-feira, a partir de uma carta do embaixador norte-americano em Berlim, Richard Grenell, os Estados Unidos avisaram a Alemanha, na segunda-feira, para a possibilidade de acabarem com o acordo de partilha de informação entre ambos, se os alemães continuarem a recorrer aos serviços da Huawei.

A Casa Branca está reforçar os seus esforços para convencer os países aliados a boicotar a gigante tecnológica chinesa, considerada a maior fornecedora de infraestruturas para telecomunicações do mundo, segundo a consultora Brand Finance. Perceba o que está a acontecer com estas respostas rápidas.

O que aconteceu na segunda-feira?
Numa missiva endereçada à ministra da Economia da Alemanha, Brigitte Zypries, citada pela “The Wall Street Journal“, Richard Grenell fez saber que os EUA não conseguirão manter o mesmo nível de cooperação com as agências de segurança alemãs, se a Alemanha permitir que a Huawei ou outras empresas chinesas sejam os fornecedores da rede móvel 5G. Na carta, os EUA indicam que os sistemas de comunicação segura são essenciais para a cooperação em defesa e inteligência de ambos os Estados, defende o embaixador norte-americano, que aponta para o perigo de empresas como a Huawei poderem comprometer essa partilha de informação e cooperação.

Que países já foram sondados pelos EUA?
A abordagem norte-americana não é clara. Mas antes da Alemanha, também o Reino Unido foi sondado por Washington, embora um relatório britânico tenha concluído que não há perigos de segurança nos serviços da empresa chinesa –  também Portugal foi já questionado pelos EUA.

Algum país acedeu ao pedido norte-americano?
Por agora, somente Austrália e Nova Zelândia responderam positivamente à pressão norte-americana para impedir que empresas nacionais recorram aos serviços da Huawei.

Portugal já foi abordado pelos EUA?
Quanto a Portugal, Washington enviou no início do ano uma comitiva a Lisboa para discutir segurança de redes móveis com o Governo de António Costa. O embaixador norte-americano George E. Glass foi claro na sua mensagem ao avisar que participação chinesa nas telecomunicações portuguesas pode afetar relações no quadro da NATO.

Na comitiva norte-americana estava  Ajit Pai, presidente da Comissão Federal das Comunicações dos EUA (FCC, sigla inglesa), que fez saber que a participação chinesa “constitui um risco” que Portugal não deveria correr, tendo em conta a postura dos EUA.

Do lado português, num mercado onde as principais empresas de telecomunicações têm acordos e parcerias de desenvolvimento da nova geração de rede móvel, o 5G, com a Huawei, a questão não é simples. A Altice Portugal, por exemplo, está incluída num protocolo de cooperação entre o Pequim e Lisboa.

Recentemente, no dia 8 de março, o CEO da Nos, Miguel Almeida, falou publicamente sobre a questão da Huawei. “São especulações baseadas no facto de a empresa ser chinesa e de haver um governo chinês. Nós vivemos com base em factos e não temos qualquer evidencia de problemas de segurança com a Huawei”, afirmou à margem da apresentação dos resultados de 2018 da empresa.

O gestor acredita que a Europa vai “atrasar-se dois anos, pelo menos, com base em evidências que não existem”, se houver uma decisão da regulação europeia que não  permita o desenvolvimento de redes 5G em infraestruturas da empresa chinesa, quando não há “nenhuma evidência de que haja problemas de segurança com a Huawei”.

Mas por que motivo é que os EUA procuram boicotar a Huawei?
A administração Trump alega que a Huawei terá ligações ao Partido Comunista da China, mas é a recente lei chinesa que requer às empresas que colaborem com o governo chinês, quando solicitado, que estará a alimentar as suspeitas de práticas de espionagem por parte da tecnológica. No início do mês de fevereiro, o senador republicano Ben Sasse disse à “Associated Press” que a China está empenhada em comprometer os interesses de segurança nacional dos EUA, “usando entidades do setor privado” com frequência. Segundo Washington, o desenvolvimento da rede móvel de quinta geração, vulgo 5G, servirá para práticas de espionagem.

Até ao momento não há evidências factuais de práticas de espionagem da Huawei, no entanto pesa na Casa Branca também o facto de o fundador da tecnológica, o engenheiro Ren Zhengfei, ter um passado ligado ao exército chinês.

À suspeita de espionagem acresce a acusação dos EUA à diretora financeira e filha do fundador da Huawei, Meng Wanzhou, por práticas de fraude por, alegadamente, ter contornado as sanções económicas impostas por Washington ao Irão. O caso levou à dentenção de Wanzhou em Vancouver, Canadá – entretanto libertada sob uma fiança de mais de seis milhões de dólares, estando, agora à espera da conclusão do processo de extradição para os EUA.

A Huawei conta com 3 mil milhões de utilizadores distribuídos por 170 países, o que revela que a empresa chinesa tem no mercado externo a maior parte do seu volume de negócios. Um boicote internacional levaria a uma enorme pressão às contas da gigante chinesa, que centra a sua operação em infraestruturas de telecomunicações e no fabrico de telemóveis. No segmento das infraestruturas o maior rival é a norte-americana Cisco, enquanto no fabrico de telemóveis a Apple é o grande rival.

O que está a fazer a Huawei face à postura dos EUA?
A questão dos EUA com a Huawei está a tomar contornos políticos, quando o que está em causa é a atividade de uma empresa chinesa de dimensão mundial e numa altura em que decorrem negociações entre norte-americanos e chineses para dar por terminada a denominada Guerra Comercial entre as duas maiores economias do mundo.

Em sua defesa, a Huawei já revelou uma estratégia para combater o que considerou ser uma campanha dos EUA de “difamação”, politicamente motivada. A Huawei entrou, recentemente, com uma ação contra o governo dos EUA por uma proibição que restringe as agências federais de usar os seus produtos, alegando que tal é “inconstitucional”.

De acordo com a “BBC”, a Huawei também publicou anúncios na imprensa estrangeira e convidou jornalistas estrangeiros para visitar as suas instalações e unidades de produção. Um dos anúncios, impresso no “The Wall Street Journal”, foi amplamente difundido nas redes sociais. “Não acredite em tudo o que ouve”, é o mote.

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