‘Tapering’ é a palavra que a Fed quer abafar, pelo menos por enquanto

Mais estimulos orçamentais devido ao controlo do Senado pelos democratas e a perspetiva de um aumento do consumo pós-vacina fizeram aumentar as expectativas sobre a inflação e acender o debate sobre o ‘timing’da redução das compras de ativos pelo banco central. Jerome Powell deverá reiterar após a reunião de dois dias que ainda não é altura para essa discussão.

Chairman da Reserva Federal dos EUA, Jerome H. Powell (AFP)

A probabilidade é de 0%. Segundo o site CME FedWatch Tool, que monitoriza a negociação dos futuros da taxa de juro, a probabilidade de uma mexida na taxa de juro diretora pela Reserva Federal (Fed) norte-americana na reunião de dois dias que termina esta quarta-feira é nula, com a manutenção da federal funds rate no atual intervalo de 0% a 0,25% garantida.

Se esse é um dado adquirido, o outro apontado pelos analistas é que o banco central do Estados Unidos não irá fazer alterações no programa de compra de ativos. Antes pelo contrário, na conferência de imprensa depois da reunião do Federal Open Market Committee (FOMC), Jerome Powell deverá reiterar que o tapering, ou seja, a redução gradual das compras, é uma ideia que está tão longe no tempo que nem merece ser ainda mencionada.

“Não esperamos nenhum anúncio importante na próxima reunião… em vez disso esperamos que a Fed confirme a disposição para manter a sua postura acomodatícia”, referiu Franck Dixmier, Global CIO Fixed Income da Allianz Global Investors (GI).

A Fed quer tempo para reavaliar as projeções quanto às consequências da crise económica, da campanha de vacinação contra o coronavírus, do impacto do pacote orçamental que o Congresso votou no final de dezembro e do plano de estímulos que Joe Biden anunciou poucos dias antes de tomar posse, adiantou.

“Apesar de todos os fatores mitigadores em jogo no ambiente atual, já começou o debate nos mercados sobre o possível tapering“, sublinhou.

Esse debate acendeu com comentários de dois membros do FOMC, Raphael Bostic e Robert Kaplan, sobre a possibilidade de o tapering começar ainda este ano. Em resposta, dois outros membros, Loretta Mester e Richard Clarida, disseram que a redução das compras deverá começar apenas depois de 2021, uma ideia suportada por Powell.

Tema “quente” para 2021

Na base do debate está um aumento das expectativas sobre a inflação, que poderá acelerar mais rapidamente do antecipado devido aos estímulos orçamentais a serem aprovados com o controlo democrata do Senado e ao consumo que poderá resultar do desconfinamento se a vacinação tiver sucesso.

As expectativas sobre a inflação levaram as taxas de juro das Treasuries, as obrigações soberanas americanas, na parte mais longa da curva a subirem, com as de maturidade a 10 anos a ultrapassarem os 1% pela pela primeira vez desde o início da pandemia.

“Ciente dos riscos de uma comunicação prematura sobre o assunto, que levaria a tensões nos juros e a um estreitamento nas condições financeiras enquanto a economia dos Estados Unidos permanece frágil, Powell disse a 14 de janeiro em Princeton que este não é o momento para debater uma saída do programa mensal de recompra de ativos, que neste momento corre a um ritmo de 120 mil milhões dólares por mês”, recordou Dixmier.  “O presidente da Fed deve fazer o mesmo discurso na reunião do FOMC”.

Powell nessa altura admitiu que a inflação poderá até subir de forma repentina, mas salientou que esse fenómeno será curto e não persistente.

Dixmier acredita que a Fed poderá começar a comunicar uma desaceleração do programa de compra de ativos no final do ano – se a recuperação económica se materializar no segundo semestre e se a campanha de vacinação permitir a recuperação do consumo.

Na mesma linha, Mikael Olai Milhøj, analista sénior do Danske Bank vê o banco central a “começar a falar de forma mais séria sobre o tapering” no quarto trimestre deste ano, “para depois começar o processo de redução das compras no primeiro trimestre de 2022 e acabar um ano a seguir”.

Os analistas do CaixaBank concordam que a Fed a manterá uma política acomodatícia durante muito tempo, recordando que com a atualização do seu quadro estratégico, ancorou a expectativa de que as taxas de juro de
referência não se alterarão do intervalo 0,00%-0,25% até pelo menos 2024. O tema do tapering irá, no entanto, ser um dos mais “quentes” em 2021, sublinharam.

“Um 2021 desafiante e incerto está pela frente, onde a atuação da Fed dependerá em grande medida da evolução da economia (e da pandemia)”, referiram.  Em qualquer caso, a compra de ativos será o tema principal da Fed para 2021. “No BPI Research, acreditamos que, se não houver surpresas negativas para a economia dos EUA, o ritmo de compras permanecerá ao nível atual até ao final de 2021 e começará a ser reduzido em 2022”.

“Se a economia continuar a recuperar, a questão será determinar quando é que a Fed começará a reduzir o atual ritmo de compras (a Fed aumentou o seu balanço em 15 pontos percentuais do PIB (pré-pandemia) entre o final de 2019 e de 2020)”, vincaram. Por outro lado, “se o ambiente económico e/ou financeiro se deteriorasse, uma ferramenta natural para a Fed aumentar o estímulo monetário seria intensificar o ritmo de compra de ativos”.

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