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Tarifas: “Ursula von der Leyen e a Comissão portaram-se muito mal”

A Comissão Europeia deu uma triste mostra das suas capacidades negociais, refere Paulo Amorim, presidente da ANCEVE, que já não acredita que o vinho possa atingir o estatuto de isenção tarifária.
28 Agosto 2025, 07h00

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, “mas também o comissário do Comércio, Maros Sefcovic”, e as equipas da União Europeia, em geral, deram mostras de uma ineficácia assinalável ao longo das negociações com os Estados Unidos, disse ao JE o presidente da ANCEVE (Associação Nacional dos Comerciantes e Exportadores de Vinhos e Bebidas Espirituosas), Paulo Amorim. Não acreditando que os vinhos venham a conseguir, no futuro próximo, atingir a categoria de produto isento – “ao contrário do que se vai dizendo por aí” – o responsável da ANCEVE antevê um período de grande dificuldade para os vinhos nacionais que seguem (cada vez em maior volume e valor até há pouco tempo) para os Estados Unidos.

Paulo Amorim chama a atenção para o facto de o vinho português que é exportado para os Estados Unidos ser maioritariamente das gamas média e média-baixa, “o que quer dizer que têm menos margem para incorporar” a subida dos preços em pelo menos 15% – ao contrário do que sucederia se a produção exportada fosse de elevada gama. Para Paulo Amorim, não se percebe porque é que o vinho português não consegue produzir um ‘milagre’ comercial que tem sido atingido “por países como a Itália e a Áustria”. “O vinho português, o vinho verde, por exemplo, tem todas as características para conseguir o mesmo tipo de impacto”, refere.

O presidente da ANCEVE chama ainda a atenção para o facto de os negociadores europeus terem conseguido a proeza de arranjarem uma situação de subalternidade concorrencial com um vizinho, o Reino Unido, que conseguiu uma taxa de 10%, um terço menos que os 15% da União Europeia, o que vai acabar por fazer mossa do lado de cá do Canal da Mancha. Como sumário de toda a situação criada, Paulo Amorim admira-se muito com as declarações repetidas até à exaustão de que as negociações correram muito bem para a União Europeia, que conseguiu um excelente acordo. “Não consigo ver aonde.”

Recorde-se que a ViniPortugal emitiu, no final da semana, um comunicado sobre o acordo finalmente conseguido. O presidente daquela estrutura, Frederico Falcão, considerou que a decisão norte-americana de avançar com tarifas de 15% sobre os vinhos da União Europeia é “uma má notícia” para o setor português. Frederico Falcão alerta que o aumento da tarifa terá um “impacto direto” no preço final ao consumidor norte-americano, tornando os vinhos portugueses “menos competitivos” num mercado que é “crucial” para as exportações nacionais.

O presidente da ViniPortugal afirmou que a associação está “profundamente desapontada” com o resultado das negociações, dado que esta medida irá “afetar severamente” as exportações para os Estados Unidos, um mercado que é considerado “essencial” para os vinhos portugueses. “É, por isso, fundamental que a Comissão Europeia prossiga os esforços diplomáticos e negociais com vista a reverter estas tarifas e a salvaguardar os interesses dos produtores europeus”, defende Frederico Falcão.

O presidente da ViniPortugal diz que, para a maioria dos produtores, será “impossível” absorver uma redução desta dimensão sem “comprometer” a sua sustentabilidade financeira, o que poderá levar a uma “quebra acentuada” das exportações. “Esta situação é ainda mais preocupante quando consideramos que países como o Chile, Argentina ou Austrália enfrentam apenas tarifas de 10% e, por isso, conseguem chegar ao mercado com preços mais competitivos”, reforça o presidente da ViniPortugal.

Frederico Falcão diz que o impacto será “particularmente grave” para os vinhos de gama baixa, que representam a maioria das exportações portuguesas para os Estados Unidos. “Estes consumidores são mais sensíveis a variações de preço, pelo que se estima que a quebra no mercado possa ultrapassar os 20%, com consequências significativas para todo o setor. É importante sublinhar que, de janeiro a junho de 2025, comparando com o período homólogo de 2024, já se registava uma quebra de 6,90% em valor e uma descida de 2,28% em volume, números que demonstram a vulnerabilidade atual das exportações para os Estados Unidos e que poderão ser agravados por esta nova tarifa”, diz Frederico Falcão.

O presidente da ViniPortugal refere que a instituição vai “continuar a acompanhar” de perto este processo, “defendendo junto das autoridades europeias e norte-americanas os interesses dos produtores nacionais e reforçando a cooperação com os parceiros no mercado norte-americano, de forma a minimizar os efeitos desta medida e a preservar o posicionamento dos vinhos portugueses” nos Estados Unidos da América.

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