Acabou na madrugada desta quinta-feira a vigência do tratado nuclear New START, que impediu as potências nucleares – Rússia e Estados Unidos – de continuarem uma deriva que caracterizou o tenso ambiente da Guerra Fria durante décadas. O tratado foi apenas mais um dos vários com os quais os dois países aceitaram regras idênticas que foram sendo melhoradas ao longo de cinco décadas. O New START (Strategic Arms Reduction Treaty, Redução de Armas Estratégicas) foi assinado em 8 de abril de 2010 em Praga, pelos presidentes à época, Barack Obama e Dmitri Medvedev, e duraria até 5 de fevereiro de 2026, tendo sido prorrogado em 2021. Deixou de prevalecer esta madrugada.
Nesse novo contexto, Rússia e Estados Unidos já não estão sujeitos a quaisquer limites quanto ao tamanho de seus arsenais nucleares estratégicos, Especialistas em segurança afirmam, citados pela imprensa, que a expiração do tratado pode desencadear uma nova corrida às armas nucleares, que também será impulsionada pelo rápido desenvolvimento da China.
O presidente russo, Vladimir Putin, propôs que Moscou e Washington concordassem em aderir às principais disposições do tratado por mais um ano, mas o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não deu nenhuma resposta formal. Trump diz que quer um acordo mais abrangente que também inclua a China. Mas Pequim recusa negociar com os dois países porque possui apenas uma fração do número de ogivas nucleares das duas grandes potências – cerca de 600, em comparação com as cerca de quatro mil da Rússia e dos Estados Unidos.
Em comunicado divulgado na noite de quarta-feira, horas antes do sim do acordo, a Rússia criticou o que chamou de abordagem “equivocada e lamentável” dos Estados Unidos. O comunicado afirmava que Moscovo dava por finda, neste contexto, a vigência do acordo. A Rússia “continua preparada para tomar contramedidas técnico-militares decisivas para mitigar potenciais ameaças adicionais à segurança nacional”, refere o texto. Mas agirá com responsabilidade e está aberta à diplomacia para encontrar uma “estabilização abrangente da situação estratégica”, afirma o comunicado.
Do seu lado, Trump não fez nenhuma declaração. A Casa Branca afirmou esta semana que Trump decidiria o caminho a seguir em relação ao controlo de armas nucleares, que “esclareceria no seu próprio tempo” – que aparentemente ainda não chegou.
Na ausência de um tratado que proporcione estabilidade e previsibilidade, os analistas afirmam que cada lado terá mais dificuldade em decifrar as intenções da contraparte, o que pode levar a uma espiral em que cada um sente a necessidade de continuar a adicionar mais armas ao seu arsenal.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a dissolução de décadas de conquistas no controlo de armas “não poderia ocorrer em pior momento – o risco de uma arma nuclear ser usada é o mais alto em décadas”. E insistiu que a Rússia e os Estados Unidos retomarem as negociações sem demora para chegarem a um acordo sobre “uma estrutura sucessora que restaure limites verificáveis, reduza os riscos e fortaleça a segurança comum”.
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