O presidente dos Estados Unidos admitiu que o ataque conjunto com Israel ao Irão pode estender-se por até cinco semanas, e que, se for necessário, enviará tropas para o terreno iraniano – abrindo uma porta ao aumento do número de vítimas entre os soldados norte-americanos, o que é à partida tudo o que Donald Trump quer evitar para não aumentar o impacto interno da ação militar. “Já estamos significativamente adiantados em relação ao calendário. Mas não importa quanto tempo leve, seja o que for preciso, chegaremos lá”, prometeu Trump durante uma cerimónia na Casa Branca, acrescentando que os Estados Unidos têm “capacidade para ir muito além” das quatro ou cinco semanas inicialmente referidas.
O objetivo é claro – pelo menos a acreditar no parceiro da coligação militar, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, que afirma que não abandonará os combates antes de atingir o seu objetivo máximo inicial: derrubar o regime teocrata xiita. Trump disse também que a “grande onda” da ofensiva militar “ainda não aconteceu” e que está “a chegar em breve”.
Trump voltou a justificar a decisão de avançar sobre o Irão afirmando que aproveitou a “última e melhor oportunidade” para atacar, defendendo que um regime iraniano dotado de mísseis de longo alcance e armas nucleares representaria “uma ameaça intolerável” para o Médio Oriente e para o povo norte-americano. Acrescentava assim a questão nuclear ao tema dos mísseis balísticos, algo que faz parte das pretensões de Netanyahu desde o início, mas que não constava, para sua consternação, da agenda das negociações EUA-Irão mantidas em Genebra, Suíça, nas últimas semanas.
O último grande destacamento de tropas norte-americanas no terreno ocorreu no Iraque em 2003, e a presença em larga escala mais recente foi no Afeganistão, de onde os Estados Unidos se retiraram no verão de 2021, após duas décadas de guerra. Em nenhum dos cenários pode dizer-se com exatidão que a política norte-americana atingiu os seus objetivos. Mas o secretário da Defesa norte-americano, Pete Hegseth, garantiu que a maior potência militar do mundo não está a embarcar noutro “atoleiro”, sublinhando que não será necessário mobilizar centenas de milhares de militares nem manter uma presença prolongada no terreno para atingir os objetivos estratégicos definidos por Washington. Contrariamente, este domingo ficou a saber-se que Netanyahu convocou 100 mil reservistas para poderem entrar no exército.
De algum modo, a dupla atacante parece ter sido apanhada desprevenida pela reação iraniana, que foi bem diferente daquela que teve na chamada guerra dos 12 dias (em junho passado). Desta vez, a retaliação envolveu muito mais ataques por parte do Irão – que os distribuiu por quase uma dezena de países, sempre (ou quase sempre) em busca de infraestruturas militares norte-americanas e israelitas. Teerão retaliou contra bases militares em toda a região do Golfo, utilizando drones Shahed – veículos aéreos de combate não tripulados iranianos (UCAVs) – e mísseis balísticos de alta velocidade. Em junho, o regime de Teerão concentrou a resposta no ataque ao solo israelita, mas, desta vez parece ter pretendido aumentar os danos com a estratégia de disseminação dos ataques a vários países – onde se inclui Chipre, Estado-membro da União Europeia. Para os analistas, o aumento das zonas onde o Irão procura ter impacto pode também ser entendido como uma forma de os países visados exercerem pressão diplomática extra sobre os Estados Unidos e Israel para que acabem com a ação militar.
Economia pode derrapar
Num contexto em que há eleições intercalares em novembro e os eleitores são muito sensíveis ao andamento da economia – ou mais propriamente à disponibilidade do consumo das famílias – a economia norte-americana, que resistiu a um ano de choques comerciais, imigratórios e de outras naturezas, enfrenta um novo teste que provavelmente aumentará a incerteza. Os analistas estão focados numa longa lista de incógnitas, enquanto os preços do petróleo subiram dos 70 dólares para valores próximos dos 80 e o transporte pelas rotas petrolíferas estratégicas no Estreito de Ormuz começou a diminuir.
Embora os Estados Unidos estejam mais protegidos contra choques energéticos do que muitos outros países desenvolvidos – até pela evolução do mercado venezuelano – o impacto global sobre o comércio, os preços e os investimentos pode ter repercussões e comprometer as perspetivas de crescimento otimistas que se desenhavam para este ano.
Uma sondagem recente do Conference Board citada pela agência Reuters dava indicação de que a confiança dos CEOs nas perspetivas para a economia aumentou, mas quase 60% afirmaram haver um alto risco de que as tensões geopolíticas possam ser uma força disruptiva. O Banco Mundial, na sua análise mais recente à economia dos Estados Unidos, descreveu as perspetivas como “otimistas”, uma avaliação que agora terá que sobreviver ao tumulto de um conflito imprevisível numa região produtora de petróleo, com implicações para o transporte marítimo global, as cadeias de fornecimento e os preços das commodities, salientam os analistas.
Por outro lado, é certo que agora Donald Trump tem um ‘amigo’ na Reserva Federal, mas Kevin Warsh não poderá fazer milagres se os preços dispararem e a inflação voltar a mostrar tendências de crescimento. O impacto inicial nos mercados foi contido, mas é preciso esperar mais tempo para que haja novas avaliações até à decisão da Fed sobre taxas de juros, que devia ser no sentido da descida – e será tomada na reunião de 28 e 29 de julho. Um mau sinal antecipado: os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA estavam a subir rapidamente esta segunda-feira, possivelmente um sinal de preocupação com o aumento da inflação e do risco. E o dólar valorizou.
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