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Trump prepara-se para violar o que já chamou de “melhor acordo comercial do mundo”

O desrespeito norte-americano pelas regras do comércio internacional e tratados firmados com os seus parceiros, incluindo o Acordo EUA-México-Canadá (outrora apelidado de melhor acordo comercial do mundo” por Trump), obrigam a uma “resposta proporcional”, mas mantendo o diálogo com Washington, como a presidente mexicana habilmente tem conseguido, considera o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Mexicana.
2 Abril 2025, 07h00

Longe vão os tempos em que Trump classificava como o “melhor acordo comercial do mundo” o tratado EUA-México-Canadá (USMCA, em inglês), cujas normas e isenções se prepara agora para rasgar após uma montanha-russa de avanços e recuos no anúncio de tarifas, arriscando assim minar as normas internacionais do comércio e a colaboração entre países que facilita o seu crescimento. Para o México, os impactos serão inevitáveis (aliás, já se verificam), mas a diversificação que tem vindo a ser feita – incluindo o acordo de comércio com a UE – ajudará a economia a reduzir as perdas causadas pelo protecionismo norte-americano e até a cimentar o país como destino credível e estável de investimento, projeta o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Mexicana (CCILM) ao Jornal Económico.

Chegado o ‘Dia da Liberdade’, como tem apelidado o presidente Trump, o México prepara-se para uma nova onda de tarifas após os 25% sobre o alumínio e aço aplicados a partir de 12 de março a todos os países e à imposição de igual barreira em todos os automóveis produzidos fora do país. As tarifas transversais de 25% sobre o vizinho sul dos EUA e o Canadá foram adiadas até esta quarta-feira e, embora não sejam conhecidos detalhes, a presidência mexicana tem mantido a calma na esperança de ainda obter um acordo com Washington.

Esta postura da líder mexicana Claudia Sheinbaum é elogiada por Jorge Alberto Yarte-Sada, presidente da CCILM, ao optar “pelo diálogo em vez do confronto direto” e assim “evitando uma escalada desnecessária do conflito”.

“A experiência da Presidente Sheinbaum ensina uma lição valiosa para outros líderes globais: o diálogo deve ser a base das relações internacionais, mas, para que seja eficaz, é necessário que haja coerência, confiabilidade e estabilidade na palavra e na ação de todos os envolvidos”, argumenta em entrevista ao JE, sublinhando a necessidade de simultaneamente não ceder a ameaças.

“A interdependência económica entre os dois países é inegável e a necessidade de coordenar políticas de segurança e imigração obrigará México e EUA a buscarem constantemente soluções negociadas”, admite, mas, “se os EUA insistirem na imposição de tarifas, o México precisará avaliar uma resposta proporcional, garantindo que sua economia e suas empresas não arquem com custos excessivos”.

“Cruzar os braços diante de uma medida unilateral prejudicial também não é uma opção viável”, dada a importância e interligação entre ambas as economias: 80% das exportações mexicanas são para os EUA, que representam entre 40% e 50% dos investimentos diretos estrangeiros (IDE) no México, e as remessas dos emigrantes no vizinho a norte ascendem a 4% do PIB.

Decisão que mina o comércio global

Ainda antes da imposição das tarifas, o seu anúncio criou logo alterações significativas aos planos dos empresários – alterações essas com reflexo imediato nas suas operações. Logo aquando do anúncio das medidas, a 3 de março, “registou-se uma redução de 20% no volume de produtos exportados para os Estados Unidos a partir da região Noroeste do México”, aponta Yarte-Sada, além da retração de diversos planos de exportação na alfândega de Tijuana.

“É lamentável observar como decisões populistas e nacionalistas podem prejudicar as economias”, atira, lembrando que o próprio presidente chegou a promover o USMCA “como ‘o melhor acordo comercial do mundo’ e agora ameaça violá-lo”, com consequências altamente nefastas.

Por um lado, “a atual instabilidade, impulsionada por medidas protecionistas dos EUA, ameaça esse ambiente de confiança” criado entre as duas economias. “Se as tarifas alfandegárias forem mantidas, o México precisará reforçar a segurança jurídica para investidores, tanto em âmbito bilateral com os EUA e o Canadá quanto internamente”, o que se traduzirá em “maior previsibilidade em áreas estratégicas, como políticas fiscais, setor energético e regulamentações para investimentos”. “A estabilidade e transparência dessas regras serão fundamentais para atrair e manter o capital estrangeiro”, completa.

Por outro lado, as próprias regras em que assentam as trocas internacionais e os acordos de comércio livre ficam erodidas por estas ações.

“O México já venceu um painel contra os EUA relacionado às regras de certificação de origem no setor automotivo, durante a administração anterior do presidente Joe Biden”, lembra o presidente da CCILM, o que “demonstra que os mecanismos do USMCA podem ser utilizados para contestar violações das regras comerciais”.

“A história mostra que acordos comerciais bem-sucedidos, como o próprio USMCA, funcionam quando há respeito mútuo pelas regras. Qualquer violação cria um desequilíbrio que pode comprometer a estabilidade da relação económica na América do Norte”, defende. Nesta linha, a importância da UE na economia mexicana tem um potencial de crescimento considerável, afirmando-se “como uma alternativa segura, oferecendo aos empresários mexicanos um ambiente comercial regulado e com maior segurança jurídica” perante os avanços e recuos no ímpeto protecionista norte-americano.

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