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Trump resolverá guerra na Ucrânia entre 24 horas e nunca

A nova postura do presidente dos EUA sobre a guerra na Ucrânia só não surpreende porque as expectativas eram já muito baixas.
epa12303548 US President Donald Trump (R) welcomes Russian President Vladimir Putin during their meet to negotiate at Joint Base Elmendorf-Richardson in Anchorage, Alaska, USA, 15 August 2025. EPA/GAVRIIL GRIGOROV/SPUTNIK/KREMLIN POOL / POOL MANDATORY CREDIT
27 Setembro 2025, 20h00

Durante a campanha presidencial que o levaria de volta à Casa Branca, o então candidato republicano disse que resolveria o conflito entre a Rússia e a Ucrânia em 24 horas. Repetiu aquilo que os analistas tinham como uma absoluta impossibilidade até à exaustão, acabando por ser um dos assuntos mais mediáticos da campanha. Uma vez (re)instalado na Casa Branca, tornou-se claro que as reservas dos analistas tinham toda a razão de ser. Trump chegou a dizer que, quando disse que resolveria a guerra em 24 horas, estava a ser irónico. Mais tarde, tratou de afirmar que precisaria “de duas semanas ou menos” para ver se haveria progresso ou negociação entre Rússia e Ucrânia.

Perante a expectativa criada, foi com enorme surpresa que os países que apoiaram a Ucrânia desde o primeiro instante da invasão, nomeadamente as nações europeias, constataram que a estratégia de Trump passava por demonstrar total simpatia política e diplomática pelo seu homólogo russo, Vladimir Putin, relegando o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, para uma posição de absoluta subalternidade – nem sequer lhe foi dado o direito de participar nas conversas.

Mas a maior surpresa ainda estava para vir: algures há uns meses atrás, Trump deu a conhecer um projeto, dir-se-ia que de negócios, em que indexava a continuidade do auxílio financeiro norte-americano à assinatura de um acordo que fazia passar para os Estados Unidos o direito de exploração das chamadas terras raras. Como observava na altura o analista Francisco Seixas da Costa, “a Rússia quer tomar posse do solo da Ucrânia e os Estados Unidos do subsolo”.

Depois da humilhação política de a realidade desmentir o plano das “24 horas” e o das “duas semanas ou menos”, a estratégia de Trump para a Ucrânia ganhou fôlego (e deu-lhe pontos para um eventual Nobel da Paz) quando a Casa Branca conseguiu marcar para o Alasca – um pedaço dos Estados Unidos que já foi Rússia – uma cimeira entre os dois dirigentes máximos. Estava tudo resolvido: depois da cimeira, restaria que a ‘arraia miúda’ (isto é, Zelensky) se desse ao trabalho simples de combinar os pormenores. Não foi nada disso que aconteceu, como disseram todos os analistas na altura.

Agora, passadas pouco mais de cinco semanas sobre a humilhação no meio da neve, Trump alterou a sua estratégia em 180 graus e decidiu que a Ucrânia tem da sua parte autorização para investir na retoma das suas antigas fronteiras, Península da Crimeia incluída. E promete manter o apoio em armamento – desde que, evidentemente, alguém pague por ele. Pode ser que o Nobel da Paz esteja mais longe e que a paz propriamente dita também, mas o certo é que, para já, a Casa Branca continua a ‘beneficiar o infrator’: ao contrário do que foi prometido, não há ainda qualquer sanção direta sobre a Rússia. Ao contrário, o que não deixa de ser caricato, sobre quem negoceia com a Rússia, já há várias.


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