“Turismo pode servir de motor de arranque, mas é fundamental que as empresas estejam lá”, alerta AHRESP

Em entrevista ao Jornal Económico, Ana Jacinto, secretária geral da Associação da hotelaria, restauração e similares de Portugal, traça-nos um cenário deprimente da conjuntura do sector que a associação representa, desde a hotelaria à restauração, passando pelas empresas de alojamento turístico.

O agravar diário dos números de infetados e mortos com a Covid-19 nas últimas semanas exigiram um novo confinamento geral, piorando ainda mais as perspetivas de recuperação do turismo. Em entrevista ao Jornal Económico, Ana Jacinto, secretária geral da Associação da hotelaria, restauração e similares de Portugal (AHRESP), traça-nos um cenário deprimente da conjuntura do sector que a associação representa, desde a hotelaria à restauração, passando pelas empresas de alojamento turístico. 40% das empresas de restauração do universo AHRESP já efetuaram despedimentos desde o início da pandemia, com 19% a reduzir em mais de 50% os postos de trabalho a seu cargo e mais 19% a assumir que não vão conseguir todos os trabalhadores até ao final do primeiro trimestre do ano em curso. Neste segmento empresarial, 38% acredita que a recuperação só será possível a partir do segundo semestre deste ano, ao passo que 43% apontam melhorias apenas para 2022.

No alojamento turístico, o panorama não é melhor, com 20% a indicar que têm a atividade suspensa e 40% a estimar uma taxa de ocupação zero para janeiro e fevereiro, enquanto 36% perspetivam uma ocupação máxima de 10% para esse mesmo período. Só 12% tinham reservas para a Páscoa. Em dezembro, 61% das empresas do sector registaram perdas acima dos 80% em comparação com o período homólogo, 31% já efetuaram despedimentos e 16% ponderam avançar para a insolvência. Sobre as perspetivas de recuperação, dividem-se entre o segundo semestre deste ano (37%) e 2022 (38%). De acordo com os dados INE, a quebra de emprego nestes três segmentos de atividade foi de 98.200 postos de trabalho no terceiro trimestre de 2020 face ao período homólogo do ano precedente.

Qual o impacto da Covid-19 na atividade do sector da restauração e similares em Portugal em 2020 em comparação com o ano anterior – quebra de clientes, quebra de receitas, nº e % de empresas e de trabalhadores em ‘lay off’, nº de trabalhadores que entraram no desemprego; nº e % de empresas que entraram em insolvência, nº e % de empresas que suspenderam temporariamente a atividade…?

O impacto da Covid-19 na atividade do sector da restauração e similares em 2020 tem sido absolutamente brutal. Em menos de um ano, já encerrámos duas vezes por decreto. Alguns dos nossos estabelecimentos estão encerrados quase há um ano. Tem sido um ano muitíssimo duro para as nossas empresas, e essa dureza traduziu-se em mais despedimentos, mais encerramentos, mais pobreza. Não é só em Portugal que este impacto está a ser devastador. A própria Organização Mundial do Turismo [OMT] e a ONU [Organização das Nações Unidas] já o reconheceram, apontando, aliás, para a imperiosa necessidade de se implementar mecanismos que mitiguem esse impacto, e que passam, nomeadamente, pelo apoio às empresas e pelo recurso ao diálogo social com vista a serem encontradas soluções.

Concretamente em Portugal, os apoios recebidos por parte das empresas serviram de almofada, impedindo que algumas insolvessem, mas o facto da maioria das empresas dos sectores que representamos serem empresários em nome individual, microempresas, empresas familiares, que neste momento estão totalmente depauperadas, não facilitou a vida a ninguém.

Os dados do nosso inquérito mensal demonstram bem o sentimento destes sectores desde o início da pandemia. Muitas intenções de insolvência, de despedimentos e quebras nas faturações. Os resultados do nosso mais recente inquérito, realizado a nível nacional e respeitante ao mês de dezembro, e tratado pela Nielsen, uma empresa internacional de elevada reputação na execução de estudos de mercado e de opinião, com enorme experiência no canal HORECA [Hotelaria, Restauração, Cafetaria] , demonstra bem o sentimento atual das nossas empresas.

Na Restauração e Similares, 39% das empresas ponderam avançar para insolvência, dado que as receitas realizadas e previstas não permitirão suportar todos os encargos que decorrem do normal funcionamento da sua atividade; para as empresas inquiridas, a quebra de faturação do mês de dezembro foi avassaladora: 56% das empresas registaram perdas acima dos 60%; Como consequência da forte redução de faturação, cerca de 13% das empresas não conseguiram efetuar o pagamento dos salários em dezembro e 18% só o fez parcialmente; Perante esta realidade, 49% das empresas já efetuaram despedimentos desde o início da pandemia. Destas, 19% reduziram em mais de 50% os postos de trabalho a seu cargo. 19% das empresas assumem que não vão conseguir manter todos os postos de trabalho até ao final do primeiro trimestre de 2021.

No Alojamento Turístico, 20% das empresas indicam estar com a atividade suspensa; das empresas com atividade em funcionamento, 43% indicaram uma ocupação máxima de 10% no mês de dezembro. Para o mês de janeiro e fevereiro, 40% das empresas estimam uma taxa de ocupação zero, e 36% das empresas perspetivam uma ocupação máxima de 10%; à data de preenchimento do inquérito, apenas 12% das empresas indicaram terem reservas para o período da Páscoa; 16% das empresas ponderam avançar para insolvência por não conseguirem suportar todos os normais encargos da sua atividade.

No entanto, os dados oficiais do INE, revelam também o tremendo impacto que a pandemia está a provocar nas nossas empresas, nomeadamente os últimos dados do emprego, referentes ao 3º trimestre de 2020 (período normal de maior empregabilidade), revelam que a restauração e o alojamento tiveram uma quebra de 14,7% (-49.200 postos de trabalho) face ao 3º trimestre de 2019. Na restauração a quebra foi de 16,8% (-40.700 postos de trabalho) e no alojamento de -9,3% (-8.500 postos de trabalho); Mais recentemente, o INE revelou que o alojamento, restauração e similares registaram o maior impacto da pandemia entre março e novembro 2020. Entre março e novembro de 2020, os valores de faturação das atividades de alojamento representaram menos de metade do valor faturado no mesmo período de 2019, e a restauração e similares destacou-se com redução do volume de faturação superior a 40% (-43,2%), quebras muito acima da média nacional (-14,8%). Em termos regionais, em 21 das 25 NUTS III do país, as atividades de alojamento foram o ramo com maior quebra de faturação face ao período homólogo.

Qual o impacto destas quebras na economia nacional como um todo?

Segundo dados divulgados (17 dezembro 2020) pelo INE, referentes à Conta Satélite do Turismo, estima-se que, em 2019, a procura turística (Consumo do Turismo no Território Económico) atinja os 32,8 mil milhões de euros, o que representa um peso de 15,4% no PIB [Produto Interno Bruto] nacional, ou seja, +7,6% em relação ao ano anterior. O VAB [Valor Acrescentado Bruto] gerado pelo turismo (15,6 mil milhões de euros) cresceu 10,3% face ao ano anterior e representou 8,5% do VAB nacional. O turismo registou, assim, um aumento superior ao da economia nacional, cujo crescimento foi de 4%. Em 2019, estima-se que os serviços de restauração e similares e os serviços de alojamento tenham sido responsáveis por cerca de 50% do PIB gerado pelo turismo.

No final do ano passado, o INE divulgou os dados das Estatísticas das Empresas, com os dados provisórios referentes ao ano 2019 (último ano disponível). De acordo com dados divulgados, os sectores da restauração e bebidas e do alojamento turístico (canal HORECA), registaram em 2019 um total de 119.065 empresas (76.943 da restauração e 42.122 do alojamento), empregavam 399.405 trabalhadores (282.934 da restauração e 116.471 do alojamento) e atingiram cerca de 16,2 mil milhões de euros de volume de negócios. Estes resultados traduzem-se em crescimentos homólogos face a 2018, de +5,2% nas empresas, +6,5% nos postos de trabalho e de +8,8% no volume de negócios. Em 2019, o canal HORECA representou 9,1% do total das empresas nacionais e 9,5% do total da empregabilidade em Portugal. Dependem ainda destes sectores centenas de milhar de pessoas de forma indireta e induzida, que corresponde a toda a nossa cadeia de valor.

Há cerca de um mês, considerava-se que a Páscoa poderia ser um bom barómetro para a retoma da atividade do sector do turismo, e também da restauração, em Portugal. Com o agravamento dos números de infetados e mortos com Covid-19 em Portugal, a Páscoa ainda pode ser a ‘tábua de salvação’ para os empresários do sector ou as melhores hipóteses apontam agora para o verão? Quais são agora as perspetivas de recuperação do sector que antes apontavam para 2023 ou 2024 como horizonte temporal para equilibrar as perdas registadas em 2020?

Quando o senhor ministro da Economia referiu a Páscoa como horizonte para o início da retoma da atividade do sector do turismo, isto ainda em dezembro, terá manifestado um desejo seu, que também era um desejo de todos nós, mais do que uma certeza que, obviamente ninguém nesta fase tem. Penso que ninguém estará hoje numa situação que permita antever quando se dará o regresso do normal funcionamento do turismo. Esta é uma situação que dependerá de muitas variáveis, tendo à cabeça a evolução pandémica que, em determinados aspetos, está fora do nosso controle. Seja como for, ainda temos esperança, nomeadamente com a continuação do processo de vacinação, que se espera ser o primeiro passo do caminho para essa tão desejada retoma. Quando a retoma se der, o turismo pode servir de verdadeiro motor de arranque, mas é fundamental que as empresas estejam lá, e economicamente estáveis para que possam corresponder. Sei que o regresso ao normal não acontecerá de um dia para o outro, e prevejo que as empresas irão necessitar de muito apoio, e durante mais tempo do que aquele que durará a pandemia.

Quais são os segmentos e as áreas geográficas mais afetados pela pandemia no sector da restauração e similares em Portugal?

Segundo dados do INE, entre março e novembro de 2020, verificou-se, em Portugal, uma redução homóloga de -14,8% no valor da faturação, destacando-se, com valores superiores à média nacional, o Algarve (-29,1%), a Região Autónoma da Madeira (-21,9%) e a Área Metropolitana de Lisboa (-18,4%). Em Portugal, e em todas as NUTS II, esta contração foi mais acentuada de março a maio (-23,1%), período coincidente com a fase de confinamento associada ao primeiro Estado de Emergência. De março a novembro de 2020, os valores de faturação das atividades de alojamento representaram menos de metade do valor faturado no mesmo período de 2019. Com redução do volume de faturação superior a 40% destacam-se ainda as atividades de restauração e similares (-43,2%). Em 21 das 25 NUTS III do país, as atividades de alojamento foram o ramo com maior quebra de faturação face ao período homólogo.

O Eurocontrol prevê quebras de tráfego para 2021 e a retoma do sector da aviação civil apenas para 2024. Tendo em conta que Portugal é um destino em que cerca de 90% dos turistas chegam por via aérea, determinante para evolução da restauração e similares, quais as soluções que preconiza para superar este cenário negativo?

A pandemia ainda não está resolvida, e sem resolver a pandemia, ou pelo menos sem adaptar o funcionamento das empresas à pandemia, nem o turismo internacional nem o sector da aviação civil, que está intimamente ligado ao turismo internacional, recuperará. Acreditamos que à medida que os testes e procedimentos de segurança e higiene antes das viagens se forem uniformizando e globalizando; assim que a vacina chegar a mais população; assim que voltarem a ser levantadas restrições, podemos voltar a pensar na recuperação do turismo internacional e, consequentemente, do sector da aviação civil que, através do qual vem uma percentagem muitíssimo importante dos turistas internacionais que chegam a Portugal. As quebras de tráfego são previsíveis.

Qual o balanço que fazem da atuação do Governo durante a pandemia?

Reconhecemos o esforço feito pelo Governo na gestão de uma crise que apanhou todos de surpresa. O equilíbrio entre medidas de saúde e medidas de saúde económica é muito difícil de gerir e o facto é que não existia uma cartilha que ensinasse aos governantes o que e como fazer. Não podemos pôr em causa as medidas que dizem respeito à saúde, porque não temos conhecimentos técnicos suficientes para tal. No entanto, no que respeita às medidas de compensação económica temos apelado desde sempre ao bom senso, à calma e apelado à resolução dos problemas na mesa das negociações. E, de facto, é isso que tem acontecido. Porém, nunca deixamos de dizer o que é injusto, nem de fazer saber os problemas enfrentados pelas empresas que acompanhamos diariamente. Estando nós, como estamos, no terreno, sabemos que somos a voz de milhares de empresas, de empresários, de trabalhadores, e não os queremos defraudar.

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