Um país que cabe na “Casa da Cristina”

Era desejável que os líderes políticos, defendendo cada um as suas ideias, mostrassem ao país a sua disponibilidade para serem mais do que meros atores políticos preocupados com agendas pessoais e partidárias.

Assistimos hoje a uma degradação em múltiplas funções e serviços do Estado, como sejam a justiça, a saúde, a educação e nos serviços públicos em geral, que traduzem um certo deslaçar social que não representa nada de bom e que, sobretudo, não augura nada de melhor (antes pelo contrário). É, por isso, que muitos veem com perplexidade o show off que alguns líderes políticos se prestam a fazer num momento como o atual.

Todos sabemos que aparecer é melhor que telefonar e que cozinhar uma cataplana de peixe é muito melhor que preparar um arroz de atum. É por isso que, depois do telefonema do Presidente da República e do arroz de atum da líder do CDS-PP, a presença do nosso primeiro-ministro, com toda a família, na última terça-feira de Carnaval, na “Casa da Cristina” elevou para um novo patamar a importância deste cénico televiso no panorama social e político nacional e as prestações que os nossos políticos estão dispostos a aí ir fazer.

Da minha parte, não tenho nada contra o programa em causa, que tem todo o espaço num país como o nosso, nem muito menos quanto à apresentadora que lhe dá nome, mas a verdade é que este tipo de aparições de líderes políticos traduzem, aos olhos de muitos, uma certa degradação das funções por estes exercidas. Uma degradação, aliás, que se assiste no topo da pirâmide política, mas que se alastra em múltiplos outros sectores e que é especialmente penosa num momento pesado em termos sociais e políticos como o que atravessamos.

Para uns, a culpa é das ilusões criadas e não correspondidas pelo, nas palavras do Presidente da República, “otimismo crónico e às vezes ligeiramente irritante” do primeiro-ministro. Para outros, a culpa é do taticismo político dos sindicatos e de algumas forças políticas que sentem que, face ao ciclo eleitoral que está à porta, é a hora do “agora ou nunca”.

A verdade é que sejam as “greves de esquerda” ou as “greves de direita”, como agora dizem os entendidos da nossa praça(!), sejam as greves no setor da saúde, da educação ou da justiça, tudo isto ilustra um nervoso miudinho implícito na sociedade em geral no que respeita à situação económica, política e social vigentes. Neste contexto, era desejável que os líderes políticos, defendendo cada um as suas ideias, mostrassem ao país a sua disponibilidade para serem mais do que meros atores políticos preocupados com agendas pessoais e partidárias e que se excedessem positivamente no cumprimento das suas funções.

Mais ainda, seria desejável que nos poupassem a esta espécie de competição televisiva e a trocassem por uma outra competição, bem mais útil ao país, de trazerem para o debate político ideias e propostas, com conteúdo e substância, que melhorem a vida das pessoas, que seja assente na realidade, que concretizem um caminho para o país e para a nossa sociedade e que traduzam uma estratégia para todos e não para a agenda política partidária (cronicamente) de curto-prazo.

É preocupante a ausência de uma cultura de exigência no debate e na ação política, sobretudo porque um país com uma história como o nosso, que se quer grande como os maiores e que tem cidadãos extraordinários (como constantemente dão provas disso), reclama, nada mais, do que por mulheres e homens de estado e, sobretudo, mulheres e homens com visão de estado.

Só assim podemos ambicionar ser mais do que um país que se fica pelo acessório e cuja dimensão não ultrapassa a de um espetáculo televisivo e mediático constantes, como seja, no caso, o da “Casa da Cristina”.

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