Ursula von der Leyen: Senhora Europa regressa a casa

Primeira mulher a presidir à Comissão Europeia, a até agora ministra da Defesa da Alemanha nasceu nos arredores de Bruxelas quando o pai era um alto funcionário da CEE. Mesmo sendo vista como solução de recurso, tem a garantia de que irá fazer história.

Clemens Bilan/EPA via Lusa

Verdade seja dita: muitos desconfiaram que a solução para o impasse na sucessão de Jean-Claude Juncker passaria por uma governante alemã que seria não só a primeira mulher como a primeira pessoa dessa nacionalidade a presidir à Comissão Europeia. Estavam todos a pensar na chanceler Angela Merkel, que iniciou a gradual despedida a Berlim quando não se recandidatou à liderança dos democratas-cristãos da CDU, avisando que também abandonaria o poder em 2021, mas afinal foi a sua ministra da Defesa, Ursula von der Leyen, a conquistar o inesperado estatuto de Senhora Europa.

Polémicas e queixos caídos à parte, sobretudo daqueles que viam o socialista holandês Frans Timmermans como o primeiro político de esquerda a liderar a União Europeia desde Romano Prodi, a ida da alemã de 60 anos para Bruxelas é um regresso a casa. Ursula von der Leyen nasceu em Ixelles, comuna histórica nos arredores da capital belga e europeia que também foi a terra natal do escritor argentino Júlio Cortázar, da estrela de Hollywood anglo-holandesa Audrey Hepburn e do assassino pedófilo belga Marc Dutroux.

Sem comparações com qualquer um desses conterrâneos, o novo rosto da União Europeia nasceu fora de qualquer uma das metades da Alemanha, em 1958, precisamente devido à então Comunidade Económica Europeia, criada meses antes a partir da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. A família mudara-se para a Bélgica porque Ernst Albrecht, pai de Ursula, era chefe de gabinete do comissário europeu da Concorrência, Hans von der Groeben. Passou a diretor-geral da Concorrência, entre 1967 e 1970, pelo que a filha viveu e estudou em Bruxelas até aos 13 anos. Algo que lhe permite ser tão fluente em francês quanto em alemão, além de dominar o inglês, o que não deixará de vir a calhar nas novas funções.

Chegada à Alemanha no início da adolescência, Ursula atingiu a maioridade tendo o pai como primeiro-ministro da Baixa Saxónia, cargo que Ernst Albrecht, então alto dirigente da CDU, manteve entre 1976 e 1990. A primeira vocação foi a Economia, e em 1978 passou um semestre na London School of Economics, sendo forçada a utilizar um pseudónimo devido ao receio de que se tornasse um alvo dos grupos terroristas de extrema-esquerda germânicos. Mudou, contudo, para Medicina, licenciando-se na Universidade de Hanover em 1987 e fazendo o doutoramento em 1991.

Todos os perfis publicados aquando do anúncio do seu nome como a solução para evitar que o Partido Popular Europeu perdesse a presidência da Comissão Europeia mesmo tendo a maior bancada no Parlamento Europeu salientaram que a até agora ministra da Defesa da Alemanha é mãe de sete filhos – cinco filhas e dois filhos, já agora. Menos sabido é que Ursula von der Leyen chegou a ser uma dona de casa num subúrbio californiano durante três anos, dedicando-se à extensa prole enquanto o marido, Heiko von der Leyen, membro de uma família aristocrata, dava aulas na Universidade de Stanford.

Só aderiu à CDU em 1990, quando o pai perdeu as eleições para o futuro chanceler social-democrata Gerhard Schroeder, mas demorou quase uma década até enveredar na política ativa. E só foi eleita deputada para o parlamento da Baixa Saxónia em 2003, tornando-se ministra dos Assuntos Sociais, das Mulheres, da Família e da Saúde nesse estado germânico.

Bastou para chamar a atenção da antiga protegida de Helmut Kohl, oriunda da Alemanha de Leste, que se tornara presidente da CDU e líder da oposição a Schroeder. Angela Merkel desafiou Ursula a contribuir com propostas para a reforma da segurança social e, satisfeita com o que leu, incluiu-a no seu “governo sombra”, atribuindo-lhe a pasta da Família e da Segurança Social.

O resto é história: Merkel venceu as eleições federais em 2005 e iniciou o percurso que fez dela a chanceler alemã que só é batida por Otto van Bismarck, Helmut Kohl e Konrad Adenauer (até ver, nesse caso, pois acabará por ultrapassá-lo, tal como já fez a um certo Adolf Hitler) em longevidade em funções. E Ursula von der Leyen acompanhou-a nessa jornada. Como ministra dos Assuntos Familiares e da Juventude (entre 2005 e 2009), do Trabalho e dos Assuntos Sociais (entre 2009 e 2013) e, finalmente, da Defesa, onde se manteve até agora, com o duplo estatuto de primeira mulher a deter a pasta na Alemanha e de única sobrevivente do gabinete ministerial original de Merkel.

Tida como bastante progressista dentro de um partido bastante conservador, desafiou a posição da CDU no casamento entre pessoas do mesmo sexo e defendeu que a adoção não ficasse limitada às famílias heterossexuais. Já na Defesa nunca escondeu ser defensora de um exército europeu enquanto objetivo de longo prazo e chegou a dizer que os seus (decerto não poucos) netos ainda  “iriam ver os Estados Unidos da Europa”.

Na quarta-feira deslocou-se a Estrasburgo e prometeu que nas próximas semanas apresentará a sua visão para os próximos cinco anos da União Europeia. Certo é que se prepara para fazer história mesmo antes de tomar qualquer decisão política.

Artigo publicado na edição nº 1996, de 5 de julho, do Jornal Económico

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