As ações recentes dos EUA na Venezuela mostram um desalinhamento crescente entre a geopolítica global e os investimentos energéticos sustentáveis, dada a importância dos hidrocarbonetos na política externa e o uso de instrumentos financeiros ligados à energia como armas de influência internacional.
Parece haver um desfasamento cada vez maior entre as perspetivas geopolíticas, em que “o petróleo continua poderoso o suficiente para motivas ações militares”, e a perspetiva de investimento, em que “a Venezuela encerra precisamente todos os riscos que os investidores têm vindo tentar mitigar: custos altos, longos períodos até ao pagamento, exposição política e incerteza na procura de longo prazo”.
A conclusão é da Schroders, que olha para a decisão norte-americana de tomar controlo do país com as maiores reservas de petróleo do mundo como sinal desta tendência global, ainda que tal não constitua uma completa “inversão de retalho”. Isto porque “o governo de Maduro já vinha cooperando com os EUA sobre energia, ainda que em constrangimentos, com a Chevron a continuar a operar na Venezuela”.
“Assim, neste contexto, este foco renovado no petróleo venezuelano é mais bem entendido como uma ação incremental”, escrevem os analistas da gestora de ativos.
A nota refere que a reação de mercado inicial foi positiva, dado que os investidores “anteciparam um aumento no acesso ao crude pesado venezuelano caso as sanções forem aliviadas” e a capacidade das refinarias norte-americanas para o processarem. Ainda assim, o impacto no fornecimento global a médio prazo é risível.
No imediato, o redireccionamento de fluxos antes destinados à China serão o principal impacto na oferta global, bem como o levantamento de sanções, que “podem alterar a política rapidamente”.
“A importância estratégica da Venezuela vem da escala das suas reservas, as maiores do mundo em termos nominais, e não da sua atual produção, que é menos de 1% da mundial”, lê-se na nota, pelo que “a narrativa de que a Venezuela poderia rapidamente ressurgir como um grande produtor ignora as realidades básicas da produção petrolífera”.
O crude venezuelano é “pesado ou extrapesado e ácido”, o que o torna mais dispendioso de extrair e dependente de aditivos importados. Como tal, “as estimativas de break-even para novos projetos estão entre as mais altas do mundo”.
Com o mercado global bem abastecido, inventários completos, preços moderados e “os investidores a exigirem disciplina sustentada de capital”, os aumentos de produção tornam-se mais improváveis. Mais, há “instabilidade política, incerteza legal, infraestrutura degradada e casos de arbitragem pendentes” a dificultar ainda mais o cenário do sector.
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