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“Verso a verso” em Monchique: a poesia congregadora de pessoas e lugares

O nosso país (incluindo a região onde vivo, Madeira) desinveste vergonhosamente na cultura (mesmo na cultura etnográfica e popular, a não ser que esta, por via da propaganda turística, traga dividendos económicos e principalmente eleitoralistas à classe política).
29 Julho 2025, 08h36

Recentemente, em Monchique, ocorreu a segunda edição do Encontro Internacional de Poesia “Verso a Verso”, levando ao encontro de doze poetas de seis países (Brasil, Cuba, Equador, Espanha, Itália e Portugal) durante três dias, reunidos em torno de uma congregação onde imperaram as palavras, mas também a confluência de lugares, pela partilha de culturas diversas. A editora On y va é uma das entidades intervenientes no apoio a este evento, mas também a edilidade e a junta de freguesia de Monchique, o que é surpreendente – e porventura o espelho da política cultural vigente naquele município- pois o que se mais teme, historicamente, na política, é a cultura, capaz de influenciar a identidade, o pensamento e o comportamento dos povos e assim pô-lo a questionar o (não) desenvolvimento social e económico dos lugares, e países. O nosso país (incluindo a região onde vivo, Madeira) desinveste vergonhosamente na cultura (mesmo na cultura etnográfica e popular, a não ser que esta, por via da propaganda turística, traga dividendos económicos e principalmente eleitoralistas à classe política. Por isso, quando é a Poesia a expressão cultural apoiada publicamente, é tão inesperado quanto espantoso. A Poesia é determinante na cultura – desvenda não só o indivíduo que a cria e escreve, mas também o que a lê e diz, e partilha, criando um espectro ainda maior de catalisação social e coletiva. E põe lado a lado emoções e reflexões multiculturais capazes de mover entraves linguísticos e culturais. E políticos, atrevo-me a afirmar.

A Poesia – sendo sobretudo materializada em palavras – assume um outro poder de comunicação que não deixa de ser crítico, mesmo sendo emocional. Por indignação, realiza questões que perseguem secularmente o Homem, mas também “muda (-nos) a vida”, como dizia Rimbaud, subvertendo a tecnocracia em magia (“a força mágica da palavra”!) restituindo-nos um outro ritmo devido, em que a liberdade também se afirma.

Em Monchique, viveu-se um encontro humanístico com espaço para a recriação poética percebida pela realidade de novos sentidos e de outros mundos vividos por cada um dos diferentes poetas participantes, como que numa viagem ao belo desconhecido. Sem se debater o mundo, pela poesia, apontaram-se novas soluções e reflexões, pois como afirmou Manuel Gusmão, a Poesia “recapitula o mundo”.

E é esse, sem dúvida, um dos maiores propósitos da Poesia: o de veicular a denúncia de injustiças e abusos contra as sociedades, como bem o fizeram Carlos Drummond, Fernando Pessoa, Rafael Alberti ou Nicolás Guillén,  recorrendo a uma outra forma de linguagem de resistência social, e cultural.

Num mundo e num tempo de múltiplas crises e ameaças, a Poesia tem de ser chamada a expressar-se como “uma arma carregada com o futuro”, pois pelo poder da palavra poética (“mais forte que canhões”, segundo Nietzsche), é possível  motivar povos inteiros e de os reconstruir.

No Encontro “Verso a verso”, em Monchique a Poesia aconteceu, ou não estivesse também a poesia intrinsecamente ligada aos lugares. E naqueles dias, em Marmelete e no Monte de Foia, como que num “lugar de pertença”, a atmosfera evocou emoções e memórias de doze poetas afinados numa paragem entre duas montanhas – quais  «rijos seios de granito», como «dois dinossauros fossilizados», como o figurou José Manuel Barroso nos seus Poemas de Monchique.


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