Vítor Constâncio: “Reguladores terão de fazer tudo o que for necessário para evitar crise do crédito em 2021”

Antigo governador do Banco de Portugal teme uma “crise do crédito” na Europa no final deste ano e em 2022 e apela aos reguladores para fazerem “tudo o que for necessário” para a evitar. Já o atual governador, Mário Centeno, diz que o tratamento do NPL pela Comissão Europeia está no caminho certo

Vítor Constâncio, ex-governador do Banco de Portugal (BdP) e ex-vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), alertou esta terça-feira para uma possível “crise do crédito” no final de 2021 e em 2022 na banca europeia e teria impacto na recuperação da economia.

O antigo governador do BdP, que participou na conferência virtual “The Portuguese Presidency: On the Road to a European Recovery Post-Covid“, organizada pela CFA Society Portugal em parceria com o CFA Institute, referiu que é expectável que se assista a uma “desaceleração do crescimento do crédito”, o que penalizará os resultados dos bancos, perspetivando ainda o aumento do malparado e das provisões “este ano e no próximo”, o que terá impacto na “rentabilidade e nas necessidades de capital”.

“Quais serão as soluções se as pressões sobre os rácios de capital se materializarem num número significativo de bancos?”, questionou o ex-governador do BdP, lembrando que qualquer solução possível não está isenta de dificuldades.

Neste sentido, para fazerem face ao impacto negativo nos rácios de capital, os bancos europeus poderão “ir ao mercado levantar capital”. No entanto, esta solução poderá ter alguns entraves, não só devido às baixas expectativas sobre a capacidade das instituições de crédito darem lucros, mas também devido à “limitada distribuição de dividendos, que impacta a atratividade de os investidores em comprarem ações de bancos”.

Outra solução poderá consistir no processo de desalavancagem dos balanços por parte dos bancos, de forma a cumprirem as exigências de capital impostas pelos supervisores. “Mas isto implica um grande risco que é a diminuição da concessão de crédito, que irá ter impacto na recuperação” da economia, vaticinou Constâncio.

Há ainda outra solução — que já está em vigor — e que poderá vir por parte dos reguladores da banca: mais alívios das almofadas de capital. “Mas esta solução enfrenta pressões do mercado”, sinalizou o antigo número dois do BCE, explicando que a maioria dos bancos não utilizaram este alívio por temerem que a redução dos rácios de capital poderá causar um aumento do custo de financiamento.

Uma quarta solução avançada Vítor Constâncio, que disse ser uma “solução de último recurso”, tinha que ver com “injeções de capital público para, direta e indiretamente, apoiar as gestoras de ativos no tratamento do crédito malparado, que vai aumentar e tem de ser resolvido”.

“Se estas pressões acontecerem, e se o tardio reconhecimento de NPL e perdas para crédito ocorrem de forma significativa, haverá um problema. E os reguladores terão de estar necessários para fazer tudo o que for necessário para evitarem uma crise do crédito no final de 2021 e em 2022”, alertou Constâncio.

Centeno diz que tratamento do NPL pela Comissão Europeia está no caminho certo

O atual governador do BdP, Mário Centeno, considerou que o plano de ação da Comissão Europeia contra o malparado vai na direção certa, apesar de não incluir uma sociedade pan-europeia de gestão de ativos problemáticos, por ser um tema “muito controverso”. “Devemos todos atuar de forma muito cordial e entender qual era a situação em que se encontrava nosso setor bancário e financeiro no início desta crise e a situação é bem diferente da anterior”, disse.

Centeno, que também participou no mesmo painel que Vítor Constâncio, que contou ainda com as presenças de Luís Silva Morais, presidente do Centro de Investigação sobre Regulação e Supervisão Financeira, elogiou o progresso na redução do malparado em Portugal nos últimos anos, considerando que foi “notável”.

“Este ímpeto da Comissão Europeia é muito importante. Infelizmente, apesar de ir na direção certa, o statement da Comissão não inclui a possibilidade de estabelecer um european AMC [European Asset Management Company], que provavelmente se tornou muito controverso”, afirmou.

Voltou ainda a defender a necessidade de completar a União Bancária, sublinhando a importância que em momentos de crise a banca deve ser parte da solução, numa altura em que decorrem negociações para um mercado secundário para os NPL a nível europeu.

“Olhando para o futuro, em 2001, para preparar o caminho para a recuperação, as medidas devem ser adaptadas à evolução da crise. Nos mesmos termos, devemos reconhecer os limites individuais das políticas orçamentais, monetárias e micro e macroprodenciais”, vincou, realçando que “devemos aproveitar todas as sinergias de uma ação harmonizada”.

Defendeu, assim, que “a adaptação é o desafio que os governos e outros decisores políticos irão enfrentar nos próximos meses”, salientando que “o ritmo de recuperação da economia, a assimetria entre setores e empresas, mas também entre as famílias, exigem estratégias sábias da saída das políticas atuais”.

Para Mário Centeno, a política europeia deve reconhecer essas diferenças e conceber políticas que “sustentem uma recuperação saudável”, considerando que retirar benefícios de uma só vez ou no mesmo ritmo para todas as empresas e indivíduos será um erro. “Com isso, a política orçamental como uma vantagem sobre a política monetária: pode ter como alvo agentes específicos, enquanto a política monetária é de natureza mais ampla”.

Já o secretário de Estado das Finanças, João Nuno Mendes, alertou para a necessidade de pensar no período pós-crise, pedindo que “os bancos preparem agora o fim das moratórias”, nomeadamente através da análise de cada crédito.

(Atualizado às 19h45)

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