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Wagner em modo transcendental

A Metropolitan Opera, em Nova Iorque, apresenta uma nova produção de “Tristão e Isolda”, pela mão de Yuval Sharon, que o New York Times considera “o mais visionário encenador de ópera da sua geração”.
18 Janeiro 2026, 18h24

Será exagero dizer que “Tristão e Isolda” é um marco na história da música ocidental? Será excessivo ver nesta ópera de Richard Wagner os dramas inerentes à criação humana? Amor e morte, corpo e alma, determinismo e vontade. Simbolismo? Sem dúvida. Está lá tudo, desde a aspiração à morte libertadora à dissolução das almas na essência do universo. Os estudiosos da sua obra são categóricos. Dizem que, a partir de “Tristão e Isolda”, o estilo de Wagner se tornou contrapontístico, sobrepondo e fundindo os temas. Terá sido a obra que separou a antiga da nova harmonia, e a porta de entrada para a atonalidade do séc. XX.

Tudo tem uma história
Wagner escreveu o primeiro esboço do ciclo do “Anel” em 1848. Mas a sua estreia só ocorreria 28 anos depois. O que importa aqui é esse tempo de permeio, em particular o ano de 1849, quando o compositor é perseguido devido à sua atividade política e se refugia, primeiro em Weimar, em casa de Liszt, e mais tarde em Zurique, numa casa cedida por Otto Wesendonck, um rico industrial alemão, amigo e mecenas de Wagner. O compositor envolve-se com Mathilde Wesendonck, mulher de Otto. O escândalo rebenta, desencadeado por Minna, mulher de Wagner. O compositor vê-se obrigado a deixar Zurique. Seguem-se Veneza e Lucerna. É precisamente nestas três cidades – Zurique, Veneza e Lucerna – que escreve “Tristão e Isolda”. Assim reza a lenda.

Neste período conturbado da sua vida escreveu ainda “Lohengrin” e “Os Mestres Cantores de Nuremberga”. Depois de “Lohengrin”, ainda no exílio, entre 1851 e 1853, Wagner redigiu os libretos das quatro óperas que constituiriam a grandiosa tetralogia “O Anel dos Nibelungos” (Der Ring des Nibelungen), com base na mitologia germano-escandinava: O Ouro do Reno (Das Rheingold), A Valquíria (Die Walküre), Siegfried e o Crepúsculo dos Deuses (Götterdämmerung ).

Entre 1854 e o final dessa década, Wagner terá vivido um período de grande agitação, quer ao nível intelectual e artístico – a descoberta da filosofia de Schopenhauer e das inovações harmónicas de Liszt – quer profissional, apresentando-se como regente em muitos concertos. Mathilde Wesendonck entrara de rompante na sua vida, mas, ao contrário do que diz a lenda, o seu envolvimento com Mathilde – mulher bela, sensível, culta e inteligente – não determinou a criação da partitura de “Tristão e Isolda”.

Consta que apenas funcionou como fonte de inspiração para o músico, que, em 1857, fixou residência numa pequena casa construída especialmente para ele e Minna por Otto Wesendonck, mesmo ao lado da mansão do casal Wesendonk, em Zurique, à qual Wagner chamava carinhosamente de “refúgio”. Ali compôs o primeiro ato de “Tristão” e musicou cinco poemas da autoria de Mathilde, peças que ficariam conhecidas como “Wesendonk Lieder” e que, musicalmente, pertencem ao universo sonoro da ópera.

Quem tem medo de Wagner?
O que esperar da nova produção de “Tristão e Isolda” pela Metropolitan Opera (MET), em Nova Iorque? Um alvoroço criativo pela mão de Yuval Sharon, que o “New York Times” considera “o mais visionário encenador de ópera da sua geração”. Uma princesa Isolda a quem a magnética soprano norueguesa Lise Davidsen emprestará a voz, contracenando com Michael Spyres no papel de Tristão, sob a batuta do diretor musical da MET, Yannick Nézet-Séguin.

Se “Tristão e Isolda” é uma ópera que todos os maestros ambicionam dirigir, como Séguin confirma, “a música que Wagner compôs apenas para orquestra é tão-só uma das mais belas sinfonias de sempre”, lê-se na entrevista que deu à MET. Além do extraordinário elenco, sublinha, Lise Davidsen “é a Isolda de sonho do nosso tempo. Uma voz poderosa e com milhões de cores”. A que se junta o imenso talento de Yuval Sharon, com quem Nézet-Séguin voltará a trabalhar num futuro próximo, quando a MET levar a cena a nova produção do “Anel”.

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