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BCE deixa juros inalterados e vê-se “numa boa posição”

Ao contrário da Fed, a instituição liderada por Lagarde manteve os juros inalterados em outubro perante mais riscos descendentes do lado da inflação do que do crescimento na zona euro.
Photo from the ECB Press Conference in Florence, where ECB President Christine Lagarde, Fabio Panetta, Governor of the Bank of Italy and Vice President Luis de Guindos present the latest monetary policy decision and answer questions from journalists. Florence, 30 October 2025.
31 Outubro 2025, 07h54

Sem surpresas e na primeira reunião com Álvaro Santos Pereira como representante de Portugal, o Banco Central Europeu (BCE) optou por manter os juros de referência inalterados nos 2% pela terceira reunião consecutiva. O crescimento surpreendeu pela positiva, apesar de continuar próximo de anémico, e a inflação mantém-se em linha com o objetivo de 2%, levando Christine Lagarde a reforçar que a política monetária está “numa boa” posição para enfrentar eventuais choques.
“Estamos numa boa posição”, afirmou Lagarde na conferência de imprensa que se seguiu ao anúncio de política monetária de outubro na estreia do novo governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, na reunião do BCE.
Lagarde considerou que, do lado do crescimento, “alguns dos riscos negativos recuaram”, um cenário distinto do que se vive no que respeita aos preços, onde a situação é mais incerta. Em concreto, fatores como o acordo entre EUA e UE, as tréguas comerciais entre norte-americanos e chineses e o cessar-fogo declarado na Faixa de Gaza melhoram as perspetivas de crescimento, explicou.
As declarações da presidente surgiram no mesmo dia em que se soube que o bloco euro cresceu 0,2% em cadeia no terceiro trimestre, um resultado próximo do nulo, mas acima do projetado pelo mercado e pelo próprio banco central, que antecipava uma leitura de zero nas suas projeções macro divulgadas no mês passado.
Para Irene Lauro, economista para a zona euro na Schroders, a decisão de manter os juros sem mexidas “sinaliza a confiança [do BCE] de que a sua política monetária está a resultar”.
“Continuamos confiantes que o crescimento irá acelerar no próximo ano, apoiando a decisão do BCE de manter os juros inalterados em 2026”, acrescenta. “No entanto, se a inflação sair abaixo das projeções atuais, o BCE pode adotar a abordagem cautelosa da Fed e avançar para um corte preventivo.”
Lagarde apontou precisamente para o lado dos preços para recordar que, ao contrário do crescimento, permanecem riscos descendentes, nomeadamente possíveis impactos do lado da procura ou uma valorização do euro que pode levar a um recuo mais pronunciado do que se previa para o indicador de preços.

Fed diverge na política e aproxima taxas
A decisão do BCE difere da tomada no dia anterior pela sua homóloga norte-americana, a Reserva Federal. A autoridade monetária dos EUA havia optado por cortar juros na quarta-feira, levando o indicador para o intervalo entre 3,75% e 4% e dando continuidade à descida do mês anterior – embora o presidente Powell tenha frisado a incerteza em torno de novo corte em dezembro.
Ao contrário da zona euro, onde o voto do BCE foi unânime, houve dois dissidentes na reunião da Fed: Stephen Miran, o governador mais recente no Conselho da Fed, e Jeffrey Schmid, governador da Fed de Kansas City. Mas estes dissidentes tinham visões opostas, com Schmid a defender que não houvesse nenhum corte, enquanto Miran (nomeado por Trump) pretendia uma descida de 50 pontos base (pb) no imediato.
Salvatore Bruno, líder de investimentos na Generali AM, lembra que a projetada política expansionista de Trump requer juros baixos para evitar um disparo nos custos de financiamento, que já ultrapassam 10% da receita fiscal.
“Isto levou a uma pressão forte da administração sobre a Fed para retomar o ciclo de cortes”, continua, embora a visão prevalecente é que “resolver o conflito entre a Casa Branca e a Fed antes da esperada mudança de governador do banco central em meados de 2026 não será fácil”.


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