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Está desfeito o suspense: Kevin Warsh será o próximo presidente da Fed

Warsh, de 55 anos, tem um passado no banco central como membro do Conselho de Governadores entre 2006 e 2011 (onde foi, à altura, o membro mais jovem na história da Fed) e em vários bancos de renome nos EUA, além de se ter formado em várias universidades de topo. Chega agora à liderança da Reserva Federal, que já acusou de falta de credibilidade.
2 Fevereiro 2026, 07h00

Está escolhido o sucessor de Jerome Powell como presidente da Reserva Federal dos EUA: Kevin Warsh, antigo membro do Conselho de Governadores do banco central norte-americano e acérrimo crítico das políticas do atual presidente do banco central.

A escolha foi anunciada na sexta-feira, 30 de janeiro, culminando assim um longo período de suspense e tensão sobre a sucessão do atual presidente, que tem chocado frequentemente com Donald Trump.

“Conheço o Kevin há muito tempo e não tenho dúvidas que ficará na história como um dos GRANDES presidentes da Fed, senão o melhor”, anunciou Trump na sua rede social, a Truth Social, ao seu estilo.

Warsh, de 55 anos, tem um passado no banco central como membro do Conselho de Governadores entre 2006 e 2011, tendo atravessado o período crítico para a economia norte-americana da grande crise financeira. O banqueiro e executivo financeiro foi ainda conselheiro da Casa Branca.

Perante este passado, analistas ouvidos pela CNBC consideram que o novo presidente da Fed será bem recebido pelos mercados, dado o seu historial ligado à banca e a noção de que preservará a independência de Trump.

Desde o seu regresso à Casa Branca, o presidente norte-americano tem lançado um ataque sem precedentes à autoridade monetária, acusando os seus responsáveis de incompetência e repetindo várias vezes a vontade de ver os juros diretores baixarem consideravelmente no imediato.

O último capítulo desta tensão foi a investigação lançada a Powell a propósito das obras de renovação na sede do banco central, uma decisão que, argumentou o banqueiro numa rara mudança de postura, reflete apenas a vontade de Trump o penalizar por recusar cortar taxas.

Em várias entrevistas nos últimos meses em que Warsh – à semelhança de outros candidatos à presidência da Fed, como o conselheiro económico da Casa Branca Kevin Hassett –, o agora nomeado deixou críticas à condução da política monetária nos EUA, falando numa necessidade de “mudança de regime” e “falta de credibilidade” dos legisladores no banco central.

A nomeação requererá agora aprovação do Congresso, onde enfrentará dificuldades. À cabeça, congressistas republicanos como o senador Thom Tillis, da Carolina do Norte, já fez saber que não aprovará qualquer nomeação até que a investigação do Departamento de Justiça a Powell esteja concluída.

De Wall Street para a Fed

Kevin Maxwell Warsh (nascido em abril de 1970) é o nome escolhido pelo presidente Donald Trump para suceder a Jerome Powell como presidente da Reserva Federal – o que desde logo indica que só pode ser o homem certo para cumprir as ordens ‘oficiosas’ da Casa Branca à frente da instituição que funciona como banco central norte-americano. Aparentemente, tem todas as caraterísticas de que Trump precisa, uma vez que Warsh foi, durante e após a crise financeira de 2008, o principal elo de ligação do banco central com Wall Street. Dito de outra forma, o novo presidente da Fed tem uma relação especial com Wall Street, o mercado que Trump tudo tem feito para manter em alta desde que regressou à Casa Branca. Desse ponto de vista, Kevin Warsh é o homem certo no lugar certo.

O novo presidente da Fed foi também representante da organização no G20 – mas isso é um pormenor que para Trump é absolutamente despiciendo, dado que o grupo tem sido sistematicamente menosprezado pelo inquilino da Casa Branca, que trata os países membros como coisa menor a que não precisa de ligar qualquer importância. Mais interessante, ainda na ótica da administração Trump, é o facto de Warsh ser ex-membro da direção do Grupo Bilderberg – um bloco que convém ter por perto e em boas relações.

A ascensão de Warsh como um dos homens da economia mais próximos de Trump evidencia-se pelo facto de ter sido um dos nomes apontados, no início do ano passado, como um potencial secretário de Estado do Tesouro. A sua nomeação para a Fed não surgiu, neste quadro, como uma surpresa para ninguém.

O novo homem forte do banco central – que tem como primeira função convencer toda a gente de que a descida dos juros é imperiosa para sustentar aquilo que Donald Trump diz ser o ‘boom’ da economia caseira, como que servindo de respaldo às tarifas – tem formação em Políticas Públicas pela Universidade Stanford (1992), Direito em Harvard (1995) e pós-formação em Economia de mercado e mercados de capitais na MIT e na Harvard Business School. Melhor não era fácil.

Entre 1995 e 2002, Warsh trabalhou para o Morgan Stanley na cidade de Nova Iorque, chegando a diretor executivo no departamento de fusões e aquisições. Nos quatro anos seguintes foi assistente especial do presidente George W. Bush para a política económica e Secretário Executivo do Conselho Económico Nacional. A partir daí, tornou-se uma das figuras de maior destaque na área da economia entre os republicanos: era só uma questão de tempo até chegar a um cargo de topo. Foi ainda Bush quem nomeou Warsh para preencher uma vagas no Fed – o que acabou, na altura, por gerar algumas críticas: demasiado novo, demasiado inexperiente, tinha 35 anos e passou a ser o mais novo membro da história da Fed.

Durante a crise de 2008, Warsh tentou articular fusões entre a Goldman Sachs e o Citigroup ou o Wachovia. Ambas as operações falharam, mas os afazeres de Warsh não ficaram por aí: pouco depois, convenceu a Morgan Stanley (onde trabalhara) a transformar-se numa holding bancária para ter acesso a empréstimos da Fed, salvando, na prática, o banco. Outros não tiveram tanta sorte: a predação do Lehman Brothers pelo resto do sistema em 2008 – onde a Morgan Stanley participou – continuará a ser para sempre uma das páginas mais curiosas da história do sistema financeiro mundial, a fazer lembrar a excelente obra literária ‘Do assassínio como uma das belas artes’, de Thomas de Quincey.

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