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‘Lobbying’: associação quer sensibilizar candidatos a Belém para nova lei

Associação Public Affairs Portugal quer reunir com os candidatos à presidenciais para perceber qual é a sua posição sobre a regulamentação da representação de interesses em Portugal
epa09901026 Ukrainian President Volodymyr Zelensky (on screen) addresses the Portuguese parliament via video link, in Lisbon, Portugal, 21 April 2022. Zelensky has been making a virtual world tour in recent weeks, lobbying foreign governments by video to help Ukraine defend itself against Russia’s invasion. EPA/MIGUEL A. LOPES
6 Novembro 2025, 08h50

A Associação Public Affairs Portugal (APAP) pretende sensibilizar os candidatos presidenciais para a urgência de regulamentar a representação de interesses (‘lobbying’), caso o diploma em análise no parlamento fique a aguardar a chegada de um novo inquilino a Belém.

A associação já solicitou reuniões aos candidatos João Cotrim Figueiredo, Luís Marques Mendes, Gouveia e Melo, António José Seguro e André Ventura, “para perceber qual é a posição dos candidatos à Presidência da República sobre a regulamentação da representação de interesses em Portugal”, disse a presidente da APAP, Rita Serrabulho, à agência Lusa.

“Espero que o próximo presidente torne a formulação desta lei numa prioridade. Seria incompreensível que, ao fim de mais de 15 anos de debate público sobre o tema, o futuro presidente permita que o país continue sem uma lei da representação de interesses, quando se fala tanto da necessidade de segurança, de confiança institucional e de amadurecimento democrático”, acrescentou.

A primeira proposta sobre regulação do ‘lobbying’ em Portugal partiu do PS, no ano de 2009, quando o Governo era liderado pelo socialista José Sócrates.

Nestes mais de 15 anos, houve novas iniciativas legislativas, mas só em julho passado é que os projetos apresentados por seis partidos (PSD, PAN, IL, Chega, PS e CDS) foram aprovados na generalidade e enviados à Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias.

A APAF acredita que a votação na especialidade possa realizar-se ainda antes do final do ano, mas receia que, caso o diploma não seja enviado para promulgação até 18 de janeiro, data das eleições presidenciais, o Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, venha a remeter a decisão para o seu sucessor no Palácio de Belém.

A associação já teve um encontro marcado com o candidato Cotrim de Figueiredo, mas foi adiado por motivos de agenda. Marques Mendes e António José Seguro disponibilizaram-se para reunir assim que “tivessem oportunidade”, Gouveia e Melo não respondeu ao pedido da associação e André Ventura remeteu o assunto para a Assembleia da República, esclareceu Rita Serrabulho.

Não foram pedidas reuniões aos candidatos presidenciais Catarina Martins e António Filipe porque os partidos que os apoiam “manifestaram uma posição pública sobre o tema”, ao terem votado contra as propostas sobre a regulação do ‘lobbying’, esclareceu a presidente da APAP.

Questionada sobre o último candidato presidencial a ser anunciado, Jorge Pinto, a APAP referiu “ainda não” ter feito o pedido.

Lembrando que “ao longo destes 15 anos, nunca existiu um consenso político tão grande como neste momento”, Rita Serrabulho defendeu que “enquanto não existir uma lei que regule a representação de interesses, o país continuará a ser alvo de desconfiança por parte dos investidores, das empresas, dos cidadãos e também da classe política”.

Para a responsável da APAP, “a história recente do país contribuiu para que a classe política começasse a olhar para o estabelecimento de regras como algo necessário para evitar a informalidade e a ausência de transparência em ‘casos’ que levaram à queda de governos, em Portugal continental e na Madeira”.

Uma transformação que, quase uma década depois da maioria dos países da Europa, “está finalmente a acontecer em Portugal”, disse ainda.

Num contributo enviado à comissão parlamentar, a APAP defende uma abordagem ao tema do ‘lobbying’ “alinhada com as boas práticas europeias”, através da criação de um Registo Nacional de Transparência, a ser gerido pela Assembleia da República mas que, futuramente, poderá passar para a alçada de uma entidade independente.

Esse registo, de acesso público através da Internet, deverá incluir a identidade dos representantes de interesses (cidadãos, organizações, empresas, associações de ‘lobby’), e todas “as interações relevantes” – como “reuniões, audições, comunicações, consultas ou trocas documentais com potencial de influência” – entre esses representantes e os decisores públicos, naquilo que a APAP designa por “pegada legislativa”.

Por decisores públicos, a APAP entende governantes, deputados e representantes do poder local, de entidades reguladoras, de institutos e de serviços públicos, entre outros.

“Com a criação de um Registo de Transparência, provavelmente muitos destes ‘casos’ seriam evitados, porque ficaríamos a saber quem, ou que entidades, tiveram interação com determinado legislador ou com determinado executivo, quais foram os temas abordados e os contributos entregues”, esclarece a mesma responsável.

A APAP defende ainda que, ao contrário do que está previsto nos projetos do PSD e do PS, os advogados e solicitadores não devem ser excluídos do futuro registo de ‘lóbyistas’ por causa do dever de sigilo, “justamente porque muitas vezes atuam como intermediários legítimos entre interesses privados e o Estado”.

A APAP foi constituída em 2024 e conta com mais de três dezenas de associados, singulares e coletivos, mas a identidade dos seus membros não é pública.

“Até agora, não tínhamos massa crítica” para o fazer, admite a presidente da associação, rejeitando tratar-se de falta de transparência.

“Estamos a debater como é que podemos fazer essa publicação, desde que tenhamos autorização dos associados”, acrescenta.


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