Portugal encontra-se num momento decisivo da sua transição energética. Entre metas ambiciosas e expectativas crescentes, o hidrogénio verde tem sido apresentado como uma das soluções mais promissoras para acelerar a descarbonização. No entanto, o fosso entre o potencial e a realidade continua a ser significativo e compreender esta distinção é essencial para evitar erros estratégicos que custem tempo, investimento e credibilidade.
O debate internacional tem convergido cada vez mais num ponto claro: o hidrogénio não é uma solução universal. O seu papel é particularmente relevante em setores onde a eletrificação direta não é tecnicamente viável, como a indústria pesada, processos industriais de alta temperatura e o transporte de longa distância. De acordo com a Agência Internacional de Energia, mais de 60% da procura global de hidrogénio projetada no cenário Net Zero 2050 concentra-se precisamente nestes setores e a aplicação do hidrogénio fora destes contextos tende a resultar em projetos frágeis e expectativas desalinhadas.
O verdadeiro valor do hidrogénio verde reside na sua capacidade de descarbonizar setores difíceis de eletrificar. É aqui que o investimento faz verdadeiramente sentido. Quando esta prioridade se dilui, o risco não é apenas económico, mas também reputacional, comprometendo a credibilidade da transição energética no seu todo. Apesar destes desafios, Portugal parte de uma posição claramente favorável. O país beneficia de eletricidade renovável abundante e cada vez mais competitiva, um fator decisivo para a viabilidade do hidrogénio verde.
A IRENA – Agência Internacional de Energia Renovável classifica Portugal entre os países europeus com custos mais baixos de energia solar e eólica. Como a eletricidade representa a maior fatia dos custos de produção de hidrogénio, esta vantagem estrutural é real e significativa. No entanto, é importante recordar os desafios associados à produção intermitente de energia e o seu impacto nos perfis de produção de hidrogénio face a necessidades de consumo contínuo.
A geografia reforça ainda mais este potencial. Portugal está bem posicionado para servir tanto a procura interna como futuras cadeias de exportação de derivados de hidrogénio, beneficiando da proximidade a portos, corredores logísticos e mercados europeus transformando o país num eixo central de uma União Europeia resiliente e autossustentável. No entanto, transformar estas vantagens em realidade está longe de ser automático. Os projetos de hidrogénio exigem elevados níveis de investimento de capital, cadeias de fornecimento ainda em maturação e uma integração técnica complexa entre a produção renovável, sistemas auxiliares e requisitos rigorosos de segurança.
Este nível de complexidade ajuda a explicar porque muitos projetos anunciados não chegam à Decisão Final de Investimento (FID), frequentemente utilizada como referência para avaliar a taxa de sucesso dos projetos de hidrogénio. Quando sujeitos a análises técnicas e financeiras rigorosas, surgem frequentemente lacunas nos modelos de negócio, nas estruturas de custos ou nas garantias de procura. Uma gestão rigorosa de custos e alterações ao longo da fase de engenharia é, muitas vezes, o fator mais determinante para alcançar investimento. A falta de compromissos em contratos de offtake, devido à incerteza dos mercados e à ausência de enquadramentos económicos claros, continua a ser uma das principais barreiras ao investimento.
Ainda assim, existem sinais positivos. Portugal tem vindo a construir de forma consistente experiência, capacidade técnica e conhecimento ao longo da cadeia de valor do hidrogénio. Se os projetos forem estruturados com maior rigor — assegurando atempadamente ligações à rede, PPAs de longo prazo, acordos de offtake credíveis e sólidos e uma avaliação realista das condições locais e do local de implantação — o país poderá transformar a sua vantagem potencial numa verdadeira força competitiva.
O sucesso dependerá também do envolvimento precoce das partes interessadas locais. Os projetos de hidrogénio têm necessidades significativas em termos de implantação, afetando o uso do solo, recursos hídricos, infraestruturas e logística. O envolvimento antecipado de municípios e comunidades é essencial para acelerar os processos de licenciamento, construir confiança, credibilidade e aceitação social, garantindo que os projetos geram valor local tangível.
Portugal reúne condições que muitos outros países europeus não têm: eletricidade renovável competitiva, uma geografia estratégica e uma base industrial com necessidades reais de descarbonização. Mas a liderança não se constrói apenas com recursos naturais. Constrói-se com desenvolvimento rigoroso de projetos e uma análise aprofundada caso a caso.
O hidrogénio verde pode tornar-se um pilar da transição energética de Portugal e da estratégia de resiliência da Europa, desde que seja aplicado onde faz sentido, à escala certa e apoiado por modelos económicos sustentáveis. O desafio agora é transformar potencial em progresso, entusiasmo em projetos concretos e promessa em impacto real.





