A extrema-direita aqui tão perto: Vox entra no Parlamento da Andaluzia

“Espanhóis primeiro”, defende o Vox, traduzindo-se na deportação de imigrantes, construção de muros na fronteira com Marrocos, proibição do aborto e do casamento homossexual, revogação da lei de violência de género, entre outras bandeiras políticas.

Nas eleições para o Parlamento da Andaluzia, comunidade autónoma de Espanha, realizadas no dia 2 de dezembro, o Vox obteve cerca de 397 mil votos (10,97% do total) e elegeu 12 deputados. É a primeira vez que um partido de extrema-direita ganha representação parlamentar em Espanha desde o período de transição para a democracia (1975-1982). Importa salientar que a Andaluzia é a mais populosa das 17 comunidades autónomas, com 8,4 milhões de habitantes, e costuma votar mais à esquerda, sendo aliás governada pelo PSOE (centro-esquerda) desde 1982.

O surpreendente resultado do Vox nas eleições antecipadas poderá abrir o caminho para uma inédita mudança de poder na Andaluzia, embora o PSOE continue a ser o partido maioritário (33 deputados de um total de 109). E representa mais um passo no processo em curso de definhamento eleitoral dos partidos centrais (PSOE e PP) do sistema político espanhol, tanto ao nível regional como ao nível nacional.

O que defende o Vox? “Espanhóis primeiro”, desde logo, principal slogan político deste partido fundado em 2013. Contra as ameaças da imigração, do islamismo e do independentismo na Catalunha e no País Basco, por exemplo. Mas também contra o que denominam como “ideologia de género”, ao ponto de quererem extinguir o apoio estatal a organizações feministas. Nesse âmbito, o Vox tem uma agenda ultra-conservadora: revogação da lei de violência de género, repressão das denúncias falsas de violência doméstica, proibição do aborto e da gestação de substituição (ou “barrigas de aluguer”), etc. Os direitos das pessoas LGBT são outro alvo sinalizado e o casamento entre homossexuais é para voltar a ser ilegal.

As políticas anti-imigração formam outra bandeira política do Vox que defende a deportação dos imigrantes ilegais para os respetivos países de origem, assim como dos imigrantes legais que tenham cometido crimes graves ou reincidido em crimes mais leves. O partido liderado por Santiago Abascal pretende estabelecer um regime de quotas para imigrantes, consoante as necessidades da economia espanhola e privilegiando as nacionalidades que partilhem o idioma castelhano e tenham relações mais próximas com Espanha.

“Identifico-me com a identidade cultural europeia e gostaria que se preservasse. Não acredito no multiculturalismo nem nessas misturas com as quais é impossível viver. Não tenho nenhum problema com a cor das pessoas, mas com o que elas têm dentro da cabeça. Esse é o meu problema com certa imigração e, sobretudo, com as necessidades da economia espanhola”, declarou recentemente Abascal, em entrevista ao jornal “El País”. Como tradução prática destas ideias, o Vox propõe a construção de muros de separação nas cidades autónomas de Ceuta e Melilla, na fronteira com Marrocos, como que mimetizando o projeto de Donald Trump, presidente dos EUA, para a fronteira com o México.

A unidade nacional é um valor inegociável para o Vox que defende a suspensão da autonomia catalã “até à derrota sem paliativos do golpismo”. O partido de Abascal pretende também ilegalizar todo os “partidos, associações ou organizações não governamentais que defendam a destruição da unidade territorial”. E aponta para a extinção das comunidades autónomas. Ao nível identitário quer promover o ensino da língua castelhana nas escolas, remetendo as línguas regionais para o estatuto de opcionais, e ainda revogar a Lei da Memória Histórica. O Vox é contra a exumação dos restos mortais do antigo ditador Francisco Franco, sepultado no Vale dos Caídos.

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