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ANAV acredita que a jurisprudência aplicada em Itália contra a Ryanair poderá ter “alguma repercussão” em Portugal

A Ryanair vai recorrer da multa de 255,8 milhões de euros aplicada pela autoridade da concorrência italiana por abuso de posição dominante, que diz ser juridicamente sem fundamento.
24 Dezembro 2025, 02h34

A ANAV — Associação Nacional das Agências de Viagens que no inicio do ano decidiu avançar com uma queixa junto da Autoridade da Concorrência (AdC). Acusa a Ryanair de políticas e práticas “discriminatórias e depreciativas” e de abuso de posição posição dominante no aeroporto do Porto, veio esta terça-feira em comunicado dizer que está “confiante nas autoridades portuguesas após a condenação da Ryanair em Itália por abuso de posição dominante no aeroporto do Porto”.

“A ANAV vem por este meio enaltecer a decisão conhecida hoje da Autoridade da Concorrência italiana de multar em 255,8 milhões a Ryanair por abuso de posição dominante.

A associação acredita que a jurisprudência aplicada em Itália poderá ter alguma repercussão no mercado português, começando por agilizar uma tomada de posição efetiva por parte das autoridades nacionais em relação à queixa interposta pela ANAV em janeiro de 2025.

Assim, na sequência da queixa apresentada em janeiro deste ano, a associação espera que “a Autoridade da Concorrência nacional possa seguir o exemplo da congénere italiana nesta matéria”.

Recorde-se que, no início do ano, a ANAV formalizou uma queixa na Autoridade da Concorrência (AdC) portuguesa contra a companhia aérea low cost por abuso de posição dominante, potencial violação de RGPD, falta de apoio a pessoas portadoras de deficiência, entre outras.

Miguel Quintas, presidente da ANAV, destaca a importância desta decisão. “Este é um precedente jurídico pioneiro e histórico no que respeita à defesa dos consumidores europeus”, diz.

“A Ryanair presta um serviço inestimável em grande parte dos nossos mercados, mas é também uma empresa que há muito leva a cabo uma série de práticas abusivas e que, infelizmente, parece julgar-se acima da lei. Esta decisão veio demonstrar que nada nem ninguém está acima da lei”, aponta Miguel Quintas.

Na queixa formal apresentada pela ANAV são denunciadas várias práticas consideradas abusivas e que há muito vêm lesando passageiros em todo o território nacional, com particular enfoque nos aeroportos de Porto e Faro onde a Ryanair tem um domínio evidente em relação à maioria das rotas.

Entre as diferentes alegações apresentadas pela ANAV, cada uma destas devidamente fundamentada, destacam-se a “gestão de reembolsos para clientes é extremamente dificultada, de acesso particularmente complicado no site, e muitas vezes inexistente, devido à falta de atendimento personalizado; a obrigatoriedade de leitura facial caso seja necessário fazer a verificação do cliente, o que levanta muitas preocupações / dúvidas em relação ao cumprimento do RGPD; e os problemas com a bagagem de mão, já que Ryanair cobra por estas mesmo que os passageiros sejam obrigados a viajar com elas por fazerem parte de um acessório de viagem”.

A ANAV destaca que Ryanair já foi condenada em Espanha e também em Portugal por cobrar bagagem de mão mesmo que os passageiros sejam obrigados a viajar com elas por fazerem parte de um acessório de viagem”, no entanto, “neste último, conseguiu reverter momentaneamente a decisão somente devido a uma tecnicidade processual”.

Depois a ANAV destaca a alegação contra a Ryanair de que “o apoio a passageiros portadores de deficiências é praticamente inexistente e apenas mediante pagamento; e que os adultos que viagem com crianças são obrigados a pagar valores-extra. Aqui, o facto de recusarem ou praticamente impossibilitarem a marcação de reservas por agências de viagens, criando sérios obstáculos, “é uma evidente discriminação em relação a clientes finais que optam ou até dependam dos serviços destas para viajar”, defende a ANAV.

“O número de slots que foram conquistando, sobretudo, nos aeroportos do Porto e de Faro, devido ao crescimento da respetiva operação, confere-lhes um domínio evidente sobre as reservas na maioria das rotas disponíveis. Ou seja, um passageiro que queira viajar a partir dos aeroportos mencionados não tem outra opção a não ser submeter-se às práticas levadas a cabo pela Ryanair e isto constitui-se, quanto à ANAV, como um manifesto abuso de posição dominante.” acusa a associação.

A Autoridade da Concorrência de Itália aplicou uma coima de mais de 256 milhões à Ryanair, por práticas consideradas abusivas contra agências de viagens, anunciou o regulador.

A investigação concluiu que a companhia aérea, que detém entre 38% e 40% dos passageiros nas rotas de e para Itália, utilizou esse poder de mercado para dificultar a atividade de agências de viagens online (OTAs) e tradicionais entre abril de 2023 e pelo menos abril de 2025, tendo adotado já medidas preparatórias no final de 2022.

A Ryanair vai recorrer da multa de 255,8 milhões de euros aplicada pela autoridade da concorrência italiana por abuso de posição dominante, que diz ser juridicamente sem fundamento.

A Ryanair “instruiu os seus advogados a recorrerem imediatamente tanto da decisão infundada como da multa de 256 milhões de euros, injustamente imposta pela Autoridade Italiana da Concorrência, que procura ignorar – e anular – a decisão precedente de janeiro de 2024 do Tribunal de Milão, que declarou que o modelo de distribuição direta da Ryanair ‘indubitavelmente beneficia os consumidores’ e leva a ‘tarifas competitivas'”, indicou a companhia aérea, em comunicado.

Para a Ryanair, a reguladora ignorou o facto de a companhia “deter uma participação não dominante (pouco mais de 30%) no mercado italiano, manipulando a definição para excluir tanto as viagens aéreas de longa distância quanto o acesso aéreo de curta distância a diversos outros países, de modo a poder alegar que a Ryanair detém uma posição dominante no mercado italiano de viagens aéreas”.

A autoridade da concorrência italiana (AGCM) aplicou a multa de 255,8 milhões de euros à Ryanair por abuso de posição dominante, considerando que impediu a compra de voos pelas agências de viagens.


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