Já muito se escreveu e ponderou sobre este tema, mas pouco resultou na prática, mesmo depois de uma Revolução que alterou – e muito – a participação das mulheres na política do nosso país. São cinco décadas de democracia e a sub-representação das mulheres na política (e noutros cargos de hierarquia) mantém-se – mesmo quando são elas as que detêm, hoje, as mais elevadas habilitações académicas. A haver equidade política, esta ocorre incontestavelmente mais à esquerda, mas mesmo assim, e com o regime de quotas em vigor, continuamos a assistir a um menor número de mulheres na política comparativamente aos homens. Mesmo que hoje em dia, haja mais mulheres na política, comparativamente há uns anos, a igualdade plena ainda não foi atingida.
É inegável: têm sido adotadas medidas europeias contra as ainda (muitas) desigualdades de género, inclusive com fundos europeus a apoiar a implementação de variadas ações. Até se definiu juridicamente, na UE, o conceito de igualdade política e se criou uma Comissão Permanente sobre os direitos das mulheres e a igualdade de género… e então? A realidade é que alguns países, incluindo o nosso, não cumprem estes requisitos regulamentares e chegam mesmo a negligenciar esta matéria nos seus programas de governo. “A política ainda é um mundo de homens “, mesmo que, por exemplo, a nível local, já haja muitas mulheres eleitas como presidentes de município – mas não chegam sequer a 16% das 308 autarquias, segundo notícias recentes. Uma explicação? (entre tantas outras, como por exemplo o machismo, patriarcado, misoginia, etc.…) – o trabalho familiar sobrecarrega sobretudo a mulher e a conciliação com o trabalho é ainda uma empreitada difícil para tantas, sem apoio equânime dos companheiros.
Há ainda um caminho (que parece interminável…) para alterar mentalidades e quebrar barreiras que permitam a plenitude da Lei da Paridade e do reconhecimento da capacidade de competência feminina em cargos de soberania e de destaque político. Ao se assistir a debates eleitorais, ou mesmo no âmbito interno partidário – da esquerda à direita – a par da ofensa e a discriminação pela condição de género (mandando as mulheres fazer “gestão doméstica” em vez de concelhia ou partidária), vinga ainda uma certa complacência “paternalista” perante as posições das mulheres na política. Sim, há desconsiderações de género na política! Seja pelos seus pares, seja pelo eleitorado. E sobretudo pelos seus opositores, claro.
Ainda assim, muitas têm sobressaído, concordemos ou não com as suas tomadas políticas e orientações ideológicas, confirmando-se como líderes, mesmo mundiais, incontestáveis (ocorrem-me algumas mais recentes, como a Angela Merkel ou a Kamala Harris , ou – minhas diletas – a Vigdís Finnbogadóttir, na Islândia; a Maria Lurdes Pintassilgo, em Portugal e, aqui, ainda mais perto, na Região Autónoma da Madeira, a Élia Ascensão e a Célia Pessegueiro, esta última que lamentavelmente perdeu o mandato que vinha a exercer no seu município com uma dignidade, ponderação e verticalidade apreciáveis, mesmo à distância da minha oposição. E sobre ela alguns comentários que não vieram de mim, mas de um núcleo de pessoas (todos homens) de um café que frequento quase diariamente e onde já cheguei a ouvir comentários que me indignaram sobre outros assuntos: “A rapariga fez um bom trabalho”; “Não merecia ter perdido”; “Foi para junto da população com o seu carro aquando dos incêndios, quem mais fez isto?”; “Se calhar não a reelegeram porque é mulher”, entre outras apreciações abonatórias ao seu trabalho. Isto vem contradizer muito do que descrevi antes sobre a discriminação machista das mulheres na política, e ainda bem. De resto, pessoalmente, faço votos que a Célia Pessegueiro continue a vingar na política regional. Precisamos de mulheres e de homens que estejam na política em serviço público de missão. Não de corruptos e trapaceiros e para mais com tiques de autocratas e de pequenos ditadores.
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