Bruno Bobone: “É mais fácil uma empresa portuguesa ir buscar crédito a Espanha do que a Portugal”

A falta de financiamento é um problema que continua a afetar as empresas portuguesas porque os bancos não dão crédito a qualquer projeto que comporte riscos, refere o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, Bruno Bobone, em entrevista ao Jornal Económico.

Cristina Bernardo

O crédito às empresas ainda tem muitas limitações, e continua a não chegar a boa parte das que mais necessitam de financiamento para desenvolverem a sua atividade, alerta o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, Bruno Bobone, em entrevista ao Jornal Económico.

É inegável que o enquadramento financeiro português está mais confortável para as empresas. As taxas de juro evoluíram de forma favorável. O Outlook do rating da República melhorou…

Tudo em níveis abaixo do que era antes. O crédito está muito pior do que era antes. O rating está pior do que era antes. Continuamos mal: ainda não chegámos onde queremos. Fala-se em haver mais crédito. Mas eu desafio a encontrar qual foi a empresa que teve facilidade em obter crédito. O crédito tem sido dado à habitação, fundamentalmente. As empresas com boas situações financeiras terão facilidade em obter crédito, porque há liquidez. Mas a capacidade de risco dos bancos desapareceu completamente. Quem manda num banco, como no Governo, é o risco. E quando o risco manda num banco, o risco manda que não se empreste a quem tem risco. O banco passou a assumir que o papel de uma entidade financeira que faz atividade bancária é assumir risco zero. Ora, assumir risco zero é uma coisa impossível, não tem sentido nas empresas. Tem de haver alguma capacidade de gerir os bancos de uma maneira diferente. É mais fácil uma empresa portuguesa ir buscar crédito a Espanha do que a Portugal. Isso é uma péssima notícia.

As empresas internacionalizadas só se financiam no estrangeiro?

Só para as empresas que conseguem ir lá fora. A maioria das empresas portuguesas continuam a viver em Portugal. Nós não estamos a financiar a economia portuguesa minimamente porque não temos capacidade para que a banca portuguesa se disponibilize a emprestar dinheiro às empresas.

A capacidade de risco dos bancos desapareceu completamente. Quem manda num banco, como no Governo, é o risco. E quando o risco manda num banco, o risco manda que não se empreste a quem tem risco

O enquadramento do crédito pode ser alterado?

É fundamental que seja alterado. O regulador em Portugal, antes da crise, não atuou por medo de enfrentar as pessoas com quem tinha de conversar para tirá-las do lugar, ou para tomar decisões negativas relativamente ao trabalho que estavam a fazer. Hoje sobreatua porque tem medo que digam que ele não está a atuar e está a paralisar completamente a atividade financeira.

Está a referir-se ao governador do Banco de Portugal?

Estou a referir-me ao regulador. Não quero entrar numa questão pessoal. A verdade é que este regulador não tem funcionado, tem medo. Não sei se um outro que venha a ser nomeado mudará esta realidade.

E os bancos comerciais estarão em condições de passarem a essa fase seguinte?

Sem dúvida. E com vontade. Os bancos precisam de desenvolver esse trabalho. Até porque a sua rentabilidade aumentará se eles tiverem mais capacidade de intervir na economia. O que acontece é que com tanta regulação estão sempre inibidos. Além disso, para nomear uma administração perdem-se meses e meses à espera da opinião do regulador para saber se os nomes são aceites para a administração de um banco. Não é razoável. Não tem sentido nenhum. Isto é um disparate pegado. E não é a nomeação de uma pessoa que causa outro problema.

As PME normais têm sido excluídas da atribuição de crédito?

Têm tido muito maior dificuldade, sem dúvida nenhuma. A CCIP tem tido conhecimento das empresas que têm vindo a sofrer esta limitação. Também tem tido conhecimento da quantidade de empresas que faliram por falta de apoio, o que resulta de mais uma decisão do regulador e do Governo.

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