Certificação. Produtores artesanais denunciam “total subversão do conceito de sal biológico”

Em documento a que O Jornal Económico teve acesso, os produtores de sal artesanal tradicional de Portugal, Espanha e França acusam Bruxelas de beneficiar os interesses económicos do sal industrial e pôr em causa o futuro económico e ecológico da produção artesanal. O tema será debatido a 28 de outubro. “Acreditamos que é possível reverter a situação se Portugal se juntar aos outros países que estão a levantar a voz contra a subversão do conceito biológico”, defende empresária Andrea Siebert.

O sal não era, até agora, passível de certificação biológica, mas Bruxelas vai autorizar a sua certificação. A proposta que a Comissão tem em cima da mesa privilegia a grande produção industrial alemã em detrimento dos produtores de sal artesanal de Portugal, Espanha e França.

“A Comissão Europeia está a preparar-se para tornar elegíveis para o rótulo biológico praticamente todos os métodos de produção de sal existentes, incluindo os menos amigos do ambiente, como o sal de minas e o sal de vácuo”, afirma a Federação Europeia de Produtores de Sal Marinho Colhido à Mão em documento a que O Jornal Económico teve acesso.

Mobilizados contra o que consideram a “total subversão do conceito de sal biológico” em favorecimento dos interesses económicos do sal industrial, os produtores de sal artesanal em Espanha, França e Portugal pedem o apoio urgente dos Governos dos seus países para se mobilizarem a par desta causa de modo a evitarem o “atentado ao futuro dos produtos biológicos”.

Em Portugal, Andrea Siebert, administradora da Marisol Sea Salt é a sua voz: “O  relatório está feito, mas acreditamos que é possível reverter a situação se Portugal se juntar aos outros países que estão a levantar a voz contra a subversão do conceito biológico”.

À semelhança dos seus congéneres espanhóis e franceses, Siebert alerta para “o futuro económico e ecológico da produção de sal”, que se não for devidamente acautelado compromete, desde logo, “o caminho verde que a União Europeia diz estar empenhada em incrementar”.

A Comissão Europeia concordou em discutir o sal biológico com mais profundidade na próxima reunião do Comité de Produção Orgânica, agendada para 28 de outubro, e onde deverão ser concluídas as diretrizes sobre o sal biológico.

 

O relatório da Comissão

A proposta de Bruxelas consta de um relatório publicado em agosto para o qual contribuiu o parecer de um grupo de peritos em produção biológica contratados por concurso público internacional. Três dos peritos (uma espanhola, um francês e uma austríaca) disseram que o sal extraído de mina e o produzido industrialmente em vácuo (vacuum salt) não têm condições, face aos seus métodos de produção, para receberem o selo de produto biológico, mas o quarto especialista, alemão, sugeriu, precisamente, o contrário.

Andrea Siebert, administradora da Marisol Sea Salt, empresa que comercializa a partir de Olhão, no Algarve, sal marinho do Atlântico e Flor de Sal, integrou o grupo restrito dos quatro peritos que aconselhou o EGTOP da Comissão Europeia. A empresária denuncia uma cedência “clara e perigosa” da Comissão Europeia face aos interesses económicos do sal industrial de minas e de vácuo.

A empresária conta: “a certa altura do processo, o colega especialista alemão abandonou o trabalho do grupo. E enquanto os três apresentámos uma proposta conjunta, ele optou por apresentar apenas a sua que considera que também o sal de mina e de vácuo deve ser contemplado com o rótulo biológico, além de permitir praticamente todos os processos posteriores de tratamento industrial e adição de químicos ao sal, tudo técnicas pouco amigas do ambiente e não sustentáveis, sendo de sentido oposto aos objetivos definidos para o Regulamento Europeu de produtos biológicos”.

 

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