CFP mais pessimista, revê crescimento da economia portuguesa para 1,6% este ano

Instituição liderada por Nazaré da Costa Cabral diz que a economia portuguesa “aparenta ter terminado a fase de expansão” e estar a entrar na “fase descendente do ciclo num enquadramento internacional com riscos acrescidos”.

Cristina Bernardo

O Conselho de Finanças Públicas (CFP) também está menos otimista sobre o crescimento da economia portuguesa e reviu em baixa ligeira as estimativas para este ano, à semelhança da generalidade das organizações internacionais. A instituição agora liderada por Nazaré da Costa Cabral antecipa uma expansão de 1,6%, menos três décimas do que na análise de setembro, e abaixo da meta do Governo.

No relatório “Finanças Públicas: Situação e Condicionantes 2019-2023”, divulgado esta quinta-feira, o CFP sinaliza que a pressionar o crescimento da economia portuguesa estão as incertezas externas, mas vai mais longe e traça o fim de uma fase cíclica.

“A economia portuguesa aparenta assim ter terminado a fase de expansão e estar a iniciar a fase descendente do ciclo num enquadramento internacional com riscos acrescidos que podem ter impactos elevados, ainda com fragilidades a nível interno e com um espaço orçamental reduzido”, identifica.

O CFP estima um abrandamento gradual até 2023, numa trajetória já iniciada no ano passado e que a médio prazo o ritmo de crescimento da economia portuguesa estabilize em 1,5%. A instituição liderada por Nazaré da Costa Cabral torna-se assim o organismo mais cauteloso sobre o ritmo de crescimento da economia portuguesa este ano.

O Ministério das Finanças está a trabalhar com um cenário de expansão de 2,2% para este ano, mas a Comissão Europeia antecipa um crescimento de 1,7%, o Banco de Portugal e o Fundo Monetário Internacional anteveem 1,8%, enquanto a OCDE projeta um crescimento de 2,1%.

Neste cenário, o CFP deixa alguns alertas: “Os níveis de endividamento dos setores público e privado elevados têm uma importância acrescida dada a maior vulnerabilidade a que elevados stocks de dívida são sujeitos quando confrontados com uma eventual subida das taxas de juro”.

Evolução da economia mundial estabelece quadro menos favorável para economia portuguesa

O CFP identifica alguns riscos externos para o crescimento da economia portuguesa, tais como o aumento do protecionismo comercial, a possibilidade de um Brexit sem acordo e os elevados níveis de endividamento público e privado à escala global.

“O aumento do protecionismo comercial, materializado sobretudo pelo aumento das tarifas aduaneiras sobre as importações dos EUA oriundas da China, o que acarreta o aumento de tensões no comércio internacional e potencia consequências negativas para as exportações portuguesas”, explica a entidade.

Realça ainda que a possibilidade da saída do Reino Unido da União Europeia sem acordo “poderá traduzir-se em elevados custos comerciais para todas as economias envolvidas”, assim como “a perda de confiança dos investidores nos mercados britânicos e em perturbações nos fluxos comerciais entre o Reino Unido e Portugal, particularmente no sector do turismo”.

Também os níveis de endividamento público e privado à escala mundial “podem desencadear uma nova turbulência nos mercados financeiros”, no caso de uma subida nas taxas de juro, com consequência para um agravamento do financiamento da economia portuguesa.

O CFP assinala “que o agravamento das perspetivas sobre a evolução da economia mundial e, em particular da área do euro, no curto e médio prazo, estabelece um quadro globalmente menos favorável para a atividade económica em Portugal”.

Por outro lado, sublinha que este ano deverá ocorrer uma menor contribuição da procura interna para 2,0 pontos percentuais (p.p.) e a dinâmica das exportações líquidas “deverá exibir uma melhoria substancial em 2019, projetando-se que o respetivo contributo para o crescimento do PIB real se fixe em -0,2 p.p.”.

Já o consumo privado deverá abrandar até 2023, recuando inicialmente o ritmo de crescimento anual para 2,0% este ano, enquanto as exportações deverão acelerar ligeiramente este ano, “registando um crescimento 3,9% em termos reais (+0,2 p.p. que em 2018), esperando-se para os anos seguintes um perfil de abrandamento contínuo”.

“A evolução das exportações acompanha a dinâmica esperada para a procura externa dirigida à economia portuguesa, que deverá abrandar progressivamente de um crescimento de 3,9% em 2019 para um crescimento de 2,8% no médio prazo”, salienta.

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