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Cimeira do Alasca: Ucrânia pode não ser o tópico principal do encontro

Os europeus construíram uma narrativa que pretendia impor a Ucrânia como o ‘prato forte’ da cimeira, mas há analistas que dizem que isso só é verdade na mente pouco esclarecida de alguns líderes europeus.
15 Agosto 2025, 12h00

É errado acreditar na perceção de que Putin e Trump estão a encontrar-se apenas pelo bem da Ucrânia: “na verdade, a Ucrânia dificilmente será o principal tema. O encontro no Alasca servirá de palco para manobras estratégicas mais amplas, não só por parte de Trump, mas também do seu astuto colega russo. Nos bastidores, espera-se que Trump manifeste o seu apetite pelos projetos muito lucrativos da Rússia no Ártico (tendo já feito algumas incursões nos projetos sensíveis no espaço)”, defende a analista Lily Ong, analista de risco geopolítico, num research do International Institute for Middle East and Balkan Studies (IFIMES) a que o JE teve acesso.

“O perspicaz Putin não é alheio à situação e irá espalhar confettis sobre Trump e mantê-lo agarrado. Algumas das ofertas seriam rotuladas como ‘rotas de navegação’, enquanto outras serão marcadas como ‘direitos de recursos’. O restante será inscrito como ‘infraestruturas’. Espera-se que o líder norte-americano concorde com o alívio das sanções, mas apenas de forma gradual para manter a Rússia confinada sob pressão, refere a analista. “Além disso, pode continuar a sorrir vendendo armas para a Europa para envio para a Ucrânia”.

Trump poderá também chegar a um acordo com Putin sobre a regulação bilateral das reivindicações de recursos. “Desta forma, outros membros do Conselho do Ártico, que deixaram um sabor amargo na boca da Rússia ao ostracizá-la, poderiam ser afastados. Além disso, tal como Putin, Trump não chegaria de mãos a abanar, mas com um bolso cheio de mimos para dar um empurrãozinho. Que tal um pontapé na bola no Mundial de 2026?”, antecipa.

“Para além dos interesses económicos e energéticos, Putin e Trump partilham também uma aversão à NATO. Se ambos concordam com os interesses comerciais no Ártico, é evidente que também devem concordar com uma estrutura de segurança ártica mais ampla para proteger os seus empreendimentos conjuntos. Trump poderá procurar um acordo com Putin sobre as posturas militares e as esferas territoriais de influência na Europa de Leste, um passo que não só terá impacto direto na coesão da NATO, como também recalibrará a ordem de segurança pós-Guerra Fria na Europa e no Ártico. Embora o principal alvo da mensagem seja a NATO, não se pode ignorar o sinal subtil que Trump quer passar à China: não só posso realinhar as parcerias económicas na Eurásia e no Ártico, como também posso mudar alianças”, refere a analista.

Desta forma, a Ucrânia pode vir a ter apenas um papel periférico a desempenhar na reunião. Para Lily Ong, a ausência em palco será nada mais nada menos que a Ucrânia, cujo destino foi selado. “Este eventual destino da Ucrânia não surpreende aqueles que estão familiarizados com o fim que espera todos os peões norte-americanos. Nenhuma pose convencerá ninguém de que Zelensky tem algo a ver com o acordo”, conclui a analista.

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