Uma das consequências da guerra na Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022, foi a substituição dos fornecedores da União Europeia em termos de combustíveis fósseis, com os Estados Unidos a assumirem uma parte importante da quota que antes estava na posse da Rússia. Os analistas Ugnė Keliauskaitė, Ben McWilliams e Georg Zachmann explicam, em análise publicada pelo ‘think tank’ Bruegel, as consequências dessa transferência.
Desde 2022, a União Europeia aumentou drasticamente as importações de energia dos Estados Unidos, que agora respondem por cerca de 20% em média das importações de gás natural – especialmente gás natural liquefeito (GNL) – petróleo bruto, carvão e urânio, num total que em 2024 chegou aos 70 mil milhões de euros em 2024. O que os Estados Unidos não substituíram, foi a ‘ideologia’ por trás do fornecimento: a estratégia de segurança nacional dos EUA especifica o objetivo de “restaurar a dominação energética americana (em petróleo, gás, carvão e nuclear)” – enquadrando as exportações de energia “não apenas como fluxos comerciais, mas como ferramentas de força económica e influência geopolítica, destinadas a aprofundar os laços com aliados e conter adversários”, referem os analistas. Nada de muito diferente do que acontecia antes com a Rússia – ou seja, dada a quase inexistência de combustíveis fósseis na Europa, à União nada mais resta que gerir, quando pode, a entrega da sua dependência nas mãos de um ou outro fornecedor. No caso da substituição da Rússia pelos Estados Unidos, a capacidade de escolha parece ter sido diminuta: “como maior produtor mundial de petróleo e gás, e principal exportador de GNL, os EUA carregam agora mais peso na segurança energética da EU”.
Menor influência
Mas os analistas afirmam que, “no entanto, isso não dá a Washington o tipo de influência que a Rússia já teve sobre a Europa. Primeiro, a dependência relativa da UE do fornecimento dos EUA é menor que sua dependência da Rússia em 2021. Segundo, seria muito mais difícil para os EUA restringirem as exportações de energia para a UE por razões políticas. A administração dos EUA, em princípio, não determina onde empresas privadas de energia vendem os seus produtos, o que contrasta com o Estado russo, que controla diretamente as exportações. Terceiro, as importações de energia da UE dos EUA são marítimas, oferecendo uma camada extra de resiliência em comparação com as importações de oleodutos russos. Os fornecedores de GNL podem ser transferidos com relativa facilidade, enquanto ter acesso a um novo fornecedor de gás por gasoduto normalmente requer uma nova infraestrutura de transporte”.
No entanto, a dependência geral da UE de energia importada continua a apresentar vulnerabilidades. “A segurança do fornecimento depende dos mercados globais e de desenvolvimentos políticos que estão além do controlo europeu. Interrupções em grandes regiões produtoras, rotas de navegação ou infraestrutura energética – ilustradas pelo fechamento do Estreito de Ormuz neste exato instante e danos às instalações de energia, podem apertar rapidamente os mercados e elevar os preços”.
A mudança da UE para a energia dos EUA é mais pronunciada no gás natural. “Em 2021, a Rússia forneceu 40% do gás da UE. Desde então, o GNL dos EUA substituiu o gás russo de gasodutos e, cada vez mais, alguns fornecimentos da África e do Médio Oriente. O GNL dos EUA representa 25% do gás da UE, tornando os EUA o segundo maior fornecedor, atrás apenas da Noruega”. O gás russo era entregue à Europa predominantemente por meio de quatro gasodutos. A interrupção desses fluxos dificultou toda a operação. “A rápida expansão dos terminais de GNL mudou tudo. A capacidade de importação de GNL por parte da UE agora é de 270 mil milhões de metros cúbicos (bcm, cerca de 80% da procura de gás), o que permite aos compradores ter acesso uma gama mais ampla de exportadores e transitar entre fornecedores com mais facilidade do que sob o sistema anterior de gasodutos. Consequentemente, a oferta agora é mais diversa e a dependência de um único exportador diminuiu”.
O fornecimento por parte dos EUA à Europa é seguro: alterar as vendas de GNL para mercados asiáticos (Japão ou Coreia do Sul) é possível, mas muito mais caro – o que faz com que, de alguma forma, as exportações norte-americanas de gás tenham na Europa a sua ‘zona de conforto’. Num certo sentido, uma dependência é compensada copm outra dependência.
No caso do petróleo, a maior parcela dos gastos da União em energia norte-americana, a Europa depende quase inteiramente das importações de petróleo bruto. “Antes de 2022, a Rússia fornecia cerca de 33% do petróleo bruto da UE. Agora, os EUA e a Noruega representam cada um 12,5% das importações de petróleo bruto da EU”. Ora, “os mercados de petróleo são globais e diversificados, o que significa que o potencial para pressão política dos Estados Unidos por meio do comércio de petróleo é limitado”. ”Os países europeus mantêm stocks de emergência de petróleo bruto e produtos petrolíferos equivalentes a pelo menos 90 dias de importação líquida ou 61 dias de consumo interno. Essas reservas fornecem uma barreira contra interrupções de fornecimento de curto prazo”.
No carvão, cerca de 50% das importações da UE vinham da Rússia. Quando o carvão russo foi proibido, a União substituiu o carvão russo por remessas dos EUA e da Austrália. “Os EUA representam agora cerca de 25% das importações de carvão em valor e cerca de 33% em volume. O carvão é amplamente negociado, transportado por mar e precificado segundo os parâmetros globais. Os EUA respondem por cerca de 5% da produção global de carvão, limitando a sua capacidade de exercer pressão. Assim como no petróleo, os fluxos comerciais podem ser reorganizados entre regiões em resposta a sinais de preço”. De qualquer modo, a participação do carvão na geração de eletricidade na UE caiu de cerca de 25% para 9% na última década – apesar de Polónia, Bulgária, República Checa e Alemanha serem ainda dependentes.
No que tem a ver com o nuclear, e em termos de valor, os EUA representam cerca de 10% das importações de urânio da UE. A energia nuclear gera cerca de 23% da eletricidade do bloco. “As concessionárias da UE também mantêm urânio suficiente em média para mais de três ciclos de reabastecimento (totalizando aproximadamente quatro a seis anos), proporcionando uma barreira e reduzindo riscos de fornecimento de curto prazo”.
“Em 2024, o urânio natural entregue às concessionárias da UE teve origem principalmente no Canadá (34%), Cazaquistão (24%) e Austrália (11%). A conversão de urânio em gás para uso na UE é dividida entre a União, Rússia, Canadá e EUA, cada um representando cerca de 20% das entregas. Para o enriquecimento de urânio, empresas baseadas na União fornecem quase 66% dos serviços às concessionárias. A dependência europeia dos fornecimentos dos EUA não é, portanto, crítica em nenhum momento”. Até porque “os EUA dependem da União para cerca de 40% dos seus serviços de enriquecimento. Esse fornecimento tornar-se-á mais importante porque os Estados Unidos vão eliminar gradualmente o fornecimento de urânio russo até 2028”.
Que fazer?
Mas, para todos os efeitos – e num quadro em que a União Europeia não será nunca autossuficiente em matéria de energias fósseis, os três analistas são claros: a única forma de o bloco reduzir o grau de dependência dos seus fornecedores é “reduzindo a procura de gás e petróleo e mantendo altos níveis de armazenamento, especialmente durante períodos de tensão política ou comercial. A menor procura de gás reduz a exposição à volatilidade dos preços e permite que a União seja mais seletiva na escolha dos fornecedores. No entanto, o progresso na redução da procura de combustíveis fósseis é insuficiente, como demonstra a participação da eletricidade no ‘bolo’ energético, que permanece em 23% desde 2011”.
“Uma segunda alavanca política da UE é o armazenamento de gás. Embora não elimine a dependência de fornecedores estrangeiros, reduz a exposição a interrupções de curto prazo. A UE já exige níveis mínimos de preenchimento e depende em grande parte de armazenamento operado comercialmente para equilibrar a procura sazonal. No entanto, o armazenamento é baseado no mercado e não projetado como uma reserva dedicada a emergências. Uma melhor abordagem seria estabelecer uma reserva estratégica de gás, semelhante às reservas de petróleo”.
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