[weglot_switcher]

Combustíveis mais limpos reduzem relâmpagos em rotas marítimas movimentadas, revela estudo

A redução das emissões de enxofre pelos navios está ligada a uma diminuição da densidade de descargas de relâmpagos ao longo de rotas marítimas intensamente movimentadas no Golfo de Bengala, no Oceano Índico e no Mar da China Meridional, revela uma investigação da Universidade do Kansas.
@Wikimedia Commons/Iqbal Hossain
21 Janeiro 2026, 12h12

A redução das emissões de enxofre pelos navios está ligada a uma diminuição da densidade de descargas de relâmpagos ao longo de rotas marítimas intensamente movimentadas no Golfo de Bengala, no Oceano Índico e no Mar da China Meridional, revela uma investigação da Universidade do Kansas.

Antes da entrada em vigor, em 2020, de um regulamento da Organização Marítima Internacional (IMO) que limitou o teor de enxofre nos combustíveis utilizados por navios de grande porte, estas rotas apresentavam frequentemente intensa atividade de relâmpagos. Após a implementação da regra, as emissões de sulfatos no Golfo de Bengala caíram cerca de 70%, resultando numa redução de aproximadamente 36% na densidade de descargas de relâmpagos na região.

“Isto acontece por duas razões principais”, explica Qinjian Jin, professor assistente de geografia e ciências atmosféricas da KU e autor principal do estudo. “Por um lado, a atividade marítima nesta região é extremamente intensa, libertando grandes quantidades de aerossóis de sulfato, mais do que noutras regiões oceânicas. Por outro, o Golfo de Bengala é uma área propícia a conveção forte, necessária à formação de relâmpagos.”

Os investigadores explicam que os aerossóis de sulfato funcionam como núcleos de condensação nas nuvens, tornando as gotas mais pequenas. Isto dificulta a precipitação, prolonga a duração das nuvens e aumenta a probabilidade de formação de nuvens de gelo — condição essencial para os relâmpagos. Assim, ao reduzir os sulfatos, há menos núcleos de condensação, nuvens maiores, menos convecção e, consequentemente, menos relâmpagos.

O estudo, publicado na revista científica Climate and Atmospheric Science, utilizou dados da World Wide Lightning Location Network da Universidade de Washington, que fornece informações globais de alta resolução sobre descargas de relâmpagos desde os anos 2000. Uma diminuição semelhante na frequência de relâmpagos foi observada noutras rotas marítimas intensamente usadas, incluindo o Mar da China Meridional, embora sinais mais fracos tenham sido detectados no Mar Vermelho.

Além do benefício direto de reduzir relâmpagos — que representam risco para a navegação e visibilidade —, a investigação sugere que a redução dos sulfatos dos navios pode ter impactos climáticos significativos. Jin aponta que menos sulfatos podem tornar as nuvens mais escuras e absorver mais radiação solar, possivelmente contribuindo para o aumento das temperaturas globais observadas em 2023 e 2024.

O investigador planeia agora usar modelos climáticos regionais de alta resolução para estudar melhor como a diminuição dos aerossóis de sulfato dos navios influencia nuvens e temperaturas globais. Também pretende analisar os efeitos de regulamentos de qualidade do ar implementados em vários países asiáticos há cerca de 15 anos, que poderão ter levado a uma diminuição de relâmpagos em zonas continentais.

“Com menos aerossóis de sulfato, observamos menos atividade de relâmpagos. Esta é uma conclusão muito importante”, afirma Jin, sublinhando o potencial impacto das políticas de redução de poluição sobre fenómenos meteorológicos extremos.

 


Copyright © Jornal Económico. Todos os direitos reservados.