As tensões no Médio Oriente estão a provocar um choque nos mercados energéticos e nas cadeias de abastecimento globais, com repercussões que vão muito além do petróleo. Segundo o mais recente relatório da consultora Oliver Wyman, a interrupção no Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo e gás mundiais, provocou aumentos de preços que chegam a 25% no crude e a 58% no combustível de aviação.
Entre 27 de fevereiro e 11 de março, o Brent subiu de 73 para 91 dólares por barril, com picos temporários acima dos 100 dólares, enquanto os contratos futuros de gás europeu dispararam 56%, atingindo 50 euros por megawatt-hora. O impacto mais dramático foi sentido no combustível de aviação, cujo preço médio semanal subiu para 157 dólares por barril, face aos 99 dólares registados no final de fevereiro.
O relatório identifica três canais principais: energia, matérias-primas industriais críticas e transporte Ásia – Europa. Os efeitos já são visíveis na forma de custos mais elevados de componentes, prazos de entrega mais longos, pressão sobre o fundo de maneio, erosão das margens e risco real de escassez no abastecimento.
“O choque energético está a tornar-se um motor de inflação generalizada, com efeitos em toda a estrutura de custos industriais e de transporte”, alerta a Oliver Wyman, lembrando episódios similares do choque energético de 2021–22.
O relatório sublinha que o efeito económico do conflito vai muito além da energia, afetando matérias-primas industriais e agrícolas estratégicas. A região do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) é um dos principais exportadores de matérias-primas que registaram aumentos significativos.
No setor agrícola, o preço da ureia, fertilizante essencial para os sistemas alimentares globais, subiu mais de 26% após o encerramento da maior fábrica do Qatar, passando de 466 para 585 dólares por tonelada. Fertilizantes fosfatados, com a Arábia Saudita a controlar 20% do comércio global, registaram aumentos de 4%.
Já na indústria transformadora, os polímeros, essenciais para embalagens, automóveis e construção, o polietileno subiu 15% e o polipropileno 16%. O alumínio primário disparou 9%, para 3.440 dólares por tonelada, afetando particularmente a Europa, que depende da região para 20% das suas importações.
O caso mais crítico é o hélio, gás industrial indispensável em sistemas de ressonância magnética, semicondutores e fibra ótica. Com o encerramento do complexo Ras Laffan, no Qatar, responsável por 30% da oferta mundial, os preços subiram 35%.
O impacto no transporte entre a Ásia e a Europa acrescenta nova pressão. Mais de 150 navios foram obrigados a alterar a rota ou ancorar devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz, aumentando em oito a quinze dias o tempo de trânsito. A transportadora CMA CGM introduziu sobretaxas de emergência de até 4.000 dólares por contentor refrigerado e aumentos de 11% a 14% sobre tarifas base de combustível.
O mercado de seguros marítimos reflete o aumento do risco: as tarifas passaram de 0,25% para 1,25% do valor do casco em menos de uma semana. Após o cancelamento das coberturas de risco de guerra, a maioria das companhias marítimas deixou de aceitar novas reservas de e para o Médio Oriente.
No transporte aéreo, o aeroporto do Dubai só retomou parcialmente as operações a 7 de março, e continuam atrasos e cancelamentos em rotas entre o Extremo Oriente, a Europa e o Médio Oriente.
Mesmo após o fim do conflito, a normalização será lenta. “A interrupção comercial leva dias ou semanas a ser revertida. Alguns mercados energéticos podem estabilizar rapidamente, mas cadeias de abastecimento físicas, como fertilizantes, químicos, polímeros, metais e hélio, vão sofrer efeitos prolongados”, aponta a Oliver Wyman.
O estudo sublinha que as empresas devem quantificar rapidamente a sua exposição: identificar fornecedores únicos, inventários escassos ou contratos vulneráveis, e agir antes que a perturbação afete os resultados trimestrais.
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