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Despesas essenciais absorvem entre 60% a 80% da despesa total das famílias, diz estudo

Desenvolvido pela Fundação ”la Caixa”, BPI e Nova SBE, estudo divulgado esta terça-feira, 11, revela que o rendimento que sobra depois destas despesas (rendimento discricionário) é 12 a 17 vezes superior entre as famílias mais ricas do que entre as mais pobres.
Despesas gerais familiares
11 Março 2026, 18h25

Entre 60% a 80% das despesas das famílias são em bens essenciais, revela estudo desenvolvido pela Fundação ”la Caixa”, BPI e Nova SBE , divulgado esta terça-feira, 11. O rendimento que sobra depois destas despesas (rendimento discricionário) é 12 a 17 vezes superior entre as famílias mais ricas do que entre as mais pobres.

O relatório Portugal, Balanço Social: Perspetivas- Quanto sobra ao final do mês? Despesas essenciais, inesperadas e poupança, realizado no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social, baseia-se em dados do Inquérito às Despesas das Famílias 2022/2023 do INE, sendo complementado por um inquérito próprio realizado em 2024, para analisar quanto sobra às famílias depois de pagarem as despesas essenciais – o chamado rendimento discricionário.

Os autores Susana Peralta, Bruno P. Carvalho, Miguel Fonseca e Pedro Lopes concluem que, entre 2015 e 2022, o rendimento discricionário médio em Portugal aumentou de forma substancial. Ainda assim, e apesar de mais de 80% das famílias terem rendimentos discricionários positivos, apenas 49% a 66% dos mais pobres estão na mesma situação. Destes, cerca de 60% apresentavam poupanças negativas, o que evidencia que a melhoria da média não elimina as situações de maior fragilidade económica.

Apesar do aumento do rendimento discricionário nos últimos anos, em 2022, 26% dos agregados gasta mais do que recebe. Nas famílias mais pobres esta proporção atinge os 60%, enquanto nas mais ricas é de apenas 8%. Os investigadores alertam justamente para a existência de uma “forte desigualdade entre as famílias mais pobres, cujo rendimento discricionário médio varia entre 1.485 euros e 2.393 euros por ano, e as famílias mais ricas, que atingem um rendimento discricionário médio entre 24.973 euros e 30.004 euros por ano.

Em 2022, o rendimento discricionário médio em Portugal situava-se entre os 10.402 euros e os 13.379 euros/ano.

No mesmo ano, o custo total das despesas essenciais varia entre 9 381 euros e 12 795 euros. Apesar de os mais ricos terem um montante superior de gastos em despesas essenciaisestas representam uma maior proporção da despesa total para os agregados mais pobres (65%, no cabaz restrito), o que compara com 53% para os mais ricos, no mesmo tipo de cabaz. Segundo os investigadores, isto sugere que uma parte substancial do orçamento dos agregados é absorvida por despesas consideradas essenciais, o que limita substancialmente a capacidade de fazer face a despesas inesperadas e/ou de poupar.

A vulnerabilidade é realçada quando os investigadores analisam a capacidade de resposta a imprevistos. Com efeito, apenas 64,3% dos inquiridos afirmam conseguir suportar uma despesa inesperada de 632 euros sem recorrer a empréstimos – proporção que atinge 90% entre os agregados com rendimentos mais elevados, mas desce para apenas 23,6% entre as famílias com rendimentos mais baixos.

Perante o cenário de uma despesa inesperada de mil euros, quase 50% indica que recorreria a poupanças disponíveis, 14% a crédito e 11% pediria ajuda a familiares ou amigos. Entre os agregados de menores rendimentos, 34,2% não saberia sequer como reagir a uma despesa inesperada deste montante.

Ao nível regional há diferenças relevantes tanto no rendimento discricionário como na capacidade de poupança das famílias.

Os agregados residentes em Lisboa têm o rendimento discricionário mais elevado, enquanto os Açores e a Madeira apresentam os valores mais baixos.

Segundo os investigadores, importa, contudo, salientar que, apesar de Lisboa concentrar o maior custo de despesas essenciais, os níveis de rendimento mais elevados asseguram, ainda assim, uma maior margem financeira às famílias aí residentes.

Em paralelo, a proporção de agregados com poupança negativa é mais elevada no Algarve (29,1%), seguido do Norte (28,9%) e da Madeira (26,1%), ao passo que os Açores se destacam como a região com menor incidência de poupança negativa (18,8%).

Os investigadores alertam ainda para as assimetrias territoriais significativas na solidez financeira das famílias, reveladas pelos dados, o que, adiantam, reforça a importância de uma leitura regional das dinâmicas de rendimento e poupança em Portugal.

O rendimento discricionário é o rendimento que sobra, deduzidos apenas os gastos essenciais. Em contraste, a poupança é o rendimento que sobra, deduzidos todos os gastos.  Neste sentido, a poupança é uma medida conservadora da almofada financeira das famílias.


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