O “Dia da Libertação” está finalmente aí e, após um mês de dúvidas, avanços, recuos, negociações e retórica, o mundo ficará a saber como terá de começar a lidar comercialmente com os EUA sob a administração Trump, que fez das tarifas a sua principal bandeira eleitoral do lado económico. Para a Europa, a incerteza resultante será maior do que a causada pela pandemia, mas internamente também há descontentamento com os efeitos previstos destes impostos às importações, que deverão agravar a inflação e o crescimento na maior economia do mundo. Tarifas anunciadas pelo presidente norte-americano nesta quarta-feira, 2 de abril, terão efeito imediato, assegurou secretária de Imprensa da Administração dos EUA.
Após um anúncio inicial em março de que avançaria com tarifas “retaliatórias”, na sua linguagem, contra os parceiros comerciais norte-americanos, o presidente dos EUA adiou os detalhes e a entrada em vigor desta legislação para os dias 2 e 3 de abril, respetivamente, prazo que agora termina. Na segunda-feira, Trump havia já garantido aos jornalistas que tinha chegado a uma conclusão sobre como operacionalizar estas barreiras à entrada, embora sem dar detalhes. A única garantia foi deixada ontem por Karoline Leavitt, secretária de Imprensa da Administração dos EUA: “o anúncio da tarifa virá amanhã. Elas entrarão em vigor imediatamente. O Presidente tem insistido nisto há já algum tempo”.
Leavitt sinalizou ainda, em conferência de imprensa na Casa Branca, que Trump disse na segunda-feira noite que “tomou uma decisão” sobre o nível de tarifas que imporá nesta quarta-feira.
Segundo os relatos na imprensa norte-americana, o cenário antecipado é de tarifas na casa dos 20% em todas as importações. Considerando uma base importadora de 3,3 biliões de dólares (3,1 biliões de euros), tal ficaria em linha com a estimativa dada pelo conselheiro económico da Casa Branca, Peter Navarro, à Fox News, onde falou numa receita esperada de 600 mil milhões de dólares (555,6 mil milhões de euros) por ano.
Uma tarifa universal de 20% — combinada com retaliação total de outras nações sobre produtos dos EUA — seria o “pior cenário” para a economia dos EUA, alertou já o economista-chefe da Moody’s Analytics, Mark Zandi.
Uma simulação da Moody’s conclui que tal escalada na guerra comercial eliminaria 5,5 milhões de empregos, aumentaria a taxa de desemprego para 7% e faria o PIB dos EUA cair 1,7%. “Se isso acontecer, teremos uma recessão séria. É uma destruição para a economia”, disse Zandi, acrescentando que acha que Trump anunciará um regime tarifário menos extremo para evitar tais danos.
O presidente norte-americano já ameaçou ainda o Canadá e o México com 25% de tarifas em todos os produtos, uma política suspensa dois dias depois do anúncio e até esta quarta-feira, bem como com taxas de 200% sobre bebidas alcoólicas europeias – uma resposta à retaliação anunciada por Bruxelas e, entretanto, adiada. Também os países que comprem gás ou petróleo à Venezuela enfrentarão uma tarifa de 25% a partir de 2 de abril.
A possibilidade de tarifas transversais ganhou força com as declarações do presidente no domingo à noite, quando admitiu preferir começar com barreiras à entrada para “todos os países”.
No entanto, estes detalhes são ainda uma incógnita, com parte dos analistas ainda esperançosos em tarifas direcionadas e limitadas a certos países. Há duas semanas, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, mencionou em entrevista à Fox Business um foco da administração no que apelidou de ‘15 Sujos’, ou seja, os 15% dos parceiros comerciais norte-americanos que impõem tarifas ou barreiras à entrada de bens provenientes do país, embora sem especificar a que países se referia.
Dias mais tarde, o diretor do Conselho Económico Nacional, Kevin Hassett, falou em “10 ou 15 países” responsáveis pelo grosso do défice comercial dos EUA, novamente sem os identificar. Segundo os dados do Departamento do Comércio referentes a 2024, os défices comerciais dos EUA, por ordem de grandeza, registaram-se com a China, UE, México, Vietname, Taiwan, Japão, Coreia do Sul, Canadá, Índia e Tailândia.
Incerteza pior que na Covid-19
Independentemente do seu alcance, as tarifas dos EUA causarão perturbações consideráveis na economia global, dos seus parceiros e na própria. A Goldman Sachs reviu pela segunda vez em baixa o crescimento previsto da maior economia do mundo este ano, cortando de 2,4% para 2,2%, e aumentando a probabilidade de uma recessão nos próximos 12 meses de 20% para 35%.
Ao mesmo tempo, a confiança dos consumidores e empresas está em queda livre, as expectativas de inflação de longo prazo estão em níveis não vistos desde os anos 80 e o mercado laboral começa a dar sinais de fissuras após largos trimestres como o principal ponto positivo na economia americana.
Sectores particularmente visados, como o dos automóveis elétricos, projetam um disparo nos preços nos próximos meses, o que ameaça reduzir o consumo numa altura em que as taxas de juro estão já em terreno restritivo, ao contrário do que sucedeu aquando do primeiro surto inflacionista dos últimos anos, após 2020.
Para a Europa, o cenário é também preocupante. A elevada interdependência dos EUA, sobretudo para economias altamente exportadoras como a alemã, torna o bloco vulnerável a estas políticas protecionistas de Trump, algo que os representantes europeus já reconheceram.
“Temos de considerar a incerteza do ambiente atual, que é ainda maior do que durante a pandemia”, afirmou o vice-presidente do Banco Central Europeu, Luis de Guindos, na passada semana, falando numa falta de vontade “da administração dos EUA em continuar com o multilateralismo”.
Também a presidente da Comissão Europeia se manifestou contra a política de Trump, garantindo que a Europa não vira a cara à luta.
“A Europa não iniciou este confronto. Achamos que é errado”, afirmou von der Leyen ao Parlamento Europeu esta terça-feira, garantindo que o bloco “tem tudo o que precisa para proteger a sua população e prosperidade”.
“Vamos sempre bater-nos pela Europa”, atirou.
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