Distanciamento e teletrabalho obrigam escritórios a mudar

Ordem dos Psicólogos e empresas de recursos humanos defendem cada vez mais o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.

Se a pandemia alterou a noção de vida social e de presença física, restringindo o contacto entre as pessoas quase ao essencial, essa reformulação reflete-se indubitavelmente na organização dos espaços e das metodologias de trabalho.

A alteração já é notória nos restaurantes e lojas que regressaram à atividade e acentuar-se-á quando a economia reabrir por completo e os colaboradores voltarem aos escritórios das empresas. A partir de junho, abre-se um precedente nos ambientes de trabalho, que não passa só pela caixa com máscaras e dispensador de álcool gel à entrada.

A Ordem dos Psicólogos Portugueses caracteriza a “normalidade” do local de trabalho como “miragem”, devido às medidas de contingência que terão de continuar até que haja uma vacina para a Covid-19. “No entanto, após um período de confinamento em que se ajustaram muitos processos de trabalho e muitos colaboradores experimentaram, talvez pela primeira vez, o teletrabalho será de esperar que os níveis de autonomia vivenciados e que as práticas de liderança apoiantes que assim o possibilitam se mantenham ou sejam incrementadas”, diz ao Jornal Económico (JE) Teresa Espassandim, membro da direção da Ordem.

“Desde a reorganização do espaço de trabalho, às reuniões internas e externas, às pausas para café e almoço, à forma como socializamos com colegas, fornecedores, clientes, tudo muda. As empresas impõem regras mais rígidas na limpeza dos espaços, na organização dos postos de trabalho e do estado de saúde dos seus funcionários. Se no pré-Covid-19 era comum trabalharmos com uma ligeira constipação, no pós deixará de ser uma realidade”, realça Vânia Borges, diretora de Recursos Humanos (RH) da Adecco.

A consultora imobiliária JLL tem estado a acompanhar vários clientes em projetos de workplace strategy, tendo em conta que tem tido “muitos interessados” em perceber como é que a massificação do trabalho remoto pode resultar numa abordagem diferente ao funcionamento das empresas e escritórios. “Poderemos, em alguns casos, assistir à tentativa de otimização das áreas de trabalho, apenas possível pela implementação de políticas de teletrabalho e de partilha de secretárias”, diz Caetano de Bragança, responsável por esta área em Portugal. O executivo defende a maior utilização de espaços de coworking, cafés, esplanadas, bibliotecas, jardins ou mesmo escritórios de outras empresas, numa ótica de economia partilhada. “Os escritórios terão que ser vistos como ferramentas que criam contextos potenciadores da cultura das empresas, espaços humanizantes virados para a colaboração, sociabilização, bem-estar físico e emocional, para ‘vermos e sermos vistos’. Isto porque as pessoas não precisarão de ir ao escritório diariamente para estarem a trabalhar”, argumenta.

E mais: transformam a casa em escritórios de consultoras, redações ou escolas. A Ikea Portugal confirma que verificou um aumento na procura de artigos/itens de arrumação, organização e mobiliário de escritório desde o início de março. “As cadeiras de escritório são um bom exemplo disso. Todos temos uma cadeira que utilizamos para nos sentarmos à secretária, mas a diferença é que, para trabalharmos tantas horas sentados, é essencial ter uma cadeira confortável e que nos ajude a manter uma postura correta ao longo do dia. As pessoas começaram a perceber isso com o passar do tempo em quarentena, o que se refletiu naturalmente na procura deste tipo de soluções”, afirma Cláudio Valente, gestor de Pessoas e Cultura da retalhista. “Se esta crise pandémica que estamos a viver nos veio ensinar algo foi que a nossa casa é o lugar mais importante do mundo”, garante. A empresa sueca mostra-se adepta do home office, mas alerta para a necessidade de união e troca de experiências presenciais.

Tendo presente que as tecnologia e as plataformas de colaboração vieram para ficar, também os psicólogos advertem que estas ferramentas não podem ser utilizadas para controlar os funcionários, nem como estratégia para exigir mais do que aquilo que são capazes. A diretora de RH da empresa de recrutamento Kelly Services concorda: “Há uma linha muito fina, que é muito fácil de transpor, e que pode comprometer a qualidade de vida quando temos o trabalho literalmente nas nossas mãos e somos tomados por pensamentos supostamente inocentes, como ‘respondo só a mais este email’”. Vanda Brito admite que ainda é cedo para perceber em concreto as consequências a longo prazo que esta situação teve, porém considera que “as hierarquias estão mais diluídas” e os grupos de trabalho assumiram particular importância, tornando-se mais “decisivos na tomada de decisão que também ela tem que ser rápida e certeira”.

A tecnológica HPE (Hewlett Packard Enterprise) foi uma das empresas que apresentou recentemente uma solução para trabalho remoto, neste caso uma as-a-service de infraestrutura de desktop virtual. João Moro, porta-voz em Portugal, refere que tiveram de responder tanto a pedidos de PME como de multinacionais, do ramo financeiro, comércio, indústria e serviços e aproveita para lançar um conselho aos gestores: “Para obter qualidade e eficiência superiores, as empresas têm obviamente de garantir as condições tecnológicas adequadas para as diferentes funções dos seus colaboradores e fazer o acompanhamento necessário, que pode incluir formação e assistência técnica”.

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