E depois da Covid-19? “Problema da Grande Depressão foi o ‘default’ das dívidas”

Em entrevista ao JE, Virgílio Garcia, CEO da gestora de ativos Sixty Degrees, e Nuno Sousa Pereira, head of investment, explicam como olham para as lições do passado para minimizar o impacto da crise causada pelo novo coronavírus.

Nuno Sousa Pereira, head of investments da Sixty Degrees
Nuno Sousa Pereira, head of investments da Sixty Degrees

A gestora de ativos portuguesa, Sixty Degrees, conseguiu minimizar as perdas no primeiro trimestre do ano, numa altura em que a economia mundial foi abalada pela queda abrupta da atividade económica por causa da Covid-19.

O fundo que gere, Sixty Degrees PPR/OICVM Flexível, vale após o trimestre cerca de cinco milhões de euros, tendo desvalorizado 0,68% ao longo dos primeiros trimestre do ano. Apesar da queda ligeira, o fundo comparou bem com outros fundos.

“Houve fundos defensivos com perdas de 5% e fundos agressivos que perderam 20%. Portanto achámos que conseguimos defender o património dos nossos clientes. Fizemos uso da flexibilidade, que é uma das características do nosso fundo”, referiu Nuno Nuno Sousa Pereira, head of investment da Sixty Degrees, que foi fundada no ano passado por antigos quadros do BPI.

Para navegar no clima de incerteza – porque ainda não se sabe ao certo a profundidade dos impactos económicos da Covid-19 – a Sixty Degrees olha para “experiências históricas de grandes paralizações da economia com as quais podemos fazer algum paralelismo, como a Grande Depressão de 1929”, adiantou Nuno Sousa Pereira.

“O grande problema de 1929 não foi a grande queda do mercado acionista, que só se agravou em 1931, ano em que houve os defaults da dívida europeia. Só quando o mercado percebeu que iriam começar a haver incumprimentos é que começou a vender tudo. O mercado vendeu dívida e vendeu as ações, que causaram a queda. A Grande Depressão foi vincada por causa dos problemas de dívida”, vincou Virgílio Garcia, CEO da Sixty Degrees.

A crise da Covid-19 vai deixar marcas profundas na estrutura da economia, antecipa Nuno Sousa Pereira. “Há setores que vão mudar estruturalmente depois da crise. Uns sairão como vencedores, outros como perdedores. E, na nossa perspectiva, o setor do turismo será dos últimos a recuperar, porque as as pessoas vão ter algum receio de viajar até haver uma vacina, o que é dramático para uma parte do PIB português”, alertou.

Neste contexto, as empresas que vão sobressair serão aquelas que garantirem rapidamente acesso a mais capital, que “não vai estar disponível para todos”, adiantou o head of investment da Sixty Degrees. “Os bancos centrais disponibilizaram capital até ao ‘infinito’, mas é dívida, não é capital”.

As empresas terão “uma grande preocupação com a saúde dos balanços das empresas e com a produção de cash flow“, antecipou Nuno Sousa Pereira. Neste sentido, considerou que as medidas anunciadas pelo governos foram “boas” porque vão manter “as empresas vivas durante três ou seis meses”. Mas, alertou novamente: são medidas que “vão endividar as empresas”. “Por isso vai ser necessário voltar a restabelecer a estrutura de capital das empresas com mais capital, que pode vir da geração de resultados se a crise for rápida, ou terá de haver uma recapitalização das empresas”.

Atualmente, o fundo da Sixty Degrees gere o património de 27 clientes que têm um mínimo de subscrição de cem mil euros. O portefólio é composto por uma exposição de 40% a ações, embora contenha derivados que anulam esta exposição. O fundo também está exposto em 2,5% às obrigações do Tesouro norte-americano e tem uma exposição de cerca de 45% a treasuries de curto prazo, até dois anos.

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