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Eça e a “recusa da visão dourada” do Governo. Como viram os partidos a mensagem de Ano Novo de Marcelo?

PS viu na mensagem de Marcelo uma recusa da “visão dourada que o Governo procura vender” e do “logro que constitui os que se apresentam como salvadores de ocasião”. PSD e CDS elogiaram o Presidente da República, classificando-o como um “farol de responsabilidade e tranquilidade” ao longo da última década. Já André Ventura assinalou que os “portugueses não precisam de um Presidente que faça diagnósticos” mas que “aja” e chame à atenção dos envolvidos nas tais “trapalhadas” que citou.
2 Janeiro 2026, 14h56

Na última mensagem de Ano Novo enquanto Presidente da República, Marcelo, além dos desejos de mais saúde, educação, habitação, justiça, crescimento, coesão nacional (…), Marcelo escolheu citar um texto de Eça de Queirós com 125 anos que, num lençol de adjetivações feito pelo escritor, retrata Portugal como um país de  “fraqueza”, de “doçura”, de “imensa bondade” e de “generosidade”, mas também de “desleixo” e “constante trapalhada nos negócios”. Como reagiram os partidos políticos às palavras de Marcelo? Direita e esquerda concordaram em discordar; uns elogiaram – o PSD e o CDS – , outros criticaram, mesmo à direita.

Pelos social-democratas, a vice-presidente Leonor Beleza assinalou que faz sentido dar a Marcelo “uma palavra intensa de reconhecimento e orgulho pela forma como tem vindo a servir Portugal” e admitiu que o PSD se identifica com os desafios que mencionou na mensagem – mais saúde, educação, habitação, justiça, tolerância e concordância em Portugal, mais emprego e menos pobreza.

“O PSD sente-se muito motivado em contribuir para que os problemas que os portugueses sentem sejam ultrapassados e sejam ultrapassados pelas capacidades que manifestamente os portugueses têm e podem mobilizar para ultrapassar essas dificuldades todas”, disse Leonor Beleza, numa declaração na sede do PSD, transmitida pelas televisões.

Já Durval Ferreira, vice-presidente e porta-voz do CDS, recordou as dificuldades da presidência de Marcelo, da pandemia de covid-19 à guerra na Ucrânia, e elogiou o seu sentido de responsabilidade. O centrista disse “reconhecer que, nos momentos particulares e mais difíceis [do seu mandato], foi um farol de responsabilidade e tranquilidade” e que ajudou “a unir e a ultrapassar momentos difíceis”.

André Ventura, presidente do Chega e candidato à sucessão em Belém, apontou “o que faltou” no discurso de Marcelo Rebelo de Sousa foi “praticamente” o que faltou ao Presidente durante o seu mandato: “capacidade de intervenção e de ação política”. “Os portugueses não precisam de um Presidente que faça diagnósticos; precisam de um Presidente que aja, que tome decisões, que chame à responsabilidade quando tem que chamar à responsabilidade, que seja capaz de apontar, como fez Marcelo hoje, mas também de chamar a atenção das entidades e dos protagonistas concretos quando metidos nas tais trapalhadas a que se refere”, comentou Ventura.

Mário Amorim Lopes, líder parlamentar da Iniciativa Liberal (IL), defendeu, por sua vez, que se Marcelo pretendia deixar uma mensagem de futuro ao socorrer-se de um texto de Eça de Queirós, “então talvez devesse ter citado o Conde d’Abranhos”, obra póstuma do escritor que usa a sátira e a ironia para descrever a classe política oitocentista. “É que de políticos oportunistas que usam a política para se servirem já está o país muito bem servido, não precisamos de mais”, disse o deputado liberal.

À esquerda, o Partido Socialista (PS) destacou que Marcelo “recusou a visão dourada” que o Governo procura vender. “Ainda que de forma subliminar, ou por interposta autoria, deixou uma mensagem clara no sentido da recusa do inconformismo, que é como quem diz: da recusa de um país dourado que o Governo procura vender”. Ao mesmo tempo, “da recusa do logro, que constitui os que se apresentam como salvadores de ocasião, que é como quem diz, dos radicalismos extremistas que encontramos na sociedade partidária portuguesa”, analisou Carlos César, presidente do PS.

Na mesma linha, a co-portavoz do Livre, Isabel Mendes Lopes, evidenciou o “contraponto” da mensagem de Marcelo em relação ao posicionamento que o primeiro-ministro, Luís Montenegro, tem assumido, ao acentuar a “mentalidade Cristiano Ronaldo, muito mais focada na competição” e “nalgum individualismo e messianismo”.

“Marcelo Rebelo de Sousa focou-se nas qualidades dos portugueses em conjunto – os portugueses têm muito mais qualidades do que defeitos – e na construção daquilo que conseguimos atingir em conjunto nos últimos anos”, salientou a deputada.

Já o PCP considerou insuficientes as palavras de Marcelo. Os comunistas defendem que é necessário uma mudança nas políticas. “Toda essa boa vontade tem de ter expressão real, prática, e isso implica uma mudança profunda no rumo em que o país está a ser levado, um rumo que não interessa aos trabalhadores, ao povo e ao país, e que necessita ser mudado”, disse Pedro Guerreiro, dirigente do PCP.

O Bloco de Esquerda, por seu turno, entende que o Presidente “perdeu uma oportunidade” de destacar as preocupações atuais dos portugueses, como a saúde e a habitação. “Cremos que foi uma oportunidade perdida de acentuar aquelas que são as grandes preocupações que a generalidade dos portugueses sente: o custo de vida, a saúde e a habitação”, observou Miguel Cardina.

Inês Sousa Real, deputada única do PAN, realçou que “não foi inocente” o Presidente ter escolhido citar um texto de Eça de 125 anos. “Basta ver a alusão que faz às trapalhadas negociais, ou até mesmo à mentira, para perceber que, apesar de aparentemente calmo, no discurso de Marcelo há claramente uma preocupação com aquilo que é o futuro do país, quer relativamente à escolha das Presidenciais, quer relativamente ao atual Governo”.

Abaixo, a passagem de Eça citada por Marcelo no final da mensagem de Ano Novo, e que retrata Portugal e os portugueses, tanto há 125 anos, como ainda hoje.

“A franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade. Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua ideia… A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris. A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito pratico, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar… A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre d’Ourique, que sanará todas as dificuldades… A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo… Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda e o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa… Até aquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre.”

 


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