Energias renováveis ligam economias africanas à ficha

Num continente onde mais de 570 milhões não têm acesso à eletricidade, a geração de energia solar e eólica representa oportunidades de negócio, possibilidade de melhoria de vida e promessa de um futuro sustentável.

Mais de 570 milhões de pessoas não têm acesso à eletricidade na África subsaariana. A saída para virar essa chave pode estar na natureza. Ou até no telemóvel. Até 2050, a Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA) estima que 85% do fornecimento do planeta virá de fontes limpas. A África tem condições geográficas favoráveis à exploração de energia solar fotovoltaica e eólica, tanto para abastecimento interno quanto para exportação. Investimentos robustos no setor e projetos inovadores espalham-se pelo continente. Em países como Marrocos, Quénia, Angola e Cabo Verde a evolução rumo a uma economia menos dependente dos combustíveis fósseis vai de vento – e sol – em popa.

Para atingir a meta de 52% de participação de energias renováveis até 2030, Marrocos está a realizar projetos de grande envergadura. Bons exemplos são o parque eólico de Tarfaya, um dos maiores de África, e o complexo de energia solar Noor-Ouarzazate, o maior do mundo, com 500 MW de capacidade instalada, o suficiente para as necessidades de uma cidade com um milhão de habitantes. A aposta é crucial para Marrocos, que não produz gás nem petróleo e importa 95% de sua energia. Entre 2008 e 2018, a participação das fontes renováveis na matriz marroquina saltou de 2% para 38%. O país já ocupa o quinto lugar no Índice de Desempenho das Alterações Climáticas de 2019, só atrás da Suécia, na quarta posição (nenhum país atingiu as metas estabelecidas para os três primeiros lugares).

A energia também é um tema central nas relações com Portugal, por efeito do projeto de interligação elétrica. Em fase final de estudos de viabilidade, a obra exigirá recursos da ordem de 700 milhões de euros e vai permitir a importação e exportação de eletricidade, sobretudo de origem renovável, a um custo mais baixo.

Outro país na dianteira de projetos de grande porte no setor é Quénia, que já tem 70% da sua energia proveniente de fontes renováveis, mais de três vezes a média global. Apesar disso, um em cada quatro quenianos não tem acesso à eletricidade. Em julho, o país inaugurou o maior parque eólico de África, resultado de um investimento de 632 milhões de euros. As 365 turbinas à beira do lago Turkana têm capacidade instalada de 310 MW e vão produzir 17% da energia do país. O presidente Uhuru Kenyatta quer transformar o Quénia num líder global em energia limpa e chegar a 100% de participação das energias renováveis já em 2020.

Com investimento de mais de 160 milhões de euros do grupo espanhol V&V Rending arranca em janeiro a construção do primeiro parque eólico de Angola. Com capacidade de geração de 104 MW/H, será instalado na província de Malanje. O projeto no país é de longo prazo e prevê a construção de outros dois parques eólicos, que devem beneficiar 2,8 milhões de pessoas. Segundo o Ministério da Energia e Águas, a energia produzida hoje em Angola é distribuída para apenas 40% da população. “O acender e apagar de lâmpadas em minha casa marcou a minha infância e sei da importância de participar de um projeto que estabelece um novo conceito de vida para muitas famílias”, diz João Nelson, administrador da V&V Rending em Angola, ao África Capital.

Recentemente, o coordenador dos fundos de energias renováveis do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), João Sarmento Cunha, referiu que o acesso universal à eletricidade até 2030 – um dos objetivos de Desenvolvimento Sustentável definidos pela ONU – é um foco estratégico do banco e exige uma mobilização de recursos em África da ordem de 54 a 81 mil milhões de euros por ano. O investimento nas fontes eólica e solar, o financiamento de projetos de pequena e média escala e a criação de negócios inovadores, devem ser as principais estratégias.

O tema está no radar da EDP, que lançou a segunda fase do programa A2E – Access to Energy, que prevê investimento de 12 milhões de euros até 2020 na aquisição de empresas em países emergentes com soluções sustentáveis de acesso à energia. Através do programa, a EDP adquiriu em 2018 uma participação minoritária na SolarWorks!, empresa de energia solar com operação em Moçambique e Maláui. No mesmo ano, lançou o Fundo A2E, que apoiou projetos de energia limpa em Moçambique, Quénia, Tanzânia e Maláui. A segunda edição do Fundo A2E vai destinar 500 mil euros a projetos na Nigéria. De acordo com a fonte oficial da EDP, é “essencial que os quadros regulatórios nos países africanos sejam revistos no sentido de permitir investimentos em grande escala e sustentáveis”.

 

Arquipélago de possibilidades
Em Cabo Verde, o Plano Diretor do Sector Elétrico 2018-2040 propõe atingir 30% de produção de energia a partir de fontes renováveis até 2025, conforme o compromisso assumido na Conferência das Partes de Paris (COP21). Essa fasquia será elevada para 50% em 2030. A taxa de penetração dessas energias no arquipélago já é uma das mais altas da África Subsaariana, com cerca de 20%. Embora a energia eólica corresponda à maior parte do total (19%), a solar fotovoltaica está a ganhar espaço, tendo em conta a redução dos preços desta tecnologia e os baixos custos de manutenção.

A Cabeólica tem quatro parques eólicos em funcionamento: nas ilhas de Santiago, São Vicente, Sal e Boa Vista. Trata-se do maior projeto de energias renováveis jamais implementado no país e o primeiro projeto eólico de grande escala na região da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). O administrador da empresa, Antão Fortes, destaca a estabilidade política, o ambiente legal e regulatório favorável e a política de sustentabilidade como “fatores que transmitem confiança ao investidor”. Para este gestor, entretanto, a maior dificuldade em termos de investimento prende-se com a escala reduzida do mercado, com pouca procura de eletricidade em cada ilha. A aposta nas energias renováveis em Cabo Verde recebeu um novo impulso desde que o Governo anunciou que pretende ter 100% de carros elétricos em circulação no país até 2050. l *com Ana Siniley (Angola) e Daniel Almeida (Cabo Verde).

Ler mais
Recomendadas

Cabo Verde quer ser “plataforma de prestação de serviços” no Atlântico

Num encontro com empresários na embaixada de Cabo Verde em Paris, o ministro dos Negócios Estrangeiros cabo-verdiano afirmou querer mais investimento francês e transformar o país numa “grande plataforma de prestação de serviços no Atlântico”.

Putin atrás do tempo perdido

Rússia quer recuperar terreno à China, Estados Unidos e União Europeia, potenciando exportações e interesses no petróleo, minas ou armamento.

Guiné-Bissau tem luz (ténue) ao fundo do túnel

Presidenciais deste domingo podem ser momento de viragem, embora tudo deva ficar dependente de uma segunda volta com protagonistas incertos.
Comentários