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Falta de mão de obra é o reverso da medalha do pleno emprego

Oito em cada dez empresários falam em falta de mão de obra e, com o país em pleno emprego, fundos para executar e mexidas na imigração, a tendência é de agravamento.
16 Janeiro 2026, 06h35

Portugal registou recentemente máximos históricos de emprego e a taxa de desemprego mais baixa em 23 anos, um cenário que ilustra bem a vitalidade do mercado de trabalho no país. Apesar dos efeitos positivos na economia, a perspetiva de crescimento sustentado nos próximos trimestres coloca uma questão: com já constrangimentos evidentes e prolongados na captação de mão de obra , sobretudo qualificada, como irá a economia nacional conseguir continuar a expandir a sua força de trabalho, sobretudo com menos imigração? Para oito em cada dez empresários, esta é uma limitação significativa, aponta a Associação Empresarial de Portugal (AEP).

Os dados divulgados na semana passada são claros: Portugal vive atualmente próximo do pleno emprego, com um máximo histórico de 65,8% em novembro, o que se traduz numa população empregada de 5.306,1 milhares de pessoas. Comparando com igual período do ano passado, o indicador cresceu em 195,8 mil pessoas, ou 3,8%.

Na mesma linha, a taxa de desemprego naquele mês foi a mais baixa em 23 anos, com 5,7%, ou seja, 318,8 mil pessoas. São menos nove mil do que no mês anterior e 41,1 mil do que em novembro de 2024, o que corresponde a uma queda de 0,9 pontos percentuais (pp). Também a taxa de atividade subiu, neste caso 0,1 pp em cadeia para 69,7%, ao passo que a taxa de subutilização do trabalho caiu de 10% em outubro para 9,8%. No que respeita a este primeiro indicador, a variação homóloga mostra uma queda de 0,2 pp, embora a leitura de novembro deste ano compare com o máximo histórico da série. Já a subutilização do trabalho atingiu o valor mais baixo desde fevereiro de 2011, faz saber o comunicado do INE.

Em entrevista recente ao JE, o presidente do Banco de Fomento apontou precisamente esta dificuldade. “Precisamos ter um país com mais pessoas”, atirou Gonçalo Regalado. “Falta gente para trabalhar, estamos praticamente em pleno emprego”.

Luís Miguel Ribeiro, presidente do conselho de administração da AEP, reconhece que estes números refletem “uma melhoria da economia portuguesa”, mas ressalva que “as empresas estão a ver o seu crescimento limitado pela falta de mão de obra , sendo sem dúvida um dos seus principais desafios”. Em concreto, “oito em cada dez empresários consideram a dificuldade de contratação de mão de obra um fator que impacta a sua atividade de forma muito significativa ou significativa”.

“A população residente em Portugal tem aumentado, porém, o índice de renovação da sua população ativa encontra-se há mais de 10 anos abaixo dos 80%”, refere, sendo que “o crescimento populacional registado no país tem sido suportado em exclusivo por um saldo migratório positivo, e não por um crescimento natural”. A juntar a isto, “o novo Plano de Ação para a Migração pode alterar estas tendências demográficas, principalmente no que se refere à imigração, afetando a taxa de crescimento efetivo e a disponibilidade de mão de obra no mercado de trabalho português”.

De facto, os dados do INE comprovam este panorama. A população ativa tem crescido sustentadamente acima da população efetiva portuguesa, sendo que esta última tem aumentado apenas devido ao saldo migratório, que tem compensado o saldo natural sistematicamente negativo. Numa situação de emprego elevado e taxa de desemprego baixa, este é um sinal evidente da rigidez no mercado laboral.

Ainda assim, Armindo Monteiro, presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, relembra que a maior parte da imigração que tem chegado ao país é de baixas qualificações, pelo que não poderão suprir a falta de trabalhadores nos setores mais exigentes. A juntar a isto, “a produtividade não tem subido” apesar da pressão nos salários, tornando a economia menos competitiva.

À cabeça, setores tecnologicamente mais intensivos e os serviços com maior valor acrescentado sofrem com esta falta de especialização, por um lado, enquanto a construção deverá ver um aprofundamento das dificuldades que tem vivido ultimamente, sobretudo dada a necessidade de executar fundos europeus, apontam as associações empresariais.

Por outro lado, o economista e professor universitário João Cerejeira recorda que “as empresas mais produtivas são aquelas que poderão pagar salários mais elevados”, o que pode acabar por ter um efeito positivo na produtividade média do país. “Os recursos humanos são alocados às empresas e atividades onde são mais produtivos e essa deslocação do fator trabalho faz aumentar a produtividade média”, explica. Contudo, e apesar da falta de dados para o mercado nacional, esta mobilidade é condicionada por dois fatores principais: o preço da habitação, “que limita a mobilidade geográfica”, e os transportes.

“Temos mais um milhão de trabalhadores face há dois anos, mas o setor dos transportes não aumentou na mesma proporção”, lembra.

Urge captar talento
Perante este cenário, as medidas de política pública devem concentrar-se na captação de talento e uma das vias principais é a vertente fiscal. Armindo Monteiro aponta às taxas elevadas que se registam em pat maresde rendimento comparativamente mais baixos do que a maioria dos países europeus, defendendo que tal retira atratividade à economia.

“Neste momento, as sucursais de multinacionais em Portugal não são atrativas porque, para o mesmo salário bruto, [os trabalhadores] vão receber menos líquido”, relembra. Dada a necessidade de mão de obra qualificada, tipicamente mais remunerada, isto torna ainda mais difícil captar recursos especializados.

Luís Miguel Ribeiro converge nesta avaliação, classificando a questão fiscal como “absolutamente crítica”. “Portugal está entre os países da OCDE que mais tributa os custos sobre o trabalho e onde a progressividade do IRS é das mais elevadas, reduzindo drasticamente o rendimento líquido disponível aos trabalhadores, que fica muito aquém da remuneração bruta praticada pelas empresas”, afirma, lembrando também o ‘empurrão’ para fora do país que esta realidade dá a muitos jovens.

A juntar a isto, a AEP sublinha a importância do investimento na formação dos trabalhadores, sobretudo num contexto de rápidas alterações à forma de trabalhar e elevada inovação tecnológica. A associação destaca “que, segundo o relatório Future of Jobs do World Economic Forum, por cada 100 pessoas, apenas 41 não precisarão de requalificação até 2030, enquanto as restantes 59 precisarão de algum tipo de requalificação ou atualização de competências”, e “segundo o mesmo relatório, Portugal é um dos países que mais irá sofrer com a disrupção no mercado de trabalho, o que exigirá uma pressão significativa para a requalificação das pessoas”.


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