Faria de Oliveira critica geringonça: “Não são projectos políticos, são acordos de conveniência”

Faria de Oliveira foi mais longe e disse mesmo que "soluções governativas que não são projectos políticos, mas acordos de conveniência não têm consistência e comportam sérios riscos para o futuro, pois adiam o futuro".

Cristina Bernardo

Fernando Faria de Oliveira falava no almoço do International Club of Portugal, criticando o actual ambiente político onde fruto da crise económica e financeira, “nasceu uma onda populista à esquerda e à direita” propagada pelas redes sociais.

“Os impactos da crise financeira global, acrescidos dos relacionados com os da globalização e dos resultantes dos programas de austeridade que tiveram de ser adotados em alguns países, trouxeram ao de cima um nível de descontentamento e de preocupações com reflexos imediatos a nível político”, referiu o atual presidente da Associação Portuguesa de Bancos.

“Os próprios partidos clássicos começaram a enveredar por derivas populistas, por oportunismo eleitoralista ou incapacidade de argumentação”, disse o presidente da APB, que acusa os partidos de relegar para segundo plano a ideologia, em detrimento do pragmatismo.

“Neste ambiente político, de difícil criação de maiorias, quando não existe uma cultura de compromisso, é muito difícil gerar soluções políticas estáveis e proporcionar o enquadramento necessário ao crescimento económico sustentado e ao progresso social. E isso é ainda mais complexo quando, em acordos governativos, com vista à obtenção de uma maioria parlamentar, estão partidos que não acreditam ou rejeitam a economia de mercado”, disse Faria de Oliveira, numa clara alusão ao atual acordo parlamentar que sustenta o Governo minoritário do PS.

Faria de Oliveira foi mais longe e disse mesmo que “soluções governativas que não são projectos políticos, mas acordos de conveniência não têm consistência e comportam sérios riscos para o futuro, pois adiam o futuro”.

“Podem até resolver questões de curto prazo, atender a necessidade obter resultados, mas em geral protelam a resolução de questões de fundo, raramente incluem reformas estruturais (quando não acabam mesmo por reverter algumas) e assim, não asseguram a sustentabilidade do crescimento económico”, disse Faria de Oliveira que se assume como apologista de Tony Blair. “A resposta que naturalmente entendo como preferível deve ser dada pelos partidos do centro político”, defende Faria de Oliveira.

“Estes [partidos de centros] compreendem partidos conservadores, democratas cristãos, liberais, sociais democratas de esquerda ou do centro”, diz o orador. Mas apontando que estes vêm, no entanto, “revelando em muitos países incapacidade de responder eficazmente ao atual contexto. Estes partidos não têm sido capazes de ser catalisadores
da mudança e impulsionadores de projetos políticos convincentes e mobilizadores”. “A revitalização dos programas e propostas destes partidos é urgente”, acrescenta.

Faria de Oliveira defende que os partidos devem distinguir-se pela “apresentação clara dos modelos de sociedade que defendem, pelo papel que atribuem à sociedade civil e à livre iniciativa como motores do progresso; devem diferenciar-se pelas propostas que produzem para aumentar a criação de riqueza e para a otimização da sua redistribuição entre todos; e também pelo Estado que se deve e pode ter, pelas políticas macroeconómicas e de transformação do sector público que preconizam, com particular ênfase nas funções sociais”.

“Têm ainda de apresentar ideias e propor soluções que vão de encontro às grandes questões sociais, como a demografia, o apoio à família e à natalidade e a sustentabilidade da segurança social e do ambiente”, defendeu acrescentando que “devem promover uma pedagogia ativa junto dos eleitores e ajustar a sua agenda às necessidades e aspirações dos cidadãos”.

No início do seu discurso Faria de Oliveira defendeu a conjugação da democracia liberal com a economia de mercado.

“Na história do último século, a experiência empírica demonstra que, da conjugação da democracia liberal, no campo político, com da economia de mercado, na esfera económica, resultaram sociedades mais ricas, dinâmicas, inovadoras e progressivas em todos os continentes”, disse

“Infelizmente, ainda com imperfeições gritantes no que diz respeito à redistribuição por todos da riqueza criada”, admitiu acrescentando que “uma percentagem significativa das populações sentiu ou ainda sente uma diminuição ou estagnação muito prolongada do seu rendimento, depois dos anos antecedentes de progresso notório. Muitos cidadãos temem
ainda risco de desemprego”, referiu.

Faria de Oliveira salientou que o sistema partidário na Europa surge cada vez mais fragmentado, “dificultando a governabilidade das nações”.

“Há uma mudança estrutural, o voto vai-se dispersando entre partidos tradicionais e os partidos de contestação, de protesto ou defensores de causas, onde emerge o populismo e pouco releva o grau de responsabilidade e as consequências do que se propõe e afirma”, disse o presidente da APB que alertou para o facto de o populismo ser perigoso, “porque se baseia em emoções, é impaciente nas reivindicações e não olha aos impactos, hipotecando o futuro. O populismo é ainda perigoso porque em geral é acompanhado por tentações de modelos autoritários de liderança”, disse.

Fernando Faria de Oliveira traçou a estratégia política que considera melhor para o país: “A formação de governos deve privilegiar soluções estáveis com projetos políticos consistentes com os modelos políticos e económicos apresentados a escrutínio eleitoral. Por outro lado, insisto, torna-se cada vez mais importante desenvolver uma cultura de compromissos”, disse rematando com uma frase de Raymond Aron: “A democracia é obra comum de partidos rivais”.

Sobre Donald Trump, Faria de Oliveira recusou a ideia de se tratar de um político imprevisível e sem estratégia para o país. “Donald Trump não será um político estruturado, aparenta ser imprevisível, arrogante e provocador. Mas seria cândido e não é sensato pensar que não tenha uma visão e um programa político”, diz Faria de Oliveira que faz suas as palavras de Henry Kissinger: “Penso que Trump pode ser uma dessas figuras na história que aparece de tempos a tempos para marcar o fim de uma era e forçá-la a desistir das suas antigas pretensões”.

(atualizada)