Forte crescimento das exportações de componentes pode não ser sustentável

O paradigma da indústria automóvel está a mudar, com fortes pressões dos legisladores para que a pegada ecológica do setor seja fortemente cortada. O 9º encontro do setor dá disso conta.

HO/Reuters

A fileira da indústria automóvel centralizada na Associação dos Fabricantes da Indústria Automóvel (AFIA) organiza esta quarta-feira o 9º Encontro da Indústria Automóvel (em Ílhavo), subordinada ao tema ‘Crescimento na Mudança’, num quadro em que o paradigma do setor está em crescente alteração.

“O sector de componentes para a indústria automóvel continua a demonstrar um sólido desempenho traduzido num aumento de 7% de exportações quando comparados os valores acumulados de Outubro de 2018 versus 2017. Este é um sinal de vitalidade que reflete a tendência de anos anteriores de aumento de penetração dos componentes produzidos em Portugal, já que o mercado automóvel europeu, principal destino das exportações portuguesas, irá crescer perto de 2%” refere a AFIA.

Mas, “apesar desta vitalidade demonstrada pelo sector há motivos de preocupação”. Depois da crise de 2009, o sector de componentes tem vindo a crescer as suas vendas a um ritmo anual que tem variado entre os 5% e os 10%, com reflexo direto no crescimento das exportações do sector.

Esta evolução “muito positiva” deveu-se a vários fatores conjugados: retoma, moderada mas sustentada, da produção de automóveis na Europa; Espanha, principal cliente da indústria de componentes portuguesa, foi dos mercados com maior crescimento; a indústria ganhou posições na Grã-Bretanha, aproveitando a revitalização da produção automóvel; com exceção da América do Sul, crescimento forte e sustentado da produção de automóveis no resto do mundo, que no total representam 8% do destino das nossas exportações; a partir de 2017, novos modelos lançados nas duas principais fábricas de automóveis portuguesas, com volumes de produção recorde.

A associação revela, por outro lado, que “estes fatores que levaram ao crescimento do nosso mercado terão nos próximos anos uma evolução previsivelmente menos positiva”. E elenca os sinais de preocupação: a produção de automóveis em Portugal e em Espanha estará a atingir um pico e a partir de 2019 dificilmente continuará a crescer, a não ser através da eventual instalação de um novo construtor automóvel, o que é apenas uma possibilidade longínqua: o mercado europeu está a retrair-se, em 2018 produzir-se-ão na Europa menos carros do que em 2017; o Brexit poderá travar as nossas exportações para o Reino Unido, o quarto maior mercado das nossas exportações, e com forte probabilidade provocará alguma retração do mercado: o protecionismo comercial crescente por parte dos EUA irá reduzir as exportações europeias para esse destino e poderá ser copiado por outros países, levando a barreiras tarifárias que reduzirão o comércio internacional.

Mas há ainda outros sintomas a considerar: as regulamentações de combate às emissões de: CO2, Dióxido de Nitrogénio e partículas, estão a colocar exigências e desafios difíceis de superar: a pressão para electrificação traz desafios acrescidos para as motorizações tradicionais; as novas tendências da mobilidade irão trazer uma redução do número de carros em circulação.

“Todos estes fatores, quer cada um individualmente, quer no seu conjunto, estão a alterar significativamente a envolvente em que operam os fabricantes de componentes para a indústria automóvel, concluiu a AFIA.

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