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G20: ministros das Finanças do G20 debatem tensões comerciais globais

Reunião na África do Sul volta a não contar com um representante dos Estados Unidos ao nível de secretário-geral. Agenda do encontro dá prioridade à tensão que se vive atualmente em torno das movimentações comerciais globais.
26 Fevereiro 2025, 07h00

O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, abrirá esta quarta-feira a primeira reunião dos ministros das Finanças e governadores dos bancos centrais do Grupo dos 20 (G20) sob a presidência da África do Sul, na Cidade do Cabo – num contexto que caraterizou como de fortes tensões comerciais globais. Tão fortes que, como sucedeu na semana passada, o encontro voltará a ser boicotado pelos Estados Unidos: o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, não compareceu ao encontro de ministros dos Negócios Estrangeiros e, desta vez, será o secretário do Tesouro, Scott Bessent, a deixar o seu lugar vazio neste encontro dos ministros das Finanças.

O governador do banco central da África do Sul, Lesetja Kganyago, disse esta semana, citado pela agência Reuters, que as condições comerciais incertas e as novas tarifas retaliatórias à entrada de mercadorias nos Estados Unidos podem ter um impacto fortemente negativo no seu país, ao endurecer as condições globais de financiamento e afetar as exportações. E que estas condições são, evidentemente, as mesmas para todos os países. De qualquer modo, Kganyago e Ramaphosa não terão oportunidade de confrontar Bessent com este quadro global, dado que a administração Trump parece ter aceitado a ideia veiculada por um dos seus membros, Elon Musk, segundo a qual a África do Sul, de onde é aliás oriundo, vive sob um regime de racismo contra a comunidade branca – o que, com certeza, ajuda a que os norte-americanos não tenham nenhum incentivo a viajar para a África Austral.

Outra baixa de vulto é a do ministro das Finanças do Japão, Katsunobu Kato (que até há pouco era ministro da Saúde), ‘preso’ no seu país porque tem em cima da mesa o debate sobre o Orçamento do Estado.

A incerteza patrocinada por algumas das medidas comerciais tomadas pelas principais economias terá como consequência imediata, disse ainda Kganyago, “uma economia global em desaceleração e um perfil de inflação crescente ao mesmo tempo”. Os problemas na África do Sul não são apenas externos: tal como o Japão, o ministro das Finanças, Enoch Godongwana, não conseguiu ainda aprovar o Orçamento para o ano em curso, depois de um desentendimento parlamentar por causa de uma proposta de aumento do IVA.

A reunião de ministros das Finanças e governadores de bancos centrais do G20 é organizada por Enoch Godongwana e por Lesetja Kganyago, sob o tema da Presidência do G20, atribuído rotativamente à África do Sul: ‘Solidariedade, Igualdade e Sustentabilidade’. Esta primeira reunião dos detentores da pasta das Finanças concentrar-se-á, segundo nota oficial da organização, nas áreas da economia global, dívida, infraestrutura, conjuntura financeira e saúde, tributação internacional, setor financeiro e finanças sustentáveis.

A reunião dos ministros das Finanças foi precedida pela 2ª reunião dos secretários de Estado das Finanças e do banco central, que ocorreu nestes dois últimos dias. A reunião na Cidade do Cabo é uma de uma série de 23 reuniões ministeriais e de cerca de 130 grupos de trabalho que ocorrerão ao longo de 2025. A presidência acabará, como sucede sempre, com a Cimeira de Líderes do G20, em novembro deste ano.

De qualquer modo, o governo da África do Sul tem tentado desdramatizar o boicote dos Estados Unidos. Sobre a não comparência de Marco Rubio no encontro de ministros de Negócios Estrangeiros – substituído por um funcionário de outro escalão – o detentor sul-africano daquela pasta, Ronald Lamola, afirmou que a decisão de Washington não indica um boicote, já que os Estados Unidos enviaram um representante da sua embaixada em Pretória. Lamola defendeu, citado pelos jornais do país, que “nesta reunião, tivemos uma representante da embaixada, Dana Brown, que participou em nome dos EUA. Não houve boicote, eles estavam aqui, participaram e nós apreciamos a presença deles porque são membros plenos do G20″, disse.

O G20 foi originalmente criado como uma reunião de ministros das Finanças em resposta à crise financeira asiática de 1997-99, com o objetivo de coordenar políticas para promover a estabilidade financeira internacional.

O G20 é composto por 19 países: Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Itália, Japão, República da Coreia, México, Rússia, Arábia Saudita, África do Sul, Turquia, Reino Unido e Estados Unidos, além de dois organismos regionais – União Europeia e União Africana. Segundo a própria organização, os membros do G20 representam 85% do PIB global, mais de 75% do comércio internacional e cerca de dois terços da população mundial.

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