Jerónimo Martins, um “baluarte” no PSI 20 em tempo de crise

A retalhista é a única cotada em terreno positivo no índice nacional este ano e brilha no setor na Europa. Relevância em Portugal e menor impacto do vírus na Polónia e Colômbia limitaram exposição.

A tabela dos desempenhos das constituintes do PSI 20 este ano ilustra bem a ligação entre os tempos em que vivemos e os destinos das cotadas consoantes os setores nos quais atuam. De um lado, no vermelho profundo com um tombo de 51,43%, estão as ações do Millennium bcp, tendo estabelecido novos mínimos várias vezes. Na travagem abrupta que o surto do novo coronavírus vai provocar na economia global e nacional, os bancos são um dos elos fracos, obrigados a adiar o pagamento de créditos, a cancelar dividendos e a admitir prejuízos.

Do outro, está a Jerónimo Martins (JM), que com uma valorização de 3,44% em 2020 é a única ação no índice nacional no ‘verde’ e uma das estrelas do Stoxx Europe 600 Retail, índice setorial que perdeu 22% no mesmo período.

“Se observarmos as empresas de retalho de distribuição que integram o Stoxx 600 em termos de ganhos, a Jerónimo Martins é a que possui o quarto melhor desempenho”, sublinha João Queiroz, head of online banking do Banco Carregosa.

Adianta que o título teve “uma função relevante nos momentos extraordinários e de exceção que experimentámos em março, com vendas em quase todos as classes de ativos”, e sublinhou que “este setor e em especial esta ação foi um ‘baluarte’ para os investidores”.

Queiroz explica que a JM representa uma das vertentes mais relevantes para a manutenção do quotidiano das pessoas e que tenderia a ser menos afetada pelo adiamento da despesa e do investimento, mais observável em segmentos com a linha branca ou castanha (produtos duradouros), mas no que são os produtos essenciais e da restauração “take away” terão assistido a um impacto mais relativo.

“As maiores incertezas e riscos colocar-se-iam na rutura dos produtores e na rede de logística, mas parece ter existido um cuidado em procurar salvaguardar a sua integridade, como redução temporárias dos prazos de pagamentos acordados para dar tesouraria àqueles parceiros e adaptar os horários ao confinamento obrigatório dos seus clientes, procurando assim manter o relacionamento de proximidade”.

Para João Calado, head of reseach do BiG – Banco de Investimento Global, o desempenho em bolsa é explicado pelo facto “de o negócio não só não ter sofrido disrupções severas (como aconteceu noutros setores) como pelo facto da procura pelos seus produtos ter aumentado em Portugal e na Polónia, durante esta fase”.

Olhando mais para a frente, Calado diz que o maior impacto da crise económica em Portugal será ao nível do turismo, “pelo que a quebra dos negócios de restauração e hotelaria poderão prejudicar as vendas do Recheio. No contexto geral da empresa não será, no entanto, significativo”.

Explica que quanto ao poder de compra dos consumidores, “os governos têm implementado estímulos económicos de modo a suavizar o impacto desta crise no consumidor, pelo que não vemos dessa perspetiva um grande risco de quebra de receitas”.

João Queiroz salienta que o cenário de crise económica ainda é difícil de quantificar, porque estaremos na fase inicial e dependentes da duração do período de confinamento e da retoma dos usuais fluxos de tráfego de pessoas”.

“Mas assumindo um cenário menos pessimista de abrandamento e controlo do número de casos, com um verão ameno que permita recuperar o sistema de saúde com uma fluida inoculação deste vírus pela restante população, atendendo ao modo de vida ocidental, teríamos uma suave curva de recuperação e retoma da atividade e dos seus indicadores”.

Presença internacional ajudou a diminuir efeito
A diversificação geográfica da empresa, com operações na Polónia e na Colômbia, poderá ter ajudado a dispersar o impacto da pandemia para a Jerónimo Martins.
APolónia até agora registou 5.205 casos confirmados de Covid-19 e 159 óbitos, e a Colômbia 2.056 casos e 59 mortes, o que compara com 13.141 casos e 380 óbitos em Portugal.

“A população na Polónia é de quase 38 milhões e na Colômbia de 49 milhões (o que compara com os 10 de Portugal), e esta pandemia não se afigura mais severa naquelas localizações, pelo que para os seus planos de negócios, ajustados deste evento pandémico, não se estimariam desvios significativos”, refere João Queiroz.

“Tal significaria que na Colômbia poderíamos registar um abrandamento do ímpeto de crescimento, mas sem retrocessos, e a manutenção da estratégia de domínio do mercado de distribuição na Polónia (mais de 50% de quota, considerando receitas com a segunda maior quota apenas com quase 23%)”.

João Calado refere que a Polónia tem sido beneficiada por um aumento de inflação e de poder de compra dos consumidores. “No entanto, prevemos que nos próximos anos o nível de inflação seja inferior, não permitindo atingir o nível de crescimento de vendas comparáveis de 2019”, explica.

“A Colômbia, apesar de ser um mercado em expansão, ainda não atingiu uma dimensão que lhe permita contribuir de forma significativa para o crescimento da empresa”, acrescenta.
Após o desempenho estelar do primeiro trimestre, João Queiroz alerta que , “com a normalização do sistema financeiro, poderemos não ter o mesmo desempenho ficando esta [recuperação] mais diluída ou sofrer algum ajuste em baixa face ao conjunto das restantes recuperações”.

Nos últimos dois dias, com as bolsas mundiais a consolidarem a recuperação e a estabilidade, as ações da JM recuaram 5,2%.

Parte dessa queda poderá ter sido causada por um corte na recomendação para ‘neutral’ de ‘comprar’ e uma redução do preço alvo para 16,95 euros por ação de 19,10 euros por parte do CaixaBank BPI, esta quarta-feira.

Ainda assim, o banco salientou que o título tem um upside de 8,55% face à cotação atual de 15,17 euros e que apesar de poder perder alguma quota de mercado em Portugal e na Polónia no primeiro trimestre, enquanto a rentabilidade também deve ser afetada e refletir algumas das medidas que foram aplicadas no setor, “a Jerónimo Martins é a melhor cotada com histórico comprovado e estrategicamente bem posicionada”.

Artigo publicado no Jornal Económico de 09-04-2020. Para ler a edição completa, aceda aqui ao JE Leitor

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