Numa altura em projeto do euro digital aproxima-se de uma decisão política crucial no Parlamento Europeu – já que nesta altura encontra-se na sua segunda fase de preparação, com o objetivo de estar pronto para a emissão esperada em 2029 – mais de 60 economistas de toda a zona euro estão a apelar ao Parlamento Europeu para resistir ao que chama os lobistas “míopes” e apoiar o projecto do euro digital.
Numa carta aberta, os académicos afirmam estar profundamente preocupados com o facto de as negociações políticas poderem enfraquecer o projecto do euro digital, tornando o continente “mais dependente, menos resiliente e cada vez mais vulnerável às tensões geopolíticas”.
A carta é publicada numa altura em que os bancos do bloco se opõem ao euro digital, temendo a fuga de depósitos e a concorrência com os seus próprios sistemas de moeda digital.
O BCE está a trabalhar há anos numa versão digital da moeda única, mas precisa que o Parlamento Europeu aprove a legislação – um passo que se tem revelado difícil devido à resistência dos legisladores.
Se a legislação for aprovada conforme previsto, os primeiros exercícios piloto com transações reais deverão começar em meados de 2027.
Os eurodeputados manifestam ainda dúvidas quanto às aprovações legislativas necessárias para dar início ao projecto, segundo agência de notícias Finextra que relata que os economistas salientam que, em treze países da zona euro, os pagamentos básicos no retalho dependem inteiramente de sistemas de cartões internacionais, sem qualquer alternativa nacional.
“Esta dependência dos fornecedores de pagamentos estrangeiros (dos EUA) expõe os cidadãos, as empresas e os governos europeus à influência geopolítica, aos interesses comerciais estrangeiros e aos riscos sistémicos fora do controlo da Europa. Sem um euro digital significativo, a nossa dependência irá aprofundar-se à medida que as moedas digitais privadas apoiadas pelos EUA ganharem terreno. A Europa perderá o controlo sobre o elemento mais fundamental da nossa economia: o nosso dinheiro. Os decisores políticos precisam de resistir ao lobby financeiro míope”, insistem.
“O euro digital não deve tornar-se um compromisso simbólico”, conclui a carta. “Podemos não ter uma segunda oportunidade. A questão que se coloca aos decisores políticos da UE é simples: será que os europeus exercerão controlo sobre o seu dinheiro na era digital ou permitirão que outros o controlem por nós?”
No início de 2025, a presidente do BCE, Christine Lagarde, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reforçaram esta leitura num artigo publicado no Financial Times. O euro digital foi apresentado como parte de uma estratégia económica mais ampla para posicionar a União Europeia num mundo marcado por mudanças tecnológicas rápidas, perda de peso industrial e aumento de custos energéticos.
Apesar disso o setor bancário europeu mantém reservas significativas. Os bancos europeus têm uma postura mista em relação ao euro digital, manifestando tanto benefícios como preocupações significativas, especialmente em relação à perda de depósitos e à estabilidade financeira.
O principal receio é que o euro digital drene os depósitos de retalho dos bancos, que são uma fonte de financiamento estável e valiosa. Isso poderia aumentar os seus custos de financiamento e, potencialmente, reduzir a concessão de crédito à economia real. Alguns bancos, incluindo grandes nomes como ING e Deutsche Bank, argumentam que o euro digital “não oferece valor acrescentado” suficiente em relação aos sistemas de pagamento privados já existentes e que poderia subverter esses sistemas.
Existe a preocupação de que a nova moeda digital possa levar à desintermediação bancária, ou seja, os clientes passariam a relacionar-se diretamente com o Banco Central Europeu (BCE) para as suas necessidades de pagamento, diminuindo o papel dos bancos comerciais.
O BCE tem procurado acalmar os receios dos bancos, garantindo que a moeda digital não será remunerada e terá limites de detenção para evitar saídas excessivas de depósitos, assegurando a estabilidade financeira.
O BCE e alguns analistas apontam benefícios, desde que o euro digital seja bem desenhado e implementado em colaboração com o setor privado.
Do ponto de vista do mercado, a dependência europeia de sistemas de pagamento sediados nos Estados Unidos é um dos argumentos centrais a favor do projeto. Portanto fala-se do fortalecimento da Soberania Europeia, já que pode ajudar a reduzir a dependência de sistemas de pagamento externos (como Visa ou Mastercard).
Num relatório publicado no ano passado, o Banco Central Europeu (BCE) estimou que a adoção do euro digital vai levar à retirada de cinco em cada 10 euros físicos em circulação.
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