Marcelo lança indireta à Cofina: “ninguém está imune à crise dos media“

No encerramento da conferência sobre o financiamento dos media, o Presidente da República deixou farpas aos grupos que, em sua opinião, se acham protegidos da crise devido a cenários de consolidação.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou hoje que o setor dos media nacional atravessa uma crise mais grave que a dos seus pares europeus e que é necessário encontrar soluções.

”A nossa comunicação social encontra-se em crise económica e financeira, institucional e cívica”, defendeu Marcelo, contestando quem critica este diagnóstico.

”Tenho dificuldade em acompanhar o otimismo dos que sobreavaliam os seus recursos numa ótica de muito curto prazo”, disse o Chefe do Estado no discurso de encerramento da Conferência sobre Financiamento dos Media, que decorreu ontem e hoje na Cidadela de Cascais, promovida pelo Sindicato dos Jornalistas, com o alto patrocínio da Presidência da República.

Marcelo acrescentou que a crise no setor dos media nacional não é semelhante à que se faz sentir noutros países europeus, dada a menor massa crítica das empresas do setor em Portugal. E acrescentou que nenhum player do setor está realmente alheio à crise, apesar de haver quem acredite que poderá crescer com operações de consolidação em curso, numa referência implícita à fusão entre a Cofina e a Media Capital, a dona da TVI.

Recorde-se que a Cofina contestou o facto de os seus jornalistas não terem sido convidados para a conferência promovida pelo Sindicato. Alegação que o sindicato rejeita.

“Não consigo subscrever o otimismo de alguns minoritários”, disse o Presidente, acrescentando que “aqueles que acham que escapam à crise não escaparão”.

Marcelo criticou a inércia e a omissão da sociedade civil e dos decisores públicos, prometendo continuar a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para encontrar soluções. Defendeu ainda que é necessário regular as grandes plataformas digitais.

”Tudo o que a sociedade civil possa lançar, seja a reorganização dos grupos de media, com ou  não estrutura fundacional, a incentivos à leitura, chegando mesmo a novos modelos de negócio digitais que mereçam compromissos estáveis por parte de fundações de referência  na nossa sociedade – será bem vindo”, disse Marcelo.

Passaram pela Cidadela cerca de 40 jornalistas, gestores do setor dos media, investigadores universitários e responsáveis políticos, para discutir soluções para a crise do setor.

Ao longo de dois dias (ver notícias relacionadas), houve um consenso no diagnóstico, mas faltou um acordo em relação a temas como a existência de apoios do Estado.

Em debate estiveram as dificuldades causadas pela transformação digital, que tem consequências não só a nível económico e financeiro, mas também no domínio da ética e dos princípios deontológicos.

”O eixo da roda acompanha a roda, não anda. O eixo da roda representa o núcleo dos valores. Esta metáfora, belíssima, pode ser adaptada aos desafios da transição digital”, resumiu o relator da conferência, o jornalista Adelino Gomes.

”O jornalismo profissional, sem os princípios éticos e sem o princípio da excelência, não faz sentido”, resumiu.

A presidente do Sindicato dos Jornalista, Sofia Branco, revelou no final da conferência que esta entidade vai entregar ao Presidente da República e ao Governo um conjunto de propostas apresentadas pelos oradores da conferência.

 

Ler mais
Relacionadas

Como financiar o jornalismo? Conheça as opiniões dos principais players do mercado

O financiamento dos meios de comunicação social esteve hoje em debate por jornalistas e gestores numa conferência organizada pelo Sindicato dos Jornalistas.

Apoios do Estado aos meios de comunicação social dividem deputados

Representantes dos partidos políticos divergiram quanto às soluções para os problemas da comunicação social portuguesa na Conferência Financiamento dos Media, organizada pelo Sindicato dos Jornalistas.
Recomendadas

Mais de 50 jornalistas subscrevem abaixo-assinado em defesa de Maria Flor Pedroso

“Confrontados com o grave ataque público à integridade profissional da jornalista Maria Flor Pedroso, os jornalistas abaixo-assinados não podem deixar de tomar posição em sua defesa”, referem os 55 jornalistas que subscrevem o documento.

PremiumO Estado angolano, a empresa americana e o gestor português

A Aenergy, detida por um português, teve vários contratos cancelados pelo Executivo angolano por alegadas irregularidades. Oempresário diz que sempre cumpriu a lei e já recorreu das decisões.

Equipa da RTP retida e questionada na fronteira no regresso de Hong Kong

O caso levou a Associação de Imprensa em Português e Inglês de Macau (AIPIM) a apelar às autoridades de Macau para que “o livre exercício da profissão esteja assegurado na plenitude”.
Comentários