Mulheres continuam afastadas do poder e auferem menos 244 euros por mês de ganho total que os homens

A diferença de remunerações auferidas pelas mulheres em Portugal ascende a cerca de 755 euros entre quadros superiores, revelou ontem, terça-feira, a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro, na abertura da Conferência comemorativa do 18º Aniversário do Grupo BEL, realizada em Lisboa, no Instituto Universitário Militar, onde participaram Jorge Braga de Macedo, ex-ministro das Finanças e Diogo Leite Campos, ex-governador do Banco de Portugal.

As mulheres ainda estão afastadas do poder em Portugal. Porque “continuam aquém dos 33% na tomada de decisão económica”. Quem o diz é a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro. Mas ao nível dos agregados familiares, a situação ainda é mais desfavorável às mulheres porque “apenas 19% dos homens fazem pelo menos uma hora de trabalho doméstico por dia, contra 78% das mulheres”, refere. Quanto a remunerações, “as mulheres recebem menos cerca de 224 euros por mês de ganho total que os homens, ascendendo a uma diferença de cerca de 755 euros nos quadros superiores”, refere a secretária de Estado.

Trata-se de uma realidade que traduz o quotidiano da vida da população feminina em Portugal e foi descrita ontem de manha – terça-feira, 22 de outubro -, na abertura da conferência comemorativa dos 18 anos do Grupo BEL, liderado pelo empresário Marco Galinha, subordinada ao tema “Perspetivas de Liderança. Horizontes de Mudança – Como Podem os empresários mudar o mundo”, realizada hoje no IUM – Instituto Universitário Militar, em Pedroços, Lisboa.

Marco Galinha, fundador, presidente e CEO do Grupo BEL – promotor da conferência –, referiu ao JE que entende a realidade descrita pela secretária de Estado Rosa Monteiro, mas explica que nas empresas do seu grupo “o enquadramento de género é diferente”. “Uma das coisas muito importantes que defendemos no Grupo BEL é que nós somos contra as quotas de géneros, porque para nós criavam-nos um problema: obrigavam-nos a despedir mulheres e a contratar mais homens”. Porque – exemplifica – “nos serviços partilhados temos 80% de mulheres e 20% de homens, e enquanto em algumas outras empresas temos o contrário, ou seja, estamos muito equilibrados. Por isso digo que não precisamos de quotas”.

Meritocracia no Grupo BEL

“O Grupo BEL funciona em sistema de meritocracia. Precisamos que as pessoas executem tarefas, funções e projetos de uma forma correta e se trabalharmos pela inteligência, pelo mérito e pela capacidade eu creio que há algumas tarefas para as quais as mulheres são superiores, tal como há outras para as quais os homens terão perfis diferentes”, comenta Marco Galinha.

Nos painéis da manhã da Conferência do Grupo BEL, participaram igualmente os professores Diogo Leite Campos, ex-Governador do Banco de Portugal e membro do Conselho Consultivo da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, e Jorge Braga de Macedo, da Nova SBE e ex-ministro das Finanças, e o brigadeiro-general José Duarte da Costa, Comandante Nacional da ANEPC – Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (leia mais informações no texto na próxima edição semanal do Jornal Económico).

Rosa Monteiro felicitou a organização da conferência” pela forma como nos apresenta o tema, desafiando-nos a questionar o que são estas lideranças e a pensá-las em transformação e, elas próprias, como motores de mudança”. A secretária de Estado considerou que se trata de um desafio duplo: “O de pensar a transformação das lideranças na perspetiva de quem nelas participa ou a quem é permitido participar”.

A este respeito referiu o relatório do Instituto Europeu para a Igualdade de Género que foi publicado na semana passada e que “traça o quadro da evolução das desigualdades entre mulheres e homens nos países da União Europeia (EU) numa série de domínios, desde o trabalho, poder, conhecimento, tempo, dinheiro e saúde”.

“O domínio do poder é onde Portugal está pior”

Segundo Rosa Monteiro, “o domínio do poder – que se refere à distribuição do poder entre mulheres e homens – é onde Portugal está pior, não obstante ter vindo a progredir a um ritmo superior à média europeia. De facto, as mulheres continuam aquém dos 33% na tomada de decisão económica”, diz.

“Sabemos que a raiz do desequilíbrio reside nos estereótipos de género que determinam que às mulheres continuem a estar associadas as tarefas de cuidado e domésticas, o domínio do privado, da passividade, e que lhes seja vedado acesso aos domínios económico e político, à decisão”, comenta Rosa Monteiro.

“Sabemos que estas desigualdades não são meras abstrações, mas o resultado de práticas diárias de chefias, de departamentos de recursos humanos, de trabalhadores e de trabalhadoras, de homens e de mulheres. São práticas que, entre outros, assumem um ideal de líder e de mérito que ninguém ousa questionar e onde a mulher não tem lugar, porque lhe cabe permitir que o homem lá esteja”, adianta a secretária de Estado.

Práticas negam a parentalidade como bem público

Rosa Monteiro comenta que são práticas que “assumem que o profissionalismo equivale a deixar de ser parte de uma família e que negam a parentalidade como bem público, condição de crescimento e sustentabilidade”. A secretária de Estado reconhece que, “de facto, quatro em cada dez pessoas em Portugal dizem não ter acesso a formas flexíveis de trabalho na sua organização que lhes permita conciliar” toda a vida, “contra 31% na EU” (segundo dados do Eurobarómetro 2018).

O relatório do Instituto Europeu para a Igualdade de Género, que Rosa Monteiro referiu, “revela que Portugal está no quarto lugar da UE na distribuição desigual do tempo entre mulheres e homens – e destaca que apenas 19% dos homens fazem pelo menos uma hora de trabalho doméstico por dia, contra 78% das mulheres”.

A secretária de Estado referiu ainda que “importa questionar e avaliar de forma contínua o valor das funções na base de grelhas salariais em cada organização, que, tantas vezes, escondem a desvalorização de atividades tidas por femininas”. Considera que estes dados “demonstram que as mulheres recebem menos cerca de 224 euros por mês de ganho total que os homens, ascendendo a uma diferença de cerca de 755 euros nos quadros superiores” (segundo o mesmo barómetro). Mais: “as mulheres estão sub-representadas em profissões mais valorizadas e bem pagas, quando são a maioria da população empregada com nível superior e secundário completo”, comenta.

Rosa Monteiro considera igualmente que “o relatório do Instituto Europeu para a Igualdade de Género revela particular preocupação na concentração desigual de mulheres e homens em diferentes setores de atividades em Portugal: com 29% de mulheres a trabalhar na área da educação, saúde ou trabalho social em comparação com apenas 7% de homens, que, por sua vez, representam 31% dos trabalhadores nas áreas da ciência, tecnologia, engenharia e matemáticas, contra 9% de mulheres”.

Cenário “altamente insustentável”

“Sabemos que este é um cenário altamente insustentável – é sobejamente reconhecida e reiterada a urgência na alteração destas tendências, a nível nacional, europeu e internacional”, defende a secretária de Estado. “Mas sabemos também que esta alteração só se consegue com a intervenção de todos os setores – Governo, administração pública, empresas públicas e empresas privadas, e parceiros sociais”, explicita.

“Para que a igualdade não seja mera retórica, temos vindo a desenvolver ações nestes vários domínios, numa lógica que privilegia o trabalho estreito com as empresas e respetivas lideranças”, adiantou, destacando “a lei aprovada em 2017 que estabelece um limiar mínimo de 33,3% de mulheres e de homens nas administrações das empresas públicas e das empresas cotadas em bolsa”.

Esta lei já produziu “impactos muito positivos, sinais de uma mudança extraordinária”, referiu Rosa Monteiro, esclarecendo que “hoje, as empresas cotadas estão apenas a um ponto percentual de atingir o limiar mínimo obrigatório” (ou seja, estão com mais sete pontos percentuais do que 2017). Quanto às empresas do setor do Estado “já o ultrapassaram (estando hoje em 35%, com mais sete pontos percentuais do que em 2017)”, explica a secretária de Estado, adiantando que “as empresas locais estão a 2,3 pontos percentuais do limiar de 33,3% (tendo hoje 31%)”. Mas para Rosa Monteiro, o que mais importa é que “estas iniciativas vão para além do mero aumento da representação numérica das mulheres. Tem que haver transformação substantiva”, defende.

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