“Normalização da atividade económica não será benéfica para os mercados financeiros”, aponta Sixty Degrees

Gestora financeira Sixty Degrees apresentou a estratégia de investimento para 2021, com forte predomínio para as ações. No entanto, antecipa que a normalização da retoma económica poderá não ser positiva para estes ativos e, por isso, está exposta à dívida norte-americana e corporativa ‘AAA’, às matérias-primas com aplicação industrial e ao dólar norte-americano.

Para a Sixty Degrees, que gere o fundo mobiliário Sixty Degrees PPR/OICVM Flexível, o “principal risco” para os mercados financeiros em 2021 dependerá do ímpeto de atuação dos bancos centrais na economia. Mas tudo depende de uma relação ainda incerta entre o sucesso da vacina contra a Covid-19 e a retoma da atividade económica.

A sociedade gestora, que apresentou esta terça-feira a estratégia de investimento para 2021, com predomínio para a exposição em ações, sublinhou que o sucesso da vacinação contra o novo coronavírus levará a “uma normalização da atividade económica”.

Ora, apesar de ser “benéfica para a economia base, não será benéfica para os mercados financeiros”, salientou Nuno Sousa Pereira, head of investment da Sixty Degrees.

E porquê? Porque a retoma da normalização da atividade económica terá como consequência uma diminuição da força de ação dos bancos centrais em estimular a economia que passarão a ter “a desculpa de não continuarem com os estímulos”, adiantou o especialista em mercados financeiros.

Os bancos centrais, “ao diminuírem os estímulos e ao controlarem mais os seus balanços, irá haver menos fluxo de capital disponível em investimento em mercados e haverá mais capital disponível para investimento na produção da economia real. E isso poderá levar a que os investidores decidam, por exemplo, que já chega de investir em ações e decidam procurar outro tipo de investimentos. Os bancos centrais deixam de disponibilizar tanto dinheiro nos mercados financeiros e poderá levar a elevados pontos de volatilidade este ano, aos quais será preciso reagir diariamente”, afirmou Nuno Sousa Pereira.

Mas, até haver normalização da retoma da atividade económica, a Sixty Degrees antecipa que os bancos centrais continuem “a injetar liquidez no mercado a um ritmo recorde” que, por sua vez, “tem permitido que o dinheiro flua para ativos de risco à procura de retorno”, prosseguiu o head of investment da gestora portuguesa.

Esta é a principal razão que levou a Sixty Degrees a construir um portefólio de investimento para 2021 com uma exposição de 60% em ações — que são ativos de risco — que terão “um bom desempenho” enquanto os bancos centrais continuarem a injetar liquidez no mercado.

Mas houve outro factor que levou a gestora financeira a alocar a maioria do capital sob gestão a ações: o aumento das poupanças. De acordo com um gráfico apresentado durante a apresentação da estratégia de investimento para 2021, as poupanças nos Estados Unidos aumentaram 1,5 biliões de dólares entre o terceiro e o quarto trimestres de 2020, para cerca de 11 biliões de dólares, devendo estabilizarem nos 11,5 biliões no futuro próximo.

“Este dinheiro está disponível tanto para o consumo, como para o investimento no curto-prazo. Assim que a confiança do consumo voltar, este montante vai voltar à economia”, salientou Nuno Sousa Pereira.

Contrabalançar o risco com dívida ‘boa’ e metais preciosos

Se 60% do portefólio de investimento da Sixty Degrees é virado para o risco, os restantes 40% são para o mitigar (e também para encontrar oportunidades). Por isso, a gestora financeira tem uma exposição de 20% ao mercado de dívida, 10% a commodities e 10% ao mercado cambial.

A componente de obrigações — 10 dívida norte-americana, 5% em dívida corporativa triple A, e 5% em dívida high yield — explica-se por dois motivos. Primeiro, a busca pela rentabilidade num universo de ativos que oferece rentabilidades negativas. Por isso, a Sixty Degrees fugiu da dívida pública europeia e preferiu a dívida norte-americana, que tem alguma “rentabilidade associada”. Segundo, porque os governos vão continuar a endividar-se “devido à necessidade de estimular a economia”, explicou Nuno Sousa Pereira.

No segmento empresarial, o head of investment da Sixty Degrees considerou que “há um incentivo” para as empresas recorrerem ao mercado de dívida, capazes de emitir dívida com maturidades mais longas “e com custos cada vez mais baixos” e “têm aproveitado as condições de mercado para trancar custos de financiamento relativamente baixos e conseguir fazer leverage no sentido de ter um multiplicador do retorno sobre os seus ativos que, neste momento, são baixos”.

Nas commodities, que no ano passado não fazia parte da alocação estratégica de capital do fundo da Sixty Degrees, a gestora financeira destacou a importância das matérias-primas com aplicação industrial que “beneficiam do crescimento económico”.

“A atividade há-de voltar a uma aparente normalidade e se isso acontecer pode haver uma retoma da atividade industrial que leva a que os metais preciosos com aplicação industrial tenham muito procura. Caso aconteça o cenário contrário, os metais precioso poderão servir de refúgio”, disse Nuno Sousa Pereira.

Na exposição cambial  a gestora inicia o ano com “0% de alocação ao dólar” porque não é o momento certo para investir na principal moeda mundial. “O mercado continua com uma força tremenda de venda de dólares e compra de outras moedas”, disse o head of investment da Sixty Degrees, mas ressalvou: ” vamos aproveitar a oportunidades em que esta cotação estabilize para voltarmos a ter exposição a dólar numa tentativa de reequilibrar o portefólio”.

Assim, a gestora financeira tem prevista uma alocação ao mercado cambial com predominância para o dólar norte-americano — 70% alocação ao dólar e 30% alocação ao euro — por causa da força da economia dos Estados Unidos.

“Os Estados Unidos continuam a ser economia mais dinâmica e foi a única economia que conseguiu de algum modo normalizar as condições monetárias pré-Covid e foi a única que teve espaço para fazer uma atuação abrangente de combate aos efeitos da pandemia no mercado financeiro. Continua a ser a área geográfica que consideramos que seja a primeira a recuperar. Continua a ser também a moeda do mundo”, concluiu Nuno Sousa Pereira.

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