A forte desvalorização registada pela bitcoin, que já atinge os 45% desde o pico de 124.310 dólares (105.460 euros) atingido em outubro de 2025, está a colocar em sérios apuros as empresas que se dedicam exclusivamente à compra de criptomoedas. Um dos exemplos mais conhecidos é o da Strategy. E assim nasce a operação Hotel Califórnia, como descreve a publicação espanhola El Economista. Este tipo de empresas foi fortemente penalizada em bolsa na quinta-feira.
Na passada quinta-feira a bitcoin caiu abaixo da barreira dos 70 mil dólares (59,2 mil euros), transacionando o seu valor mais baixo desde novembro de 2024. “Com o bitcoin a continuar a sua queda abaixo da barreira psicológica dos 70 mil dólares (59,2 mil dólares), é evidente que o mercado das criptomoedas está agora em plena capitulação”, disse o cofundador da plataforma de análise de criptomoedas Coin Bureau, disse Nic Puckrin, citado pela agência noticiosa Reuters.
“Se os ciclos anteriores servem de referência, isto já não é uma correção de curto prazo, mas sim uma transição… e estas normalmente duram meses, não semanas”, acrescentou Nic Puckrin.
E há quem já perspetive que a bitcoin possam ver o seu preço cair ainda mais. É o caso do analista da XTB, João Cruz. Este diz que caso se verifique o cenário de 2022 a bitcoin ainda “poderá enfrentar mais um impulso de queda” provavelmente em direção a 50 mil dólares (42,4 mil euros).
“Ao mesmo tempo, o ethereum está se aproximando de um teste de dois mil dólares, enquanto a popular altcoin ripple caiu 10%, prolongando a liquidação. A bitcoin está a ser negociado no seu nível mais baixo desde o início de novembro de 2024, antes de Donald Trump vencer as eleições [norte-americanas]. A postura favorável às criptomoedas da nova administração dos Estados Unidos (EUA) não conseguiu interromper o ciclo de pânico, e o mercado parece agora ter entrado numa fase de “descoberta do fundo””, referiu o analista da XTB, João Cruz, na quinta-feira.
João Cruz adianta também que “não se pode descartar” que o preço volte a testar o chamado delta de preço na cadeia este ano, que é um indicador «macro» combinado da bitcoin baseado em zonas de suporte de longo prazo e no preço médio de compra realizado, atualmente em torno de 45 mil dólares (38,1 mil dólares). “Nos dois mercados em baixa anteriores, o nível delta atuou como um suporte macro”, reforça o analista da XTB.
Já o estrategista chefe da Stifel, Barry Bannister, defendeu, na quarta-feira, numa nota transcrita pela CNBC, que a bitcoin pode chegar aos 38 mil dólares (32,1 mil euros), levando em considerações as tendências e movimentos de preços durante ciclos de forte desvalorização da bitcoin.
“Isto não é uma ‘correção do mercado em alta’ ou uma ‘queda. É um inverno cripto completo, ao estilo de 2022, digno de Leonardo DiCaprio em The Revenant — desencadeado por fatores que vão desde a alavancagem excessiva à realização generalizada de lucros por parte dos investidores pioneiros”, disse o diretor de investimento da Bitwise Asset Management, Matt Hougan, citado pela CNBC.
Na quinta-feira as empresas que se dedicam à compra de criptoativos tiveram fortes quedas em bolsa. A Smarter Web Company desceu 18% enquanto que a Nakamoto e a Metaplanet quebraram 9% e 7%.
Estas empresas de compra de criptomoedas foram bastante importantes para a subida deste tipo de ativos, com a bitcoin à cabeça. Mas agora com as fortes desvalorizações na criptomoeda este tipo de empresas podem transformar-se em inimigos destes criptoativos, passando a operar como uma espécie de empresas zombies, descreve a publicação espanhola. Mas como?
Tendo em conta que os ativos destas empresas estão a desvalorizar estas organizações são forçadas a recorrer a dívida para se manterem com as ‘portas abertas’. E têm várias formas de o fazer. Podem contrair empréstimos dando os seus tokens (exemplo bitcoin) como garantia, podem vender os seus criptoativos, ou então recorrer a opções como forma de gerar rendimentos. Em qualquer dos cenários isto pode originar novas vendas em massa de criptoativos, como a bitcoin. “Para as empresas de tesouraria de ativos digitais sem receitas, sem negócios operacionais e sem forma de sair das suas posições de tesouraria sem destruir o mercado, o colapso é existencial. Chamamos a isto a Operação Hotel California: pode entrar a qualquer momento, mas nunca poderá sair”, salienta o El Economista, recorrendo a declarações da consultora Tokenize.
Esta semana foi reportado que as liquidações no bitcoin atingiram os 2,5 mil milhões de dólares (2,1 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual) nos últimos dias [entre o fim-de-semana e 3 de fevereiro], de acordo com os dados da CoinGlass, transcritos pela agência noticiosa Reuters, gerando uma descida no preço deste criptoativo como consequência também das vendas em outros ativos como ações e metais preciosos.
Esta mais recente liquidação, no criptoativo, ficou abaixo do máximo de 19 mil milhões de dólares (16,1 mil milhões de euros) [entre compras e vendas do criptoativo] que se verificou quando o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou novas tarifas à China, assinala a agência noticiosa.
De acordo com os dados da CoinShares, transcritos pela CNBC, na semana passada, os produtos de investimento em ativos digitais registaram a segunda semana consecutiva de saídas de capital, totalizando 1,7 mil milhões de dólares (1,4 mil milhões de euros). A responsável pela investigação da CoinShares, James Butterfill, referiu, transcrita pela CNBC, que as saídas [de capital] acumuladas no ano [em ativos digitais] atingem os mil milhões de dólares (850 milhões de euros) o que “sinaliza uma deterioração acentuada do sentimento dos investidores em relação a esta classe de ativos”.
A analista da corretora de criptomoedas Nexo, Dessislava Ianeva, citada pela CNBC, referiu que a queda no preço do bitcoin, nos últimos dias, “coincidiu com uma aversão ao risco mais ampla nos mercados globais” e “foi amplificada pela baixa liquidez estrutural aos fins de semana, e não por desenvolvimentos específicos do mercado de criptomoedas ou sinais de stress fundamental”.
Já o analista da empresa de criptomoedas Bitbank, Yuya Hasegawa, citado também pela CNBC, salientou que esta queda no bitcoin “parece ter sido impulsionada” por uma combinação de “crescente risco geopolítico, queda das ações tecnológicas desencadeada pela Microsoft e um colapso dos preços dos metais preciosos, [que é visto como] um dos poucos refúgios seguros que restam para o capital dos investidores nas últimas semanas”.
A CoinDesk assinalou, também na segunda-feira, que mais de 500 milhões de dólares (424 milhões de euros) em posições longas alavancadas “foram encerradas à força” em 24 horas.
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